domingo, 10 de março de 2013

A apatia custará caro

Mais quanto tempo?

A Guerra Civil na Síria está caminhando para seu segundo aniversário e já deixou um saldo de mais de 70 mil mortes e cerca de um milhão de refugiados. Apesar dos últimos sinais de negociação, Bashar Al-Assad segue com seu massacre e só agora a oposição parece estar caminhando para a unidade, o que na prática não quer dizer muita coisa. Mas afinal de contas, qual o papel dos Estados Unidos no conflito?

Analisando friamente, nenhum. Mas as coisas não são assim. Na sua qualidade de grande potência os Estados Unidos não tem apenas o direito, mas o dever moral de intervir em favor do povo sírio. Logicamente muitos leitores acham que estou exagerando. No entanto, este é exatamente o pensamento dos rebeldes e dos civis que estão sendo mortos por Assad. Outros vão ainda mais além, culpando os Americanos pela permanência do ditador no poder. Nas palavras de Rachel Kleinfeld, "muitos na região acreditam que, ao não fazer nada, o país mais forte do mundo escolheu cinicamente o resultado final: Assad no poder e civis em sacos para cadáveres"¹.

Antes de abordar o resultado desta política de não-intervenção direta Americana, faz-se necessário compreender por quê o senhor Barack Obama quer tanto fugir do conflito. O primeiro motivo é o compreensível medo de se envolver novamente em uma guerra sem ter previsão de saída. Este argumento é sólido e contundente no que tange a entrada de tropas americanas em solo sírio. Mas e a questão das armas? Acredito que este seja o ponto mais delicado. Partindo do pressuposto de que cada revolução dentro da complexa Primavera Árabe tem suas peculiaridades, comparemos o caso sírio com o líbio: no país norte-africano os americanos ministraram armas aos rebeldes desde o início do conflito, haja vista que a queda de Muamar Kadafi era muito clara. No final das contas, estas armas caíram nas mãos de jihadistas, muitos dos quais invadiram o norte do Mali e chegaram até mesmo a implantar a sharía. Vale lembrar também que o embaixador Christopher Stevens foi morto após um ataque terrorista em Benghazi.

E aí vem o questionamento acerca da segunda razão pela qual governo do senhor Obama não forneceu armas aos rebeldes sírios desde a fase inicial do conflito. Isso aconteceu basicamente porque, dentre as revoltas, a da Síria era a mais desacreditada. O processo de oposição ao governo Assad foi inicialmente gradativo. Os primeiros a protestar eram uma minoria. A revolta foi se intensificando conforme Assad coibia violentamente os protestos mas, ainda assim, tendo a maioria a seu lado. O momento-chave da divisão e da perda de controle por parte de seu clã foi quando os sunitas, majoritariamente, pegaram em armas e aí foi decretada oficialmente uma Guerra Civil. Neste meio tempo as mortes já passavam de 20 mil. Uma violenta guerra visando o controle do país era mais do que clara. Só a CIA não conseguia (ou não queria) enxergar.

Quando o genral Martin Dempsey juntamente com Leon Panetta, Hillary Clinton e o então chefe da CIA, David Petraeus, criaram um plano cujo objetivo era armar os rebeldes, o senhor Obama vetou. Agora o número de mortos, como mencionado na introdução, ultrapassa os 70 mil e as únicas esperanças recaem sobre os guerreiros jihadistas, que estão melhor armados e preparados. Em meu último podcast comentei sobre estes terroristas, com foco maior para o Jabaht Al-Nursa, que é o mais forte deles. Mas se a Síria, antes da revolução, era um verdadeiro exemplo de convivência de diferentes povos porque esta aproximação com os ideias dos extremistas islâmicos? Ainda que o leitor não acompanhe o conflito, os argumentos tecidos anteriormente já respondem com clareza tal pergunta.

Aproveitando-se justamente deste abandono internacional terroristas de outros países ofereceram apoio e armas, em troca "apenas" de propagarem suas ideias radicais do Alcorão. Como se não bastasse isso, alguns dos países "amigos" dos rebeldes financiam descaradamente o terrorismo. O melhor exemplo é a Arábia Saudita. Apoiar os jihadistas na Síria dá a Ryadh a oportunidade de enviar seus próprios radicais ao país, onde podem lutar e possivelmente morrer. Com um grande número de jovens desempregados, subempregados e marginalizados, a jihad na Síria oferece uma "válvula de escape" como no Iraque, na Chechênia, na Bósnia e no Afeganistão. Os relatórios indicam também que os jovens estão viajando de graça e recebendo um salário por seus serviços². Nem é preciso comentar os prejuízos que este momentâneo alívio causarão a Ryadh a médio/longo prazo. E este também não é o tema da análise.

Passemos finalmente aos comentários sobre o custo da não-intervenção Americana. De uma forma simplista e concisa ela só aumentará o ódio para com os Estados Unidos. Há pessoas por aí, me refiro aos anti-americanos de plantão, que fomentam este ódio devido aos EUA se meterem naquilo que não os interessa como por exemplo, ainda na visão deles, conflitos externos. Pelo visto o senhor Barack Obama pensa a mesma coisa. Para o professor Rami Khouri, "isso soa como uma política razoável mas, na verdade, é um fracasso total. Na verdade, traz o resultado que Washington diz querer evitar -a ascensão, ou mesmo o domínio, destes grupos islâmicos que odeiam os EUA. O governo americano fala corajosamente em derrubar Assad mas pouco faz para consegui-lo. Enquanto isso militantes islâmicos têm armas e vão acumulando vitórias passando, portanto, a ganhar a confiança das pessoas comuns de todo o país".

Ainda que o cenário pareça cada vez mais nebuloso daqui para frente, a posição irredutível de Washington permanece. Na semana passada o novo Secretário de Estado, John Kerry, anunciou a doação de US$ 60 milhões para ajuda humanitária, o que não suprirá todas as carências -físicas e militares- do povo sírio.

¹ The case for arming sirian rebels. Rachel Kleinfeld. Carnegie Endowment. http://carnegieendowment.org/2013/02/24/russia-s-foreign-and-security-policy-update/fktt

² The consequences of intervening in Syria. Scott Stewart. Stratfor. http://www.stratfor.com/weekly/consequences-intervening-syria?utm_source=freelist-f&utm_medium=email&utm_campaign=20130131&utm_term=sweekly&utm_content=readmore&elq=6e39f05dfde94ca489ed89b52f6e10a6

sexta-feira, 1 de março de 2013

Pobres italianos

Diferenças? O cabelo, talvez. TELEGRAPH.

No início desta semana foram realizadas eleições na Itália e o resultado não poderia ser mais caótico. O Partido Democrata (coalizão de centro-esquerda) de Pier Luigi Bersani venceu, como todos esperavam, mas com pequena vantagem sobre O Povo da Liberdade (partido de Berlusconi) tanto na Câmara quanto no Senado, o que dificultará -e muito- a formação de uma sólida coalizão de governo.

Na câmara (630 cadeiras no total) o PD conquistou 29,54% do eleitorado, o que significou a conquista de 345 cadeiras (contando também os assentos de bonificação dados ao vencedor). O PDL teve 29,18% dos votos e ficou 125 cadeiras. No Senado (cujo total de cadeiras é 315), a vantagem esquerdista também foi pequena: 31,63% para Bersani e 30,72% para Berlusconi. É importante mencionar que há menos de três meses as intenções de voto do PDL não passavam de 14%. Mas ainda não é o momento de entrarmos no jogo político de Il Cavaliere.

Como se já não bastasse esta pequena vantagem para o PD, o Movimento 5 Estrelas do comediante (?) Beppe Grillo foi o terceiro partido mais votado tanto na Câmara quanto no Senado. Na primeira conquistou assustadores 25,55%, que se traduz em nada menos do que 109 representantes. No Senado foram 23,79%, ou seja, 54 cadeiras. As estatísticas dizem que um em cada quatro italianos votou em Grillo.

Il Professore Mario Monti, que inicialmente não queria entrar na política findado seu governo tecnocrático, mudou de ideia e possivelmente saiu muito desgostoso. Conquistou 19 cadeiras no Senado (9,13%) e colocará 47 parlamentares na Câmara (10,56%). Claramente suas medidas de austeridade que tanto agradaram a UE foram impopulares no âmbito interno. Agora o Partido Popular Europeu, precisará engolir Berlusconi novamente, depois de tê-lo chutado há não muito tempo e acolhido o senhor Monti.

O populismo venceu

Se é que houve um grande vencedor nestas eleições foi o populismo. As promessas vagas e completamente infundamentadas de Berlusconi e Beppe Grillo conquistaram um povo vulnerável e abalado por uma forte crise econômica. Mesmo que alguém duvide, é inegável que o populismo é uma das armas políticas mais cruéis e covardes que existem.

Berlusconi (o Bunga-Bunga) prometeu reembolsar os contribuintes de impostos impopulares. E, pasmem! Ainda assim ele não foi deliberadamente acusado de compra de votos. É provável que exista a dúvida acerca de por que o dono do Milan recebeu tantos votos mesmo sendo acusado de infinitos delitos (inclusive o de manter relações sexuais com uma garota de 17 anos, Ruby). A resposta é simples: além de promover medidas descaradas e populistas, ele é dono de grandes veículos de comunicação italianos, ou seja, tem uma influência abissal na mídia que lhe permite se acercar à população de uma forma mais direta.

E como explicar o fenômeno Grillo? Pura e simplesmente indignação. Com alardeantes índices de corrupção (dentre os maiores da Europa), recortes impopulares e políticos que não passam confiança alguma, as pessoas preferiram votar em um partido que, apesar de maluco e não ter um plano de governo concreto, é ao menos honesto e fará o possível para dificultar a vida dos corruptos (pelo menos a princípio). Os eleitores de Grillo são, na sua maioria, homens mais velhos, de melhor nível educacional e acima da média de desemprego¹.

Chegou a hora da verdade

Nesta sexa-feira (1º), o presidente Giorgio Napolitano comunicou que fará o possível para que uma coalizão seja formada e refutou quaisquer possibilidades de retorno imediato às urnas: "Eu não estou interessado em votar novamente". Ademais, disse que o próximo presidente -seu mandato termina em maio- seguramente pensará a mesma coisa.

O problema é que a única coalizão de governo mais provável, entre Bersani e Monti, seria demasiado frágil e insuficiente para guiar o país. Logo após a divulgação dos resultados oficiais Grillo fez absoluta questão de ressaltar que, a priori, não aceitaria entrar em qualquer coalizão de governo. Ademais, descreveu Bersani como "um homem morto falando". 

Até mesmo a possibilidade de uma grande coalizão PDL-PD chegou a ser cogitada, mas ambos refutaram tal ideia absurda. A imprensa italiana, mesmo exagerando em muitos aspectos, tem razão em dizer que, de momento, a Itália é ingovernável. Se estiverem pensando em uma coalizão Monti-Berlusconi, esta também está descartada. O PDL rompeu com o governo do tecnocrata no fim do ano passado visando justamente as eleições.

Segundo a Reuters², se Bersani não conseguir formar um governo ele poderá ser substituído pelo jovem Matteo Renzi, prefeito de Florença. Ele pertence à ala mais moderada do PD (Bersani, por outro lado, era do Partido Comunista) e perdeu nas primárias do partido por uma pequena diferença. Por enquanto, o cenário político italiano é quase tão caótico quanto na época em que Berlusconi era o primeiro ministro.

¹ "Circus Maximus (II). Caio Blinder. http://veja.abril.com.br/blog/nova-york/italia/circus-maximus-ii/

² "Italian president rules out new vote as parties wrangle". Reuters World. http://www.reuters.com/article/2013/03/01/us-italy-vote-idUSBRE9200EJ20130301

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

De inimigos a aliados

Os nômades do deserto.

A situação dos tuaregues no Mali sempre foi muito complicada e nos últimos anos beirou o colapso. Foi o que aconteceu justamente no ano passado, quando o MNLA (Movimento Nacional pela Libertação do Azawad) se aliou a grupos terroristas ligados à AQMI para tomar o norte de Mali e anunciar a "independência" da citada região.

Explicando assim até parece fácil, mas tudo se desenrolou de tal forma que os imbróglios atuais e futuros já não poderão ser evitados. Primeiramente, o MNLA é um grupo armado secularista politicamente falando. A maioria de seus membros, os tuaregues, são adeptos do Islã, mas não da jihad. A próxima coisa a se ter em mente é o motivo pelo qual começaram esta revolta no norte do país.

Isso aconteceu em virtude da falta de poder que os tuaregues têm e mesmo do preconceito que sofrem com relação a outros nativos de Mali. Assim sendo, a única maneira que encontraram de derrotar as tropas do governo foi a de se aliarem a grupos terroristas que estavam abarrotados de estrangeiros (que fique claro, a maioria do Magrebe). O principal deles foi o Ansar Al-Dine. Os "defensores da fé" (tradução de Ansar Al-Dine) foram os responsáveis por, a posteriori, jogarem o MNLA de lado e implantarem a Sharia em solo malinês.

Mais tarde foi tornado público, através do New York Times, que o os terroristas islâmicos agiram com a conivência do governo argelino, que mantinha uma relação muito próxima com Iyad Ag Ghaly, fundador do grupo. No entanto, quando a rebeldia saiu de controle e eles rumaram à capital Bamako, a Argélia viu o que tinha feito e abriu seu espaço aéreo para a França. Está aí o motivo de Mokhtar Belmokhtar e seu grupo terem perpetrado aquele ataque a uma indústria de gás.

Mas devemos voltar aos tuaregues, que são o alvo deste post. Ao longo dos últimos meses eles ficaram um tanto ocultos em meio a resposta dada pelas tropas africanas e francesas, que retomaram o controle das cidades ao norte do país. Há poucos dias outra notícia chamou a atenção: a de que um novo grupo armado, o MIA (Movimento Islâmico do Azawad), havia se separado do Ansar Al-Dine e aceitava negociações. A "prova" disso foi dada na segunda-feira (4), quando o líder em campo do AD, Mohamed Moussa, foi capturado e entregue às autoridades.

Aposto que devem estar se perguntando onde é que a parceria entre as tropas da missão africana e francesa e os tuaregues entra nisso tudo. Justamente agora que as cidades foram retomadas. A verdade é que os terroristas foram expulsos com certa rapidez, ou seja, eles fugiram para o deserto. Não podemos negar que os soldados africanos conhecem a região -sobretudo os especialistas do Níger- mas bem menos que os tuaregues.

E o grande objetivo da missão nós já sabemos: enfraquecer o máximo possível o poder dos terroristas na região. Em suma, a região norte do Mali -que tem o tamanho do Texas- precisa ser vasculhada. O especialista Mohamed Atallah, que serviu a Força Aérea Americana e esteve entre os tuaregues, disse que eles são a melhor alternativa que franceses e africanos têm. Após seu primeiro encontro com habitantes do deserto, em 2004, ele disse: "Estava sentado no banco da frente (do veículo), era quente, estávamos comendo poeira, eu perguntei-lhe como não se perdia. Ele sorriu e disse: você conhece o GPS? Pois esse é o TPS, Tuaregue Positioning System".

Segundo Atallah, "para unir forças contra os islâmicos, é preciso integrar os tuaregues seculares nesta intervenção no norte. Eles devem expulsar os islâmicos de lá e se tornarem a verdadeira força na região. Em primeiro lugar, os tuaregues nunca os quiseram lá".

Contudo, ter os tuaregues como aliados é mais fácil na teoria do que na prática. No início da revolta eles humilharam o exército do governo, o que gerou uma raiva considerável. Deste mesmo sentimento comunga boa parte da população que habita o sul. E isso coloca a todos em uma situação bastante delicada. Os tuaregues, mesmo não gostando dos jihadistas, podem se recusar a ajudar o governo e a missão estrangeira caso suas reivindicações políticas não sejam atendidas. Ademais, eleições em Mali devem acontecer logo que as coisas estejam mais calmas. Aí eu pergunto: que político irá querer se aliar aos tuaregues? Não posso imaginar nem sequer um nome.

Para Atallah, "todo mundo quer ver os terroristas eliminados. Tuaregues seculares querem a mesma coisa. Mas eles não querem ser maltratados por soldados do Mali. O que você tem agora é uma situação onde os jovens tuaregues estão tão irritados que, se não forem controlados,  podem se juntar ao lado errado, o que agravaria o problema".

No que depender do governo, seja ele provisório ou não, as possibilidades de uma parceria com tuaregues são muito pequenas. Pelo visto mais este contratempo cairá nas mãos do presidente François Hollande, que precisará, acima de tudo, acabar com a hegemonia dos terroristas islâmicos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Há um futuro?

Yair Lapid.

No dia 7 de janeiro falei sobre os muitos partidos que disputariam as eleições parlamentares israelenses e as possíveis coalizões capitaneadas por Netanyanu. Nesta semana o povo foi às urnas e deu, como esperado a vitória ao Likud-Beytenu. No entanto, o sabor desta vitória foi um tanto amargo, haja vista que o partido ficou com 31 assentos no Knesset (perdeu 11).

A verdade é que o grande vencedor das eleições foi o centrista Yesh Atid, partido do ex-âncora e jornalista Yair Lapid. O partido, que em português seria traduzido como "há um futuro", conseguiu nada menos do que 19 cadeiras, número muito acima do esperado (as pesquisas indicavam 11 ou 12 no máximo). E com 11 ficou justamente o Habayt Hayehudi, partido ultranacionalista liderado por Naftali Bennett, ex-membro do Likud que deixou a legenda por problemas com Netanyahu (e com sua esposa Sarah). Também com 11 ficou o haredim sefardita Shas, velho parceiro do premiê. O Trabalho, de Shelly Yachimovich, alcançou o número de 15 cadeiras e novamente deve ficar à frente da oposição.

Muitos analistas dizem por aí que Israel "deu uma guinada perigosa para a direita". Eu discordo. E acredito que o número de assentos conquistados pelo Yesh Atid prova isso. Mas então porque estão falando desta migração para a direita? Tudo começou da fusão do Likud com o Yisrael Beytenu de Avigdor Lieberman. Esta era uma estratégia de Netanyahu que visava justamente polarizar a política israelense. Ele queria basicamente o seguinte: seu bloco representava uma defesa forte em tempos turbulentos enquanto o outro se mostraria fraco para proteger o país. Isso, em tempos de Primavera Árabe e com a constante ameaça do Irã, poderia fazer -e fez- a diferença.

Não obstante, Netanyahu procurou se aproximar ainda mais dos haredim pela questão do serviço militar. Para quem não sabe, em Israel muitos judeus ultraortodoxos não trabalham e estão isentos do serviço militar (que no país é obrigatório) para se dedicarem inteiramente aos estudos sagrados, o que gera muita polêmica. Partidos como o Shas representam os ultraortodoxos e, se o chanceler os deixasse escapar, poderiam ir para a oposição.

Esta foi, digamos, uma estratégia de campanha. Talvez mais do que de governo. Temos de convir que Benjamin Netanyahu -apelidado pela Time de "Rei Bibi"- não é o governante mais simpático do mundo. E realmente não é. Mas ele também não é um político de extrema-direita como dizem por aí. O que aconteceu foi que, com a mencionada estratégia de campanha, a legenda Likud-Beytenu se tornou mais conservadora e espantou alguns eleitores moderados. O plano de Arthur Finkelstein, conhecido estrategista americano, era que o partido tivesse mais ganhos do que perdas. Ou seja, ele não previu os 31 assentos no Knesset.

O resultado da "minuciosa" estratégia foi um só: o Likud-Beytenu migrou para a direita e os eleitores moderados para o centro. E este centro era representado pelo Yesh Atid. No final das contas Lieberman e Netanyahu precisarão fazer algumas concessões e se esforçarão ao máximo para ter Yair Lapid ao seu lado. David Weinberg, comentando sobre a fusão Likud-Beytenu no ano passado, disse que um dos objetivos era "minar" o centro, posto que o Kadima não vive seus melhores momentos (nestas eleições ficou com apenas 2 cadeiras).

De momento, Benjamin Netanyahu entrou em contato com todos os partidos para formar a sua -frágil- coalizão. O principal parceiro precisa mesmo ser Lapid. O problema é que uma das bandeiras do Yesh Atid era o serviço militar obrigatório também para os ultraortodoxos (além de questões sociais e econômicas, que pouco foram abordadas pelo premiê na campanha). A reação inicial do Shas foi até positiva -pelo menos segundo o Israel Hayom. O partido anunciou que aceitaria compor um governo juntamente com o Yesh Atid. Este, por sua vez, também precisará abrir mão de determinadas ideias ou, digamos, adiá-las. O mesmo Israel Hayom indicou que a determinação de incluir os ultraortodoxos no serviço militar pode ser "prorrogada".

Tudo levar a crer que Yair Lapid quer o cargo de ministro das relações exteriores. O problema é que Avigdor Lieberman quer se manter nele. Cá entre nós, para Israel seria muito melhor ter Lapid na posição, mas não será nada fácil para o chanceler jogar o chefe do Yisrael Beytenu de lado. E ele não deve fazê-lo. Lapid, se quiser, precisará "se contentar" com o ministério das finanças.

Acreditem se quiser, mas será mais fácil para Bibi conseguir o apoio do Yesh Atid do que do Habayt Hayehudi. Como falei acima, Naftali Bennett abandonou o Likud por divergências com Netanyahu e, ainda que ele tenha deixado em aberto a possibilidade de apoiar o ex-chefe, as diferenças entre os dois podem atrapalhar (fala-se que a senhora Sarah Netanyahu não ficaria muito contente com a parceria. Papo de tabloide).

Mas e quanto à Palestina? Meus caros, nada deve mudar. Netanyahu não é o melhor negociador do mundo e Mahmoud Abbas tampouco. Portanto, veremos mais do mesmo. Outra coisa que não deve mudar é a instabilidade do governo. Uma unanimidade entre os especialistas (pró e anti-Bibi) é que novas eleições não tardarão muito a acontecer. Dadas as circunstâncias, não tem como discordar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O batismo de fogo de Al-Muthalimin

Mokhtar Belmokhtar.

Nesta quarta-feira um grupo de terroristas atacou uma indústria de gás em In Amenas, norte da Argélia fazendo reféns 41 estrangeiros, 300 argelinos e matando um argelino e um britânico. De momento, as informações que temos são que os reféns estão sendo libertados -pelo exército argelino- aos poucos e que seis deles (estrangeiros) morreram. A maior parte dos argelinos presos foram libertados pelos terroristas.

Segundo a agência de notícia NIA, da Mauritânia --que mantém contato constante com um suposto porta-voz do grupo-- este ataque aconteceu como forma de retaliação a Argélia, que permitiu que aviões franceses entrassem em seu espaço aéreo visando chegar a Mali e combater os jihadistas que tomaram o norte do país há quase um ano.

No entanto, uma fonte da CNN disse que o ataque foi preciso demais para ter sido planejado em tão poucos dias (a França mandou tropas a Mali apenas na semana passada). Assim sendo, especula-se que seja mais um ato de afirmação do Al-Muthalimin (em árabe, "os que assinam com seu sangue"), um grupo terrorista comandado por Mokhtar Belmokhtar, ex-membro da fragmentada AQMI (Al-Qaeda no Magreb Islâmico).

Para entender o que está acontecendo, precisamos refletir com calma a respeito de tudo que gira em torno do grupo e, sobretudo, de seu líder. Belmokhtar nasceu no sul da Argélia e, quando adolescente, combateu no Afeganistão, onde perdeu um olho e ganhou o apelido de Belaouar (um olho só). Também no Afeganistão ele disse que chegou a conhecer e a treinar com ninguém menos que Osama Bin Laden.

Voltando à Argélia, ele integrou o Grupo Islâmico Armado (GIA), precursor da AQMI. Mas não foi tudo tão simples assim. Na época, para se firmar e ganhar mais força, a entidade terrorista realizou ataques e sequestros violentos e valeu-se também de contrabando de armas e drogas (nisso, Belmokhtar ganhou seu segundo apelido, o de "Mr.Marlboro"). Um dos principais encarregados de tais atividades era justamente Belmokhtar, tido como um dos mais violentos membros da AQMI.

O francês Jean-Pierre Filiu, especialista na AQMI, disse que Belmokhtar, apesar de fazer parte do grupo, agia por conta própria e não gostava muito de receber ordens. O francês ainda afirmou que Abdelmalik Drukdal, líder global da organização, o rebaixou de sua posição como "Emir no Sahel". Alguns sites disseram que ele foi expulso da entidade, mas provavelmente se confundiram e citaram este rebaixamento como uma expulsão. Ao que parece, Belmokhtar criou uma ferranha rivalidade com Abou Zeid, outro sanguinário -porém influente- membro da AQMI. Segundo Filiu estas diferentes "vertentes" que culminam em rivalidades são comuns no grupo.

Belmokhtar, segundo a CNN, também ofereceu seu "apoio" a grupos jihadistas na Líbia. Até o fim do ano passado ele estava em Mali. E foi justamente sua presença no país que ratificou a ligação do Movimento pela Unidade da Jihad na África Ocidental (MUJAO) e do Ansar Al-Dine (Defensores da Fé) com a AQMI

Em uma declaração, ele disse que queria libertar "companheiros" presos pelo governo argelino. Ainda que estejamos em fase de especulação sobre o grupo, dá a entender que ele queira provar seu valor por intermédio deste ataque e, principalmente, conservar a autonomia da qual nunca abriu mão. O mais assustador é que, com o Al-Muthalimin, a esfera de influência da AQMI só aumenta.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Apesar das complicações, Netanyahu deve vencer

Lieberman e Netanyahu.

Há poucos dias no twitter comentei sobre a quantidade de partidos que se plantearam a disputar as eleições parlamentares israelenses e o quanto era difícil lembrar de todos os nomes. Realmente tal tarefa não é das mais fáceis. Contudo, o bloco liderado por Benjamin Netanyahu -atual premiê- e Avigdor Lieberman deve ganhar o maior número de assentos no Knesset (Parlamento israelense) e formar um novo governo.

Assim que dissolveu o Knesset, Benjamin Netanyahu anunciou que estava formando um novo bloco. Este, seria com o partido Yisrael Beytenu, do ministro das relações exteriores Avigdor Lieberman. A nova coligação, Likud-Beytenu, visava angariar um maior número de assentos e ter menos dificuldades para compor um governo de coalizão. O preço que Netanyahu pagou foi perder alguns de seus "fiéis" companheiros ultra-ortodoxos. Aparentemente isso não geraria muitos problemas, no entanto a situação mudou um pouco como mencionarei mais adiante.

Por enquanto as pesquisas indicam que o Likud-Beytenu tem 28,2% das intenções de votos, número que o deixa com cerca de 34 cadeiras no parlamento. Este é composto por 120 membros, ou seja, um governo estável precisa ter o apoio de ao menos 61 parlamentares. Aí é que entram os possíveis acordos que Netanyahu e Lieberman precisam fazer.

Para o colunista Noam Sheizaf, as primeiras opções de coalizão são Bayit Yehudi Shas. O primeiro representa o movimento dos colonos, que ganha cada vez mais força entre o eleitorado. O Shas, por sua vez, é um dos velhos parceiros ultra-ortodoxos do Likud e a única chance de abandonar uma possível coalizão com o partido do premiê é se o centrista Kadima (liderado por Shaul Mofaz e apoiado por Ehud Olmert) entrar no meio. Isso é possível, mas não muito provável.

A dúvida fica acerca do Yesh Atid, partido centrista que foi criado pelo ex-âncora do Canal 2 Yair Lapid. Digamos que ele está flertando com os dois possíveis governos: o provável capitaneado pelo Likud-Beytenu e o improvável liderado pelo Partido Trabalhista. Nesta semana ele se reuniu com os trabalhistas, liderados por Shelly Yachimovich, e o Hatnuah, novo partido de centro-esquerda criado por Tzipi Livni. Mas, para falar a verdade, desta reunião não surtiu efeito algum.

Vendo que nas últimas semanas a popularidade do Likud-Beytenu estava caindo -devido aos escândalos que envolvem Avigdor Lieberman- Yachimovic declarou que não formaria coalizão com o partido e que, em caso de vitória, lideraria a oposição. Livni inicialmente se mostrou mais maleável mas logo se aproximou de Yachimovich. Ela disse que só se juntaria a Netanyahu se algum outro partido de centro-esquerda também o fizesse. As pequisas indicam que os dois partidos juntos teriam cerca de 28 assentos.

Para alguns analistas Yachimovich pode tentar formar uma aliança com aqueles que deixaram Netanyahu após a aproximação com o Yisrael Beytenu e outros partidos de esquerda, como Meretz e os árabes. A verdade é que tal combinação só resultaria perigosa para Netanyahu caso Yesh Atid e Hatnuah aderissem. Contudo, em uma só manobra o primeiro-ministro pode contornar a situação. Explico: ambos deixaram sua participação ou não na coalizão capitaneada por Likud-Beytenu em aberto, certo? Pois então, Netanyahu pode chamar os dois. Isso o faria perder o Shas, mas seguiria com mais cadeiras no Knesset.

Estas são as teorias mais plausíveis e nas quais acreditam a maioria dos especialistas. Um dos que discordam é David Weinberg, do Israeal Hayom. Vale lembrar que ele acertou a maioria de suas previsões para 2012. Em suas palavras, "Netanyahu terá dificuldades com suas próprias alianças, e seu novo amplo governo de coalizão não vai durar muito tempo também. Nós vamos ter eleições novamente dentro de dois anos."

Weinberg ainda aposta que Yachimovich, apesar de negar veementemente, fará parte do governo: "Depois de flertar com a direita para a campanha eleitoral, Netanyahu volta para o centro visando elaborar uma coalizão. Para melhorar sua respeitabilidade internacional ele sacou Ehud Barak e Avi Ditcher. Ele vai cooptar Yachimovich e Lapid para o governo com ele (apesar dos protestos de Yachimovich), mas não Livni."

Para falar a verdade, Weinberg só complicou ainda mais as coisas. Veremos no que isso vai dar quando, no próximo dia 22, as eleições finalmente forem realizadas. A única certeza que temos no momento é que o próximo governo vai ter muito trabalho para se manter em pé.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte III)

Liberdade!


Nos dois últimos textos (Parte I e Parte II) falei sobre a causa e as consequências iniciais da Primavera Árabe. Agora, para finalizar, abordarei mais alguns casos específicos e colocarei em pauta os problemas que serão enfrentados pelos governos.

Na Tunísia, secularistas venceram mas agora sofrem; na Síria o sectarismo é cada vez maior

A Tunísia é o berço da Primavera Árabe. Foi lá que, em 2010, o comerciante Mohamed Bouazizi colocou fogo em seu próprio corpo e "acendeu" a revolta (não foi um trocadilho proposital). Posteriormente à queda do presidente Ben Ali, o secularista Moncef Marzouki foi eleito. O problema é que agora ele enfrenta quase os mesmos problemas que Ben Ali.

A população está cansada de sofrer. Está cansada de passar fome e de ser subjugada. Marzouki não é um ditador, muito pelo contrário, mas ele não pode até agora atender os anseios da população. Racionalmente falando é impossível que ele consiga reverter o quadro econômico de um país tão castigado em menos de dois anos. Não há como. Mas também não há como explicar isso para alguém que está sem emprego (o desemprego aumentou na Tunísia) e precisa sustentar sua família.  Em recente visita a Sidi Bouzid (cidade de Bouazizi), o presidente Marzouki e seu primeiro-ministro foram recebidos a pedradas. E isso só abre um espaço cada vez maior para os conservadores islâmicos, que já conseguiram angariar um grande número de simpatizantes. 

Na Síria, o conflito ainda está longe de ser resolvido. O presidente Bashar Al-Assad e seu exército, predominantemente alauíta, ainda resistem aos ataques rebeldes. Estes, por sua vez, foram reconhecidos por potências internacionais, conquistaram territórios e bases significativas mas ainda não têm condições de depor Assad. Nisso, o sectarismo aumenta cada vez mais. Aqueles que estão ao lado de Assad -principalmente alauítas e cristãos- tendem a sofrer se o próximo governo for islâmico.

Alguns diziam que antes da guerra civil a Síria era um paraíso de diversidades. Outros eram mais realistas dizendo que o país era um caldeirão de água pronta para entrar em ebulição a qualquer momento. Quem controlava isso era a família Assad, mas pelo visto Bashar nunca teve o pulso de seu pai Hafez. Com a oposição fragilizada, o muçulmanos fundamentalistas tiveram espaço para a agir e mostrar a "mão amiga" para os necessitados. É difícil prever o que acontecerá na Síria nos próximos tempos.

O que esperar daqui para frente?

Até agora, vimos que os primeiros governos que se instauraram -secularistas ou islâmicos- estão tendo problemas para se manterem firmes graças a impaciência da população já cansada de sofrer. Isso vai dificultar um pouco as coisas a menos que medidas rápidas e satisfatórias sejam tomadas. Uma delas, no caso do Egito, seria o abrandamento da Irmandade. Em artigo recente para a Al-Jazeera o professor Mark LeVine disse algo muito correto: que a tendência de determinados partidos quando chegam no poder é o abrandamento. Isso não acontece por uma questão ideológica, mas sim pelo ímpeto de quererem ficar onde estão.

Voltando a falar sobre economia, todos estes países precisarão de ajuda externa para se reerguerem (a Síria principalmente). Sendo assim, empréstimos como os que o Egito realizou serão comuns. Contudo, para que o FMI libere este dinheiro os países precisam fazer um acordo de corte de gastos (assim como na União Europeia, com o memorando). Em outras palavras, precisam passar por um período de austeridade que vem tradicionalmente após mudanças tão radicais.

Agora vamos pensar um pouco pelo lado da população: será que vai ser fácil aceitar isso? A resposta é clara e muito óbvia, não. Muitas dessas pessoas já enfrentaram dificuldades ao longo de suas vidas e não querem passar pela mesma coisa. A diferença é que agora eles não hesitarão em protestar quando necessário e isso dificultará as coisas para os governos.