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domingo, 5 de maio de 2013

Dissuadir é preciso

Montanhas Quasyon.

Atualização

Na noite de sábado (início da madrugada de domingo em Damasco) fortes explosões foram ouvidas na capital síria. Explosões estas que, segundo informações preliminares, tinham como alvos depósitos de armas do exército de Bashar Al-Assad. Um pouco antes, na sexta-feira (4), a imprensa internacional disse que Israel atacou outro carregamento de armas que iria parar nas mãos do Hezbollah.

Antes de mais nada, vamos esclarecer esta situação. O primeiro ataque visou destruir uma carga de mísseis Fateh 110 de fabricação iraniana que estavam sendo transportados para o Líbano. Vale lembrar que em janeiro o mesmo aconteceu. E, além do carregamento, o "centro de pesquisa militar" (nome bonito para depósito de armas) de Jamraya, nos arredores de Damasco, também foi alvo. Apesar de não existir confirmação oficial, atribuiu-se o ataque a Israel.

No entanto, as explosões de domingo tiveram um significado muito maior. Elas atingiram o coração do regime de Assad. Tão logo ocorreram já foram atribuídas pelo regime a Israel, tendo em vista que populares afirmaram (segundo a Al-Jazeera) ter visto um avião nos arredores da capital síria. Ora, até onde sabemos os rebeldes ainda não possuem caças e nem capacidade para realizar um ataque assim. Curiosamente um dos alvos foi mais uma vez o "centro" de Jamraya. Sinal de que o trabalho de janeiro não foi bem feito. Outra explosão aconteceu nas montanhas de Quasyon, reduto militar de Assad na capital.

Como consequência do ataque os rebeldes rapidamente ganharam muitas posições em Damasco e relata-se que uma reunião de urgência foi organizada pelo regime. Segundo fontes independentes, pessoas ligadas ao círculo íntimo do presidente deixaram a capital ainda na madrugada de domingo (o que me parece difícil de acreditar). Inicialmente foi prometida uma resposta oficial na TV síria às cinco da manhã, mas  não ocorreu nem sequer um pronunciamento.

O Ministro Omran Al-Zoabi apareceu para protestar dizendo que o ato significava uma clara associação de Israel com os terroristas e que era uma violação das leis internacionais (e matar mais de 70 mil pessoas não é uma violação, senhor ministro?). Tirando isso o silêncio por parte dos membros do regime seguiu.

Israel

Como mencionado acima, o ataque perpetrado em janeiro não foi confirmado oficialmente até hoje. Do mesmo modo as explosões de Damasco foram ligadas a Israel primeiramente pela mídia estatal e depois por outros veículos como a Reuters e a NBC. Algumas citaram, inclusive, fontes americanas e israelenses. De uma forma ou de outra, a confirmação oficial é o de menos.

O que precisamos analisar aqui é o contexto em que tais ataques ocorreram e principalmente sua razão. Israel queria simplesmente evitar que mísseis chegassem às mãos do Hezbollah? Este sem dúvida é um bom motivo, mas não o único. Acredita-se que o grupo terrorista libanês não tenha tanto acesso aos Fateh 110, que são mais modernos (pode ser que exista até uma quarta geração deles recém-fabricada no Irã), como tem aos Scud. E isso, por si só, já seria uma razão para Israel ter de se defender. 

No entanto, o armamento para o Hezbollah fica até em segundo plano quando analisamos tudo que envolve este ato de legítima defesa do Estado Israelense. Há alguns dias a imprensa divulgou declarações de um funcionário da Defesa de Israel onde ele dizia que o Irã acabara de ultrapassar a linha vermelha anunciada pelo premiê Benjamin Netanyahu. Neste ínterim aconteceu justamente a viagem de Chuck Hagel a Israel e, na sequência, o PM anunciou que Teerã ainda não chegou ao estágio mais perigoso. Curioso, não? Mas no meio disso tudo pudemos perceber que a viagem de Hagel serviu como um puxão de orelha ao governo israelense, o qual não poderia tomar qualquer atitude sem o apoio (leia-se autorização) dos americanos.

Esta bronca, num primeiro momento, deixou de Israel de mãos atadas. Mas havia ainda uma alternativa: a Síria. Não é mais segredo para ninguém que terroristas iranianos e do Hezbollah operam em solo sírio (na semana passada cerca de 30 militantes da facção libanesa foram mortos lutando por Assad). Ou seja, um pequeno aviso mostraria para aqueles que tanto odeiam os israelenses que estes estão dispostos a se defender sem precedentes. E isso dá certo? Seguramente! Nas palavras de um especialista, o Brig. General Zvika Fogel, "24 horas após o ataque na Síria, pelo menos de acordo com as fontes estrangeiras, Teerã, Damasco e o Hezbollah estão ocupados com controle de danos, verificando se há vazamento de informações e, principalmente, frustrados por não poderem retaliar".

O artigo do senhor Fogel é o mais esclarecedor sobre o tema. Se Israel não pode atacar o Irã, que mostre ao menos sua disposição para a defesa. Ademais, Fogel menciona ainda que a única maneira de lidar com regimes terroristas é por meio da dissuasão. Só assim seus líderes ficam acuados e pensam duas ou três vezes antes de responder.

A dissuasão é válida também quando se está sozinho. A omissão do governo de Barack Hussein Obama no que tange política externa -e sobretudo as relações com Israel- é algo assustador. Contudo, prefiro não entrar no tema agora. Para encerrar, acho pouco provável que jornais israelenses (exceto o Israel Hayom) tratem deste ato de defesa como deveriam, tendo em vista o ódio que sentem por Netanyahu. Mas uma coisa é certa: o compromisso com a proteção por parte do premiê é algo admirável e digno de aplausos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

"Cada resposta resulta em uma nova pergunta"

Yair Lapid e Naftali Bennett.

Este é um conhecido provérbio iídiche que pode ser usado para explicar a coalizão do governo de Israel capitaneada por Benjamin Netanyahu. Na passada semana, após 33 longos dias de negociação, as partes finalmente chegaram a um acordo. Além do Hatnuah, Yesh Atid e Habayit Hayehudi passaram a compor o governo que tem maioria no Knesset. Pese o fato de ser apenas o primeiro passo da caminhada, muitas dúvidas já pairam sobre as cabeças dos israelenses.

Primeiramente é importante ressaltar o por que de tamanha demora para compor o governo. Dois motivos nos saltam à vista: (1) Netanyahu foi displicente e, ao contrário do que se acreditava, não procurou Naftali Bennett prontamente. Seu alvo inicial, na verdade, foi Yair Lapid, que à esta altura tinha um plano bem arquitetado e, propositalmente, recusou. (2) Passaram-se os dias e Netayahu conseguiu apenas o apoio de Tzipi Livni (que no final das contas ficará com o Ministério da Justiça). Nisso, Lapid conseguiu colocar seu plano em prática e formou uma forte aliança com Naftali Bennett. Esta aliança exigia de Netanyahu ministérios-chave, caso aderissem à coalizão, e também a exclusão de partidos haredi, como por exemplo, o Shas (parceiro de longa data do Likud).

A coligação entre o segundo e o terceiro partidos mais votados das eleições merece ser vista com bastante cuidado. Na opinião de alguns ela significou uma "traição" de Bennett a seus eleitores, haja vista que ele seria uma alternativa ao Likud não se distanciando muito do mesmo. Pudemos ver, ainda durante a campanha, cartazes do Habayit Hayehudi contendo as fotos de Bennett e do premiê. Isso agravou muito a posição do ex-membro do Likud quando da associação com Lapid. No entanto, é preciso se levar em consideração a detachment de Netanyahu anteriormente mencionada.

Enquanto isso, quem ganhava ainda mais prestígio era Lapid. Com Bennett a seu lado ele exigia mais veementemente a cadeira das Relações Exteriores, ocupada por Avigdor Lieberman antes do escândalo de corrupção que ainda não foi julgado. Netanyahu, como esperado, protegia o cargo (coisa que conseguiu fazer até o fim).

Mas a posição quase irredutível de Yesh Atid e Habayit Hayehudi não foi o único problema. Muito se falou sobre o tema dos ultra-ortodoxos, que estão isentos do serviço militar e são subsidiados pelo governo para continuarem seus estudos das sagradas escrituras. Uma das bandeiras de Lapid e Bennett era justamente o fim de tal regalia. Por isso os dois não queriam fazer parte de qualquer coalizão que contivesse o Shas.

Ao cabo de tudo eles bateram o pé e atingiram seus objetivos. Segundo a imprensa israelense os últimos dias de negociação foram exaltados, com Bennett precisando ser "o adulto de plantão" para mediar o diálogo de Netanyahu e Lapid. Na quinta-feira (14) foi anunciada a nova coalizão(ainda que o acordo não estivesse sacramentado). Mesmo tendo parceiros que não são de seu agrado, o premiê se manterá à frente do governo. Lapid "se contentou" com o Ministério das Finanças, enquanto Bennett guiará o do Comércio. Sou dos que defendem o primeiro na cadeira de Relações Exteriores, mas Netanyahu não iria deixar de cumprir sua palavra dada a Lieberman.

As mudanças que veremos prontamente (digamos dentro de 45 dias, que é prazo mínimo estipulado para que as primeiras leis cheguem até o Knesset) envolverão setores religiosos (incluindo os ultra-ortodoxos), questões políticas, educação e uma pequena reforma ministerial. Falando sobre os haredim, eles deveriam se juntar ao serviço militar com a idade de 21 anos. Caso contrário, alguns benefícios seriam cortados, como por exemplo, a segurança social. Até o momento a possibilidade de processo para os que não se apresentarem de qualquer maneira não é cogitada.

No âmbito religioso, envolvendo as negociações com Bennett, ficou acordado que instituições religiosas teriam seu status regulamentado por lei e que receberiam financiamento especial. O Ministério de Serviços Religiosos, além de dirigido pelo Habayit Hayehudi, incluiria o controle de locais sagrados e do Rabinato Chefe (que estão atualmente nas mãos dos haredim). O governo, ademais, apresentará uma lei no Knesset para definir Israel claramente como um Estado judeu. Tal norma se enquadraria como "Lei Básica", sendo necessária uma maioria especial no Parlamento israelense para confirmar ou revogá-la (se assemelha às Emendas Constitucionais no Brasil no que tange o processo de aprovação).

Chegar a um consenso com Lapid também não foi tarefa das mais simples. Ele exigiu, além do Ministério das Finanças, encabeçar o comitê ministerial encarregado dos encargos sociais. Na área da educação, cujo ministro será Shai Piron (número 2 do Yesh Atid) a ideia é implantar, dentro de seis meses, os estudos fundamentais obrigatórios para absolutamente todos os estudantes, incluindo os haredim. Last but no least, no que tange a política, a nova lei aceitará que partidos que tenham conseguido no mínimo 4% dos votos tenham acesso a cadeiras no Knesset (até o momento o mínimo é de 2%) e reduzirá o número de ministérios de 22 para 18¹.

Estes, meus caros, foram apenas os primeiros problemas enfrentados pelos novos parceiros de governo. Assim que o mandato começar oficialmente mais divergências aparecerão (esperem também pelo retorno de Avigdor Lieberman). Uma destas, como coloca bem o Times of Israel, é a questão dos assentamentos na Cisjordânia: Livni quer acelerar as negociações de paz com os palestinos enquanto Uri Ariel, Ministro da Habitação, é um defensor da expansão dos assentamentos; a aposta do Yesh Atid é que acabar com o governo tendo responsabilidades para com os palestinos, dando-lhes autonomia, enquanto Bennett pretende anexar a maior parte da Cisjordânia².

Por fim, o Ministério da Defesa ficará a cargo de Moshe Ya'alon, ex-chefe do Estado-Maior israelense. Ya'alon, de 62 anos, tem uma longa a prestigiosa carreira militar. Depois da guerra dom Yom Kippur, onde esteve entre os primeiros a atravessar o Canal de Suez, permaneceu no IDF tornando-se mais tarde chefe da unidade de elite Sayeret Matkal. Foi um dos maiores críticos da retirada unilateral da Faixa de Gaza em 2005 (quando Ariel Sharon era primeiro-ministro). Se juntou ao Likud em 2008. Para alívio de Netanyahu, suas posições sobre o Irã são parecidas (ainda que aparentemente mais moderadas)³.

¹ Coalition guidelines to chance Israel's religious status quo. Israel Hayom
² Netanyahu and his partner-rivals. Times of Israel
³ "I'm determined to lead responsibly", new defense chief says. Israel Hayom

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Há um futuro?

Yair Lapid.

No dia 7 de janeiro falei sobre os muitos partidos que disputariam as eleições parlamentares israelenses e as possíveis coalizões capitaneadas por Netanyanu. Nesta semana o povo foi às urnas e deu, como esperado a vitória ao Likud-Beytenu. No entanto, o sabor desta vitória foi um tanto amargo, haja vista que o partido ficou com 31 assentos no Knesset (perdeu 11).

A verdade é que o grande vencedor das eleições foi o centrista Yesh Atid, partido do ex-âncora e jornalista Yair Lapid. O partido, que em português seria traduzido como "há um futuro", conseguiu nada menos do que 19 cadeiras, número muito acima do esperado (as pesquisas indicavam 11 ou 12 no máximo). E com 11 ficou justamente o Habayt Hayehudi, partido ultranacionalista liderado por Naftali Bennett, ex-membro do Likud que deixou a legenda por problemas com Netanyahu (e com sua esposa Sarah). Também com 11 ficou o haredim sefardita Shas, velho parceiro do premiê. O Trabalho, de Shelly Yachimovich, alcançou o número de 15 cadeiras e novamente deve ficar à frente da oposição.

Muitos analistas dizem por aí que Israel "deu uma guinada perigosa para a direita". Eu discordo. E acredito que o número de assentos conquistados pelo Yesh Atid prova isso. Mas então porque estão falando desta migração para a direita? Tudo começou da fusão do Likud com o Yisrael Beytenu de Avigdor Lieberman. Esta era uma estratégia de Netanyahu que visava justamente polarizar a política israelense. Ele queria basicamente o seguinte: seu bloco representava uma defesa forte em tempos turbulentos enquanto o outro se mostraria fraco para proteger o país. Isso, em tempos de Primavera Árabe e com a constante ameaça do Irã, poderia fazer -e fez- a diferença.

Não obstante, Netanyahu procurou se aproximar ainda mais dos haredim pela questão do serviço militar. Para quem não sabe, em Israel muitos judeus ultraortodoxos não trabalham e estão isentos do serviço militar (que no país é obrigatório) para se dedicarem inteiramente aos estudos sagrados, o que gera muita polêmica. Partidos como o Shas representam os ultraortodoxos e, se o chanceler os deixasse escapar, poderiam ir para a oposição.

Esta foi, digamos, uma estratégia de campanha. Talvez mais do que de governo. Temos de convir que Benjamin Netanyahu -apelidado pela Time de "Rei Bibi"- não é o governante mais simpático do mundo. E realmente não é. Mas ele também não é um político de extrema-direita como dizem por aí. O que aconteceu foi que, com a mencionada estratégia de campanha, a legenda Likud-Beytenu se tornou mais conservadora e espantou alguns eleitores moderados. O plano de Arthur Finkelstein, conhecido estrategista americano, era que o partido tivesse mais ganhos do que perdas. Ou seja, ele não previu os 31 assentos no Knesset.

O resultado da "minuciosa" estratégia foi um só: o Likud-Beytenu migrou para a direita e os eleitores moderados para o centro. E este centro era representado pelo Yesh Atid. No final das contas Lieberman e Netanyahu precisarão fazer algumas concessões e se esforçarão ao máximo para ter Yair Lapid ao seu lado. David Weinberg, comentando sobre a fusão Likud-Beytenu no ano passado, disse que um dos objetivos era "minar" o centro, posto que o Kadima não vive seus melhores momentos (nestas eleições ficou com apenas 2 cadeiras).

De momento, Benjamin Netanyahu entrou em contato com todos os partidos para formar a sua -frágil- coalizão. O principal parceiro precisa mesmo ser Lapid. O problema é que uma das bandeiras do Yesh Atid era o serviço militar obrigatório também para os ultraortodoxos (além de questões sociais e econômicas, que pouco foram abordadas pelo premiê na campanha). A reação inicial do Shas foi até positiva -pelo menos segundo o Israel Hayom. O partido anunciou que aceitaria compor um governo juntamente com o Yesh Atid. Este, por sua vez, também precisará abrir mão de determinadas ideias ou, digamos, adiá-las. O mesmo Israel Hayom indicou que a determinação de incluir os ultraortodoxos no serviço militar pode ser "prorrogada".

Tudo levar a crer que Yair Lapid quer o cargo de ministro das relações exteriores. O problema é que Avigdor Lieberman quer se manter nele. Cá entre nós, para Israel seria muito melhor ter Lapid na posição, mas não será nada fácil para o chanceler jogar o chefe do Yisrael Beytenu de lado. E ele não deve fazê-lo. Lapid, se quiser, precisará "se contentar" com o ministério das finanças.

Acreditem se quiser, mas será mais fácil para Bibi conseguir o apoio do Yesh Atid do que do Habayt Hayehudi. Como falei acima, Naftali Bennett abandonou o Likud por divergências com Netanyahu e, ainda que ele tenha deixado em aberto a possibilidade de apoiar o ex-chefe, as diferenças entre os dois podem atrapalhar (fala-se que a senhora Sarah Netanyahu não ficaria muito contente com a parceria. Papo de tabloide).

Mas e quanto à Palestina? Meus caros, nada deve mudar. Netanyahu não é o melhor negociador do mundo e Mahmoud Abbas tampouco. Portanto, veremos mais do mesmo. Outra coisa que não deve mudar é a instabilidade do governo. Uma unanimidade entre os especialistas (pró e anti-Bibi) é que novas eleições não tardarão muito a acontecer. Dadas as circunstâncias, não tem como discordar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Apesar das complicações, Netanyahu deve vencer

Lieberman e Netanyahu.

Há poucos dias no twitter comentei sobre a quantidade de partidos que se plantearam a disputar as eleições parlamentares israelenses e o quanto era difícil lembrar de todos os nomes. Realmente tal tarefa não é das mais fáceis. Contudo, o bloco liderado por Benjamin Netanyahu -atual premiê- e Avigdor Lieberman deve ganhar o maior número de assentos no Knesset (Parlamento israelense) e formar um novo governo.

Assim que dissolveu o Knesset, Benjamin Netanyahu anunciou que estava formando um novo bloco. Este, seria com o partido Yisrael Beytenu, do ministro das relações exteriores Avigdor Lieberman. A nova coligação, Likud-Beytenu, visava angariar um maior número de assentos e ter menos dificuldades para compor um governo de coalizão. O preço que Netanyahu pagou foi perder alguns de seus "fiéis" companheiros ultra-ortodoxos. Aparentemente isso não geraria muitos problemas, no entanto a situação mudou um pouco como mencionarei mais adiante.

Por enquanto as pesquisas indicam que o Likud-Beytenu tem 28,2% das intenções de votos, número que o deixa com cerca de 34 cadeiras no parlamento. Este é composto por 120 membros, ou seja, um governo estável precisa ter o apoio de ao menos 61 parlamentares. Aí é que entram os possíveis acordos que Netanyahu e Lieberman precisam fazer.

Para o colunista Noam Sheizaf, as primeiras opções de coalizão são Bayit Yehudi Shas. O primeiro representa o movimento dos colonos, que ganha cada vez mais força entre o eleitorado. O Shas, por sua vez, é um dos velhos parceiros ultra-ortodoxos do Likud e a única chance de abandonar uma possível coalizão com o partido do premiê é se o centrista Kadima (liderado por Shaul Mofaz e apoiado por Ehud Olmert) entrar no meio. Isso é possível, mas não muito provável.

A dúvida fica acerca do Yesh Atid, partido centrista que foi criado pelo ex-âncora do Canal 2 Yair Lapid. Digamos que ele está flertando com os dois possíveis governos: o provável capitaneado pelo Likud-Beytenu e o improvável liderado pelo Partido Trabalhista. Nesta semana ele se reuniu com os trabalhistas, liderados por Shelly Yachimovich, e o Hatnuah, novo partido de centro-esquerda criado por Tzipi Livni. Mas, para falar a verdade, desta reunião não surtiu efeito algum.

Vendo que nas últimas semanas a popularidade do Likud-Beytenu estava caindo -devido aos escândalos que envolvem Avigdor Lieberman- Yachimovic declarou que não formaria coalizão com o partido e que, em caso de vitória, lideraria a oposição. Livni inicialmente se mostrou mais maleável mas logo se aproximou de Yachimovich. Ela disse que só se juntaria a Netanyahu se algum outro partido de centro-esquerda também o fizesse. As pequisas indicam que os dois partidos juntos teriam cerca de 28 assentos.

Para alguns analistas Yachimovich pode tentar formar uma aliança com aqueles que deixaram Netanyahu após a aproximação com o Yisrael Beytenu e outros partidos de esquerda, como Meretz e os árabes. A verdade é que tal combinação só resultaria perigosa para Netanyahu caso Yesh Atid e Hatnuah aderissem. Contudo, em uma só manobra o primeiro-ministro pode contornar a situação. Explico: ambos deixaram sua participação ou não na coalizão capitaneada por Likud-Beytenu em aberto, certo? Pois então, Netanyahu pode chamar os dois. Isso o faria perder o Shas, mas seguiria com mais cadeiras no Knesset.

Estas são as teorias mais plausíveis e nas quais acreditam a maioria dos especialistas. Um dos que discordam é David Weinberg, do Israeal Hayom. Vale lembrar que ele acertou a maioria de suas previsões para 2012. Em suas palavras, "Netanyahu terá dificuldades com suas próprias alianças, e seu novo amplo governo de coalizão não vai durar muito tempo também. Nós vamos ter eleições novamente dentro de dois anos."

Weinberg ainda aposta que Yachimovich, apesar de negar veementemente, fará parte do governo: "Depois de flertar com a direita para a campanha eleitoral, Netanyahu volta para o centro visando elaborar uma coalizão. Para melhorar sua respeitabilidade internacional ele sacou Ehud Barak e Avi Ditcher. Ele vai cooptar Yachimovich e Lapid para o governo com ele (apesar dos protestos de Yachimovich), mas não Livni."

Para falar a verdade, Weinberg só complicou ainda mais as coisas. Veremos no que isso vai dar quando, no próximo dia 22, as eleições finalmente forem realizadas. A única certeza que temos no momento é que o próximo governo vai ter muito trabalho para se manter em pé.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Indiferença para Israel, maior moral para o Hamas e enfraquecimento do Fatah

Médicos palestinos comemoram o cessar-fogo.

Nesta quarta-feira (21) finalmente foi acordado um cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas. O acordo foi mediado pelo Egito e pelos Estados Unidos (Hillary Clinton viajou para o Oriente Médio nesta semana). O saldo foi de 167 mortos no total (sendo 162 palestinos), mesmice para o poder de dissuasão israelense e um fortalecimento do Hamas.

Assim como a operação Chumbo Fundido, comandada por Ehud Olmert, Pilar de Defesa não tinha como objetivo destruir o Hamas e ocupar a Faixa de Gaza, mas sim aumentar seu poder de dissuasão na região e reduzir consideravelmente, pelo menos por enquanto, o poder de fogo do grupo terrorista. Analisando os números, isso deu certo: foram mais de 1.500 ataques aéreos (sendo 19 em centros de comando superiores), 30 membros importantes dos grupos terroristas (considerando Hamas e Jihad Islâmica) mortos e centenas de lançadores de foguetes subterrâneos destruídos. Além disso, o sistema de defesa Iron Dome se mostrou extremamente eficaz, realizando 421 interceptações, o que corresponde a 84% do total de mísseis que penetraram Israel.

Mas se os números dizem uma coisa, por que algo tão distinto ocorre na prática? Como já foi mencionado aqui no IA, o Hamas ganhou um pouco mais de apoio após a Primavera Árabe e, querendo ou não, se fortaleceu consideravelmente nos últimos anos. O primeiro indício desta evolução foi justamente o alvo inicial da operação Pilar de Defesa, Ahmed Jabari. Ele não era um líder político, mas sim militar. Isso significa que Israel tinha plena consciência do perigo oferecido pelo grupo terrorista a seu território.

Ademais, muitos analistas acharam um tanto exagerada a importância que o governo de Jerusalém deu ao Hamas logo no início do conflito, falando diretamente ao grupo após ataques perpetrados por facções que podem ser consideradas como suas subordinadas dentro de Gaza. Mas a verdade é que Netanyahu foi correto em todas as suas atitudes, sobretudo esta, haja vista que a esfera de influências do Hamas realmente é bem maior do que a de quatro anos atrás.

Quando os boatos de cessar-fogo tiveram início, poucos poderiam imaginar que Israel aceitaria negociar com terroristas. Mas ao fim de tudo exigências foram atendidas. Destaque para a abertura das fronteiras para a circulação de bens e pessoas. Recordam-se que no último post comentei sobre uma possível abertura do terminal de Rafah? Pois então, o "palpite" de Ehud Yaari realmente estava certo e o Egito fez esta concessão aos palestinos. Ainda não se sabe até que ponto chegará esta abertura, mas já é um grande feito.

Quem não concordou muito com o cessar-fogo e suas condições foi a população israelense (além da oposição de Netanyahu, lógico). Segundo o Times of Israel 70% dos israelenses foram contra o acordo e apenas 24% se mostraram favoráveis. Ainda assim nada que, pelo menos por ora, abale as aspirações de reeleição do atual governo.

Ainda há opiniões um tanto controversas acerca do quão prejudicial foi o conflito para Israel. A unanimidade só gira em torno do significativo enfraquecimento da Autoridade Palestina frente ao Hamas. Para os palestinos, a forma como o Hamas resistiu (se é que o fato de se esconder covardemente atrás de civis pode se chamar resistência), foi quase heroica. A facção da bandeira verde ganhou total apoio da Cisjordânia, que se mostrou demasiadamente cansada com as promessas de Mahmoud Abbas e, principalmente, com a ocupação transfronteiriça ilegal de Israel. Ramallah ficou quase deserta nos últimos dias.

É importante que uma coisa fique bem clara: uma "derrota" do Fatah também pode ser prejudicial a Israel porque, a priori, o grupo é mais moderado e tem defendido um acordo de paz respeitando a fronteira de 1967. Como bem disse Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, Israel deveria buscar na AP um aliado para intensificar o projeto de paz e colocá-lo, por fim, em prática.

Haass, que foi enviado pelos EUA para o processo de paz na Irlanda do Norte, disse que Israel deveria buscar no Fatah "a sua Irlanda do Norte". E tal observação é muito precisa. O problema é que agora, decadente como está, a AP não mais parece uma solução tão viável -e confiável- para o povo palestino. Devemos ter medo se o Hamas passar efetivamente a ser considerado esta "solução".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Egito é a maior esperança de um cessar-fogo

Reunião dos ministros israelenses. Times of Israel

Atualização do conflito

Estamos caminhando para o sétimo dia da operação israelense Pilar de Defesa na Faixa de Gaza e, segundo Al Jazeera, o número de mortos chega a 110 (o de feridos gira em torno de 450). Apesar de a imprensa árabe ter vinculado, até agora não há sinais claros de que um cessar-fogo seja iminente. No domingo negociadores israelenses e palestinos se reuniram no Cairo mas não chegaram a um acordo.

Desde o último post, a situação segue a mesma: Israel ataca pontos estratégicos do Hamas e a organização terrorista responde com foguetes de curto (Qassam) e longo (Farj5) alcance. O IDF informou que mais de 1.500 alvos foram atingidos. Nesta segunda (19) o grupo Jihad Islâmica confirmou a morte do líder das brigadas Al-Quds, seu braço armado, Ramez Harb.

Segundo o próprio IDF nos últimos cinco dias um total de 877 foguetes foram lançados contra Israel, dos quais o sistema anti-mísseis Iron Dome conseguiu abater 307. A verdade que o Iron Dome está salvando Israel. Vale lembrar que o sistema é um tanto quanto moderno e começou a ser instalado efetivamente só no ano passsado.

Infelizmente o número de civis mortos -principalmente crianças- segue chamando muito a atenção de todo o mundo. Al-Jazeera informou que no domingo uma família inteira foi morta. O que mais assusta é que, ainda assim, a população de Gaza segue apoiando o Hamas. Os terroristas, como bem disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, estão usando os civis como escudo para disparar contra outros civis. Mas cada foguete lançado contra Israel é, na verdade, um motivo de comemoração.

Também neste fim de semana o correspondente da Al-Jazeera em Gaza, Nadim Baba, publicou uma foto de um local, cheio de casas, de onde um foguete acabara de ser disparado. Há relatos também de que alguns dos mísseis lançados pelo Hamas caíram em Gaza, ferindo pessoas.

Khaled Mashaal (E), líder do Hamas, e Morsi (D).
As dificuldades no cessar-fogo

Com a ascensão de regimes islâmicos na Primavera Árabe, o Hamas está aproveitando para ver até onde consegue ir sendo protegido de outras nações islâmicas (está, inclusive, testando o Egito) e financiado por mais terroristas (Irã e Hezbollah).

O cessar-fogo foi impossível até agora, apesar dos inúmeros diálogos, devido às reivindicações de ambos os lados: o Hamas quer (1) todos os postos de fonteira em Gaza abertos 24 horas por dia, (2) um fim dos ataques israelenses e (3) manter seu armamento; Israel, por outro lado, quer (1) todos os grupos terroristas desarmados, (2) parada imediata no lançamento de foguetes e (3) um cessar-fogo de longo prazo garantido.

Morsi está deixando seu amor pelo Hamas de lado para servir como mediador

Como bem disse David Kirkpatrick, no passado o presidente egípcio Mohamed Morsi, então líder da Irmandade Muçulmana, defendeu avidamente a causa palestina, condenou Israel e se mostrou um grande apoiador do Hamas. Hoje, na qualidade de chefe de Estado, ele precisa cumprir o seu papel e deixar as crenças de lado (ou o próprio país, que tem negócios com Israel, vai sofrer ainda mais os efeitos da crise econômica interna).

Ao que parece ele está fazendo isso. O simples fato de se referir a Israel pelo nome e não como "o intruso sionista" ou, como prefere Ahmadinejad, "o câncer", já é alguma coisa. Tudo indica que ele está fazendo o possível para que o cessar-fogo aconteça (ao contrário de outros chefes de Estado, como Recep Tayyp Erdogan, que chamou os israelenses de terroristas).

Em seu mais recente artigo no Foreign Affairs, Ehud Yaari sugere uma boa alternativa para o fim do conflito (ou pelo menos um cessar-fogo): a abertura do terminal de Rafah, que fica na fronteira do Egito com Gaza. Reparem que uma das reivindicações do Hamas é a total abertura da fronteira, para facilitar não só o trânsito de pessoas, mas também de mercadorias.

Para Yaari, "isto poderia significar que Gaza iria receber seu combustível e outros produtos do Egito, enquanto Israel continuaria fornecendo eletricidade. Portos egípcios poderiam começar a lidar com o fluxo de mercadorias dentro e fora de Gaza, e Israel seria eliminado gradualmente das atividades comerciais que passam pelos seis terminais operantes em Gaza".

Veem? Esta, sem dúvida, é a melhor alternativa para pôr fim a este combate antes que ele se intensifique ainda mais. Tal medida seria boa para ambos, haja vista que o Egito posaria de herói para os palestinos e Israel poderia transferir um "problema" para Morsi (cá entre nós, o Hamas não é um problema para o Egito).


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Antes das eleições, hostilidades na Faixa de Gaza recomeçam

Funeral de Ahmed Jabari. AL-JAZEERA.

Nesta quarta-feira (14) a força aérea israelense empreendeu diversos ataques à Faixa de Gaza. Os alvos eram misseis de longo alcance do Hamas e o braço militar da organização, Ahmed Jabari. Em termos militares a operação foi bem-sucedida, haja vista que Jabari e os misseis foram abatidos, mas infelizmente vidas civis palestinas também foram ceifadas.

A nova missão do IDF prosseguiu na quinta-feira (15) e deixou um saldo de 22 mortos (sendo 19 palestinos). O próprio exército israelense confirmou que realizou 340 ataques contra alvos na Faixa de Gaza desde o início da operação Pilar de Defesa. Também nesta quinta veio a primeira resposta do Hamas: dois mísseis foram lançados em Tel-Aviv por volta das 7 horas, menos de uma hora depois de alguns terem atingido a cidade de Rishon Letzion.

No total 305 foguetes atingiram Israel e 130 foram interceptados pelo sistema de defesa. As três mortes do lado israelense aconteceram quando um foguete chegou à localidade de Kiryat Malachi. Relata-se que um bebê de 8 meses também ficou ferido. No lado palestino pelo menos duas crianças morreram só nesta quinta.

A operação Pilar de Defesa começou depois que mísseis palestinos foram disparados em direção ao sul de Israel. As hostilidades em si tiveram início quando um jipe com militares do IDF foi atacado no fim da passada semana. Aí é que as informações se desencontram porque o Times of Israel diz que o veículo estava no seu lado da fronteira, enquanto um colunista do YNet News relata o contrário. Ambos são jornais conservadores.

De qualquer forma, em resposta Israel disparou tiros de aviso (como fez com a Síria nas Colinas de Golã há poucos dias) e foi aí que o Hamas atacou de novo. Se a pressão sobre Netanyahu já era grande, ficou ainda maior.

Pronunciamento de Benjamin Netanyahu.
Perguntado sobre qual a diferença entre os mísseis que o Hamas tem hoje na Faixa de Gaza e os de meses atrás, o analista Thrall Nathan respondeu: "Desta vez não há centenas de milhares de israelenses em abrigos e seus filhos estão indo para a escola. Basicamente, todo o espectro político de Israel estava dizendo que isso era inaceitável e que algo precisava ser feito".

Faz todo o sentido. O país não poderia ficar acuado e sofrendo ataques terroristas. Ademais, é muito provável que o ministro da defesa, Ehud Barak, seja um dos grandes mentores da operação. Ele é conhecido por não ser muito favorável a um acordo de paz "qualquer" com os palestinos e não parece de seu feitio deixar barato este tipo de afronta.

Pelo menos por enquanto Benjamin Netanyahu e seu partido, o Likud, saíram fortalecidos para as eleições parlamentares de janeiro. Como já foi mencionado, a população pedia uma dura resposta e os setores políticos também, tanto que até mesmo membros da (cada vez mais enfraquecida) oposição se mostraram de acordo com a atitude do primeiro-ministro. Para ele isso é bom. Ainda mais agora que Ehud Olmert pode voltar ao cenário político do país.

O ex-premiê Olmert foi absolvido de acusações de corrupção recentemente e é a principal aposta centrista da oposição, capitaneada pelo Kadima de Shaul Mofaz, para vencer Netanyahu. Vale lembrar que, em 2008-2009, Olmert comandou a missão Lead Cost (que foi um pouco mais agressiva).

Em declaração oficial na quarta-feira, Benjamin Netanyahu disse o seguinte: "o Hamas escolheu aumentar seus ataques nos últimos dias. Nós não vamos aceitar ameaças de foguetes contra nossos cidadãos.

"Danificamos seriamente a capacidade do Hamas de lançar mísseis de longo alcance para o centro de Israel. Eles atacam nossos cidadãos de propósito, enquanto se escondem atrás de civis. Nós fazemos de tudo para não prejudicar estes civis".

Segundo Al-Jazeera, uma criança palestina de 2 anos morreu.
No entanto, Netanyahu também está ciente dos riscos que corre com esta operação. Analisando friamente, hoje a eleição está ganha, mas se a resposta do Hamas for mais dura do que o esperado, fatalmente obrigará o IDF  a fazer uma incursão terrestre mais prolongada, o que poderia provocar um maior número de baixas. 

Outro que tem papel-chave no conflito é o Egito. Segundo Caio Blinder, "uma opção para Mohamed Morsi é fazer vista grossa se militantes do Hamas lançarem ataques contra Israel a partir da península do Sinai. Mas se as coisas degringolarem, numa opção extrema, Morsi poderá até questionar o tratado de paz do Egito com Israel (aqui os militares terão voz). E este tratado é essencial para Israel".

Em suma, Israel precisava mesmo se defender e o fez. Atacou cirurgicamente as opções que o Hamas tinha de ameaçar o país e o deixou sem um de seus cérebros militares. De momento, é difícil acreditar que a organização terrorista tenha capacidade para, militarmente, responder a altura. Mas ainda é muito cedo para prever o desenrolar do conflito.