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sexta-feira, 1 de março de 2013

Pobres italianos

Diferenças? O cabelo, talvez. TELEGRAPH.

No início desta semana foram realizadas eleições na Itália e o resultado não poderia ser mais caótico. O Partido Democrata (coalizão de centro-esquerda) de Pier Luigi Bersani venceu, como todos esperavam, mas com pequena vantagem sobre O Povo da Liberdade (partido de Berlusconi) tanto na Câmara quanto no Senado, o que dificultará -e muito- a formação de uma sólida coalizão de governo.

Na câmara (630 cadeiras no total) o PD conquistou 29,54% do eleitorado, o que significou a conquista de 345 cadeiras (contando também os assentos de bonificação dados ao vencedor). O PDL teve 29,18% dos votos e ficou 125 cadeiras. No Senado (cujo total de cadeiras é 315), a vantagem esquerdista também foi pequena: 31,63% para Bersani e 30,72% para Berlusconi. É importante mencionar que há menos de três meses as intenções de voto do PDL não passavam de 14%. Mas ainda não é o momento de entrarmos no jogo político de Il Cavaliere.

Como se já não bastasse esta pequena vantagem para o PD, o Movimento 5 Estrelas do comediante (?) Beppe Grillo foi o terceiro partido mais votado tanto na Câmara quanto no Senado. Na primeira conquistou assustadores 25,55%, que se traduz em nada menos do que 109 representantes. No Senado foram 23,79%, ou seja, 54 cadeiras. As estatísticas dizem que um em cada quatro italianos votou em Grillo.

Il Professore Mario Monti, que inicialmente não queria entrar na política findado seu governo tecnocrático, mudou de ideia e possivelmente saiu muito desgostoso. Conquistou 19 cadeiras no Senado (9,13%) e colocará 47 parlamentares na Câmara (10,56%). Claramente suas medidas de austeridade que tanto agradaram a UE foram impopulares no âmbito interno. Agora o Partido Popular Europeu, precisará engolir Berlusconi novamente, depois de tê-lo chutado há não muito tempo e acolhido o senhor Monti.

O populismo venceu

Se é que houve um grande vencedor nestas eleições foi o populismo. As promessas vagas e completamente infundamentadas de Berlusconi e Beppe Grillo conquistaram um povo vulnerável e abalado por uma forte crise econômica. Mesmo que alguém duvide, é inegável que o populismo é uma das armas políticas mais cruéis e covardes que existem.

Berlusconi (o Bunga-Bunga) prometeu reembolsar os contribuintes de impostos impopulares. E, pasmem! Ainda assim ele não foi deliberadamente acusado de compra de votos. É provável que exista a dúvida acerca de por que o dono do Milan recebeu tantos votos mesmo sendo acusado de infinitos delitos (inclusive o de manter relações sexuais com uma garota de 17 anos, Ruby). A resposta é simples: além de promover medidas descaradas e populistas, ele é dono de grandes veículos de comunicação italianos, ou seja, tem uma influência abissal na mídia que lhe permite se acercar à população de uma forma mais direta.

E como explicar o fenômeno Grillo? Pura e simplesmente indignação. Com alardeantes índices de corrupção (dentre os maiores da Europa), recortes impopulares e políticos que não passam confiança alguma, as pessoas preferiram votar em um partido que, apesar de maluco e não ter um plano de governo concreto, é ao menos honesto e fará o possível para dificultar a vida dos corruptos (pelo menos a princípio). Os eleitores de Grillo são, na sua maioria, homens mais velhos, de melhor nível educacional e acima da média de desemprego¹.

Chegou a hora da verdade

Nesta sexa-feira (1º), o presidente Giorgio Napolitano comunicou que fará o possível para que uma coalizão seja formada e refutou quaisquer possibilidades de retorno imediato às urnas: "Eu não estou interessado em votar novamente". Ademais, disse que o próximo presidente -seu mandato termina em maio- seguramente pensará a mesma coisa.

O problema é que a única coalizão de governo mais provável, entre Bersani e Monti, seria demasiado frágil e insuficiente para guiar o país. Logo após a divulgação dos resultados oficiais Grillo fez absoluta questão de ressaltar que, a priori, não aceitaria entrar em qualquer coalizão de governo. Ademais, descreveu Bersani como "um homem morto falando". 

Até mesmo a possibilidade de uma grande coalizão PDL-PD chegou a ser cogitada, mas ambos refutaram tal ideia absurda. A imprensa italiana, mesmo exagerando em muitos aspectos, tem razão em dizer que, de momento, a Itália é ingovernável. Se estiverem pensando em uma coalizão Monti-Berlusconi, esta também está descartada. O PDL rompeu com o governo do tecnocrata no fim do ano passado visando justamente as eleições.

Segundo a Reuters², se Bersani não conseguir formar um governo ele poderá ser substituído pelo jovem Matteo Renzi, prefeito de Florença. Ele pertence à ala mais moderada do PD (Bersani, por outro lado, era do Partido Comunista) e perdeu nas primárias do partido por uma pequena diferença. Por enquanto, o cenário político italiano é quase tão caótico quanto na época em que Berlusconi era o primeiro ministro.

¹ "Circus Maximus (II). Caio Blinder. http://veja.abril.com.br/blog/nova-york/italia/circus-maximus-ii/

² "Italian president rules out new vote as parties wrangle". Reuters World. http://www.reuters.com/article/2013/03/01/us-italy-vote-idUSBRE9200EJ20130301

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Il ritorno di Bunga-Bunga

Monti e Berlusconi.

Até para aqueles que leem apenas sites de fofocas o apelido "Bunga-Bunga" já é bem conhecido. Trata-se do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, conhecido pelos gravíssimos escândalos sexuais (envolvendo, supostamente, até prostitutas menores de idade) e de corrupção, que forçaram seu afastamento do governo. O problema é que, possivelmente para fugir de todas estas acusações, ele resolveu voltar a ativa e anunciou que irá concorrer a premiê nas eleições gerais de 2013.

Esta decisão não poderia ter vindo em pior momento (na verdade nenhum momento seria bom para ela), porque o governo de Mario Monti estava prestes a aprovar o orçamento para 2013 e o mercado finalmente havia deixado a Itália em paz. Mas aí aparece Berlusconi e joga o trabalho do senhor Monti no lixo. O comunicado foi feito pelo secretário do partido do Povo da Liberdade (PDL), Angelino Alfano, que é mais um boneco facilmente manipulável de Berlusconi.

Inclusive acreditava-se que Alfano seria o candidato do PDL. Estava tudo preparado para que tal fato realmente se consumasse e o próprio Alfano por vezes deixou transparecer seu desejo. No entanto, o poder de Berlusconi dentro do PDL é tamanho que ele obrigou Alfano a deixar sua ambição de lado e fazer o anúncio formal. Este período de aparente calmaria para o ex-premiê serviu para ele pressionar membros de seu partido a apoiarem-no para as próximas eleições.

Ao saber que o PDL retirou o apoio a seu governo e que Berlusconi voltaria, o senhor Mario Monti reuniu-se com o presidente Giorgio Napolitano e anunciou que se demitiria logo que o orçamento para 2013 fosse aprovado. Isso não só assustou -outra vez- o mercado como também o povo italiano. Monti não é tão popular dentro do país quanto fora, mas ainda assim tem o respaldo de um significativo número de pessoas.

Toda esta reviravolta aconteceu quanto a esquerda, representada pelo Partido Democrático (PD), se mostrou revigorada e pronta para oferecer uma alternativa aos corruptos do PDL (me recuso a chamar o PDL de Berlusconi de centro-direita). Nas primárias, o experiente Pier Luigi Bersani (ex-membro do Partido Comunista Italiano) venceu o jovem (30 anos) Matteo Renzi, atual prefeito de Florença e mais moderado (democrata-cristão). Apesar dos 60% dos votos em favor de Bersani no segundo turno, o PD também mostrou uma certa divisão.

Ainda que caótico, o cenário político para o PD aparentemente era "menos pior", porque Bersani estava liderando todas as pesquisas. Aliás, todas as pesquisas que não sugeriam uma coalização encabeçada por Monti como candidato. A verdade é os setores mais centristas clamam por Il Professore Mario Monti. Nesta semana o presidente da Ferrari, Luca Cordero di Montezemolo, apresentou uma plataforma cujo candidato seria o atual premiê. Seu apoio, ainda dentro do cenário do político, é muito forte. Conta com os centristas, descontentes do PD e do próprio PDL e até a Igreja Católica. De momento só falta sua confirmação.

Tentando diminuir a vergonha -já que as atuais pesquisas o situam atrás até do partido criado pelo comediante Beppe Grillo- Silvio Berlusconi apelou para o populismo (chegou a dizer que o spread* era uma invenção da Alemanha) e implorou o apoio do partido de extrema-direita Lega Nord, seu antigo aliado. Ele só não contava com um grande "não". Roberto Maroni, líder do partido, disse que só apoiaria o PDL se Berlusconi não fosse o candidato.

Com o cerco se fechando não houve outra alternativa a Berlusconi se não recuar. Nesta quinta-feira (13) ele anunciou que retiraria sua candidatura caso Mario Monti se apresentasse. Il Professore ainda não se manifestou. Outra possibilidade é que ele esteja visando a presidência, já que o senhor Giorgio Napolitano disse que não pretende nomear um primeiro-ministro se não houver maioria absoluta no parlamento.

Em suma, o futuro político da Itália depende de Mario Monti. Se sua candidatura realmente for lançada, ele vai angariar votos das três principais correntes partidárias e tende a ganhar. Se isso não acontecer, o PD levará certa vantagem, mas não sabemos se terá a grande maioria no parlamento ou se conseguirá formar coalização (o que de momento parece complicado).

*Spread é a diferença, ou sobrepreço, de compra e venda de títulos da dívida. No caso da UE, o cálculo é feito comparando as taxas de interesse do país (a Itália, por exemplo) com a Alemanha, nação que apresenta maior confiança. Resumindo, o spread mede a confiança dos investidores na solidez de uma economia.

Só para constar, na Itália apelidaram o neto de Mario Monti de spread. O próprio premiê contou esta história.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Grexit foi momentaneamente adiada mas ainda pode ocorrer

Antonis Samaras e Angela Merkel.

Depois que novas eleições legislativas foram realizadas na Grécia e o partido de centro-direita Nova Democracia conseguiu o maior número de assentos, seu líder, Antonis Samaras, sofreu para formar um governo de coalizão mas por fim conseguiu. Só lhe restava então enfrentar a crise de peito aberto e esforçar-se ao máximo para manter a Grécia na União Europeia.

No começo foi bastante difícil porque Fotis Kouvelis e Evangelos Venizelos, líderes do Dimar e do PASOK, respectivamente, não estavam de acordo com certas medidas de austeridade. Entretanto, Samaras pôs-se à frente de tudo e, contando com um ministro de finanças que ajudou a colocar a Grécia na UE há alguns anos (Yannis Stournaras), convenceu-os de que seria o melhor para o país.

Há poucos meses o primeiro ministro viajou para Bruxelas mas nada de importante aconteceu. O que marcou de verdade a Grécia desde o início do governo Samaras foi a chegada da troika -comissão formada por FMI, BCE e Comissão Europeia- cuja principal função é fiscalizar as possibilidades que a Grécia tem de cumprir ou não o acordo presente no memorando para que a segunda parcela do empréstimo de 130 bilhões de euros seja liberada.

Os primeiros dias foram de muito alarde na imprensa internacional com reflexo na bolsa de valores. A verdade é que muitos temiam uma pronta avaliação negativa dos chamados "homens de negro da troika". Mas foi aí que a figura de um Samaras com pulso firme começou a aparecer. Ele disse que a nação helênica faria o possível para cumprir o que foi acordado. Nas palavras do jornalista Alexis Papachelas, "Samaras não quer ver a Grécia regressar ao dracma, porque ele sabe que o custo, a pobreza e o desespero que se sentiria fariam a situação atual se tornar um 'passeio no parque'. Ele também se preocupa com o ônus de ser o governante no período de abandono da UE".

Seu plano de austeridade corresponde à uma economia de 11,5 bilhões de euros em um prazo de 2 anos. O país conseguiria isso através de cortes em aposentadorias (por enquanto apenas as pessoas que recebem menos de 700 euros mensais não sofreriam deduções), reduções de salários e privatizações. Entretanto, a outra parte da coalizão -Dimar e PASOK- não estão de pleno acordo com tais medidas (principalmente a primeira).

Prova disso foi que Fotis Kouvelis declarou que queria uma reunião com Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, que viajou à Grécia. Ademais, segundo a edição em inglês do jornal Kathimerini, Evangelos Venizelos pretende "renovar" a política grega de centro-esquerda e para isso contará com a ajuda do Partido Verde da Grécia e também do Dimar. O encontro entre as cúpulas está previsto para o início de setembro, justamente quando o PASOK faz aniversário e a troika divulgará seu relatório. Momento crucial.

Em uma reunião com a chanceler alemã, Angela Merkel, Samaras pediu mais tempo para que a Grécia possa cumprir o acordo: "não estamos pedindo mais dinheiro, queremos apenas um pouco de tempo para respirar. O premiê também fez questão de ressaltar que o país já está trabalhando duro para acatar o memorando.

Merkel decidiu não se pronunciar a respeito do pedido. Suas declarações se limitaram a defender -modestamente- a permanência da Grécia na UE e enfatizar que é preciso esperar o parecer da troika antes de dar qualquer passo. Wolfgang Schäuble (seu ministro de finanças), em contrapartida, se opôs a ideia de Samaras dizendo que "tempo é dinheiro".

Para um país que estava à beira do caos político e econômico há pouco menos de dois meses atrás já podemos dizer que a Grécia respira (com a ajuda de aparelhos, mas respira). Contudo, é importante se ter em mente que este é apenas um obstáculo pelo qual o país que está no seu quinto ano de recessão (e deve atingir exorbitantes 7% em 2012) deve passar até poder finalmente ter um alento.

sábado, 30 de junho de 2012

Nada de segunda-feira negra

O vitorioso da noite (?)

Esta foi a frase do aliviado tecnocrata italiano Mario Monti após a reunião de quinta-feira em Bruxelas. Tal reunião marcou mudanças significativas e concessões por parte da Alemanha, sendo a principal delas a permissão para a recapitalização dos bancos. Isto é, o dinheiro de eventuais empréstimos poderá ser passado diretamente aos bancos.

Seguramente o encontro em Bruxelas foi o primeiro de muitos passos que ainda precisam ser dados para que o quadro crítico econômico seja revertido. Mas se as mudanças aconteceram, já é alguma coisa. Como disse Gavin Hewitt, a reunião marcou a divisão entre os europeus do norte (capitaneados pela Alemanha) vs os do Sul (capitaneados por Itália e Espanha). Enquanto os primeiros queriam manter a austeridade, os outros tentaram forçar um abrandamento nas condições para os empréstimos e reiteraram a proposta de François Hollande, que visa a instituição de uma cláusula de crescimento.

Mas tudo não foi tão fácil como parece. As discussões se estenderam por horas, até o momento em que Mario Monti ameaçou abandonar o cargo caso suas exigências não fossem atendidas. Vendo que a situação não lhe era nada favorável (3 contra 1), frau Merkel decidiu aceitar as condições impostas não deixando de lado seu perfil conservador.

A mais significativa mudança foi a já mencionada recapitalização dos bancos, que não permitirá um aumento das despesas dos bancos privados e, sobretudo, contribuirá para que os pequenos bancos regionais não sejam -como estão sendo atualmente- grandes responsáveis por parte do déficit. No entanto, como foi bem colocado no Charlemagne's notebook, nada poderá acontecer de uma hora para outra. A primeira tarefa da UE será criar um "supervisor-mor forte centrado no BCE", para que os eventuais resgates dados não sejam perdidos.

Outro que lutou veementemente por esta recapitalização foi o premiê espanhol Mariano Rajoy. Isso logicamente o fez afrouxar a gravata, mas nem tudo terminou por aí. Lembram-se do resgate de 100 bilhões de euros pedidos pela Espanha? Pois então, para este dinheiro não haverá recapitalização. O lado bom (?) é que esta dívida ficará momentaneamente com o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF) e poderá futuramente ser transferida para o Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM).

Ademais, algo importante a se destacar é que a partir do momento em que houver qualquer empréstimo as medidas de austeridade serão mais brandas. Merkel bateu o pé antes de aprovar isto, mas não teve outra alternativa. Atenção: não é que a austeridade vai deixar de existir ou a troika não ficará de olho na economia dos países beneficiados, ela só será mais "leve".

Por fim, o tão almejado Pacto para o Crescimento e Emprego foi assinado. Os países concordaram em direcionar 120 bilhões de euros (1% do PIB da UE) para "injeções" no mercado. Parece que o piti de Mario Monti deu muito certo.

A reunião foi bastante frutuosa tanto a curto como a longo prazo. Hollande, Rajoy e Monti podem não ter saído com um sorriso no rosto, mas as expressões de alívio saltaram à vista. Estas medidas mostraram que que a UE está tomando um caminho sem volta, um caminho de unidade quase que absoluta econômica e até mesmo política.

domingo, 17 de junho de 2012

Pelo menos por enquanto, alívio...

Antonis Samaras. EKATHIMERINI.

Neste domingo (17) foram realizadas novas eleições legislativas na Grécia. O conservador Nova Democracia venceu com 29,68% dos votos, enquanto o esquerdista Syriza ficou com 26,89%. Mais do mesmo. Assim como nas eleições passadas, o partido que venceu irá sofrer muito para formar uma coalizão.

O resultado em si não foi surpreendente. Houve um grande apoio para o Syriza, mas boa parte da população se manteve fiel à UE. Durante a semana muito se especulou sobre como seria este Grexit (saída da Grécia) e seus possíveis reflexos na zona do Euro. Todos os analistas concordaram que serviria de exemplo para Alemanha mudar sua atitude quase que exclusivamente baseada na austeridade. Mas ainda não será dessa vez que a senhora Merkel vai aceitar de bom grado as cláusulas de crescimento.

Por incrível que pareça, Antonis Samaras e o Nova Democracia passaram pela etapa "menos complicada" do processo de permanência ou não da Grécia na UE. As eleições foram apenas o primeiro obstáculo. Agora vem a luta visando uma coalização com, no mínimo, 151 deputados. Vamos analisar os números: o partido vencedor terá 129 deputados, o Syriza 71, o decepcionante PASOK 33, 20 para os Gregos Independentes, Aurora Dourada terá 18, Esquerda Democrática 18 e KKE 12.

Composição do Parlamento.EL PAÍS.

A primeira possibilidade seria uma aliança com o Partido Socialista Pan-Helênico, como ocorreu nos governos anteriores (na ocasião, o Nova Democracia era a oposição mas acabou se associando ao PASOK), mas Evangelos Venizelos afirmou que só aceitaria participar de um governo onde o Syriza pudesse ser incluído. Isso diz tudo.

O líder populista do Syriza, Alexis Tsipras, parabenizou pessoalmente Samaras pela vitória, mas em seu discurso disse que seu partido não iria fazer parte de qualquer governo que compactuasse deliberadamente com o Memorando. Fez questão de frisar que exige uma renegociação. A verdade é que o próprio Samaras quer que a troika tente apertar menos o cinto para a Grécia, mas não tanto quanto Tsipras.

Assim que as eleições terminaram o ministro das relações exteriores alemão, Guido Westerwelle, comentou que a escolha pelo Nova Democracia foi "o apoio demonstrado pelo povo grego à UE", mas fez questão de ressaltar que as condições para que o resgate aconteça permanecem as mesmas. Ademais, pediu para que um novo governo seja formado o mais rápido possível.

A verdade é que Antonis Samaras, apelidado pelos partidários do PASOK há alguns anos como "senhor não" por sempre discordar das ideias propostas por eles, agora está sentindo na pele o que é fazer parte da situação e ter uma oposição chata no seu caminho. Seguramente ele não irá dormir pelos próximos dias e não é sempre que terá a titia Merkel à sua disposição.

Alguns meios de comunicação da Grécia estão dizendo, inclusive, que foi até melhor para Tsipras a derrota de seu partido. Assim quem sofre o desgaste todo é Samaras enquanto ele adota a política do não e se fortalece cada vez mais no cenário nacional. Vamos aguardar os próximos capítulos desta agonizante história que, ao parece, ainda está muito longe de acabar.

sábado, 9 de junho de 2012

O começo do fim ou só mais um período turbulento?

Banco Central Europeu.

Com tamanha crise econômica ainda no seu auge, é inevitável que inúmeras teorias sejam criadas e defendidas sobre um possível desfecho. Os mais otimistas acreditam em uma recuperação, os pessimistas no fim, e os mais assustados no caos total. O mais curioso é que todos podem ter razão.

No último Manhattan Connection o economista Ricardo Amorim referiu-se ao Brasil como o "país do plano B", que procurava agir em cima da hora. Com a crise econômica foi a mesma coisa. A velha história de que o mercado entra nos eixos por si próprio não funcionou. Só quando o cinto precisou ser apertado é que os governos começaram a reagir e puderam ver a dimensão dos estragos que refletiu da pior forma possível na qualidade de vida da população.

Angela Merkel, como chanceler alemã (a Alemanha é o país que mais se beneficia com a União Europeia), tomou a frente da situação, "invocou" Otto von Bismark e pediu austeridade. Aí entra toda aquela discussão de austeridade x crescimento, mesmo com todo mundo sabendo que ambos são necessários. Com a eleição de François Hollande a coisa ficou um pouco mais dividida. Enquanto isso a Grécia estava "no olho do furacão". Vejam bem, eu disse estava e não está. Isso porque muitos consideram que o país helênico não irá permanecer na zona do Euro (as pesquisas indicam Syriza e Nova Democracia praticamente empatados na liderança para as novas eleições legislativas). 

Acreditem, uma possível saída da Grécia seria mais um alívio para a União Europeia, apesar de que os principais líderes fazem questão de dizer o contrário. A verdade é que poucos sabem como o país entrou no seleto grupo, mas sabem como poderá (deverá?) sair: excessivos gastos. A Grécia sempre gastou quantias exorbitantes e nunca parou para pensar em possíveis reflexos. Agora é a vez da Espanha, que está prestes a receber um pacote de ajuda de até 100 bilhões de euros, para tentar amenizar as gravíssimas dificuldades bancárias que o país enfrenta.

Mas se preparem, este é só o começo. A partir daqui existem duas correntes de pensamento: uma acredita que a UE seguramente terá condições de bancar resgastes financeiros a nações necessitadas, como acabou de fazer com a Espanha; e outra prega que este fato não poderá se repetir caso Portugal, Irlanda e Itália precisem. E o pior (!) é que tal crise não tem prazo de validade, mas os mandatos governamentais sim. Políticos pró-UE não irão ficar no poder para sempre (situação de Merkel ficou mais complicada com a derrota de seu partido na Renânia do Norte-Westfália) e aí é que entre aquela já mencionada aqui "ascensão dos extremos".

A tendência é que o domínio da política de centro-direita desapareça. Em momentos difíceis, o mais provável que se mude a forma de administração. Assim pensa o povo. O problema é que nem sempre social-democratas como François Hollande serão eleitos. Ele não é um defensor de Merkel, mas também não prega o fim da União Europeia. Ademais, seja centro-direita ou centro-esquerda, o pragmatismo do "centro" é que não agrada a gregos e troianos (em alguns casos, desagrada ambos).

Sem mais delongas, vamos ao ponto fundamental: a Europa vive o pior período de recessão desde a Segunda Guerra Mundial e, na época, a solução encontrada (em alguns países) foi a adoção de regimes exageradamente nacionalistas que mais tarde se mostraram xenófobos, agressivos e, com isso, deram um novo curso à história. A tendência é que a humanidade aprenda com seus erros, mas a "geração WW2" (que hoje está entre 80 e 90) deu lugar a jovens que não têm emprego e mal podem imaginar a consequência de seus atos.

Já pensaram em uma França com Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon no poder? Holanda com Geert Wilders? A bela colocação do Syriza nas últimas eleições legislativas gregas já nos mostrou o quão perigoso isso pode ser. Querem outro exemplo histórico? A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mais um regime extremista, que tentou pregar mais que uma unidade econômica e entrou em colapso.

Mesmo com uma integração cada vez maior entre as nações, a União Europeia prega apenas uma unificação monetária. Isso, segundo o especialista Max Keiser, também é um problema: "não há como ter moeda única sem um estado unificado, porque a soberania de muitos países está em jogo".

Tudo isso parece trágico não? E realmente é. Portanto, precisamos acreditar nas "leis do mercado" e na capacidade administrativa da UE para combater tamanha crise. Se não conseguirem a médio (curto seria impossível) prazo, só nos restará rezar para que o povo tenha aprendido com os erros do passado.

domingo, 20 de maio de 2012

Merkollande ou Merde?

Vamos torcer para que seja "Merkollande".

Não é segredo para ninguém que a chanceler alemã Angela Merkel apoiou Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas. Mas basicamente isso não adiantou nada (muito pelo contrário?), porque quem ganhou foi o candidato do Partido Socialista François Hollande. Agora fica a dúvida acerca de como será a relação entre os governos dos dois países mais "fortes" da zona do Euro.

Logo após sua posse Hollande pegou um voo para a Alemanha. Mas não foi tão simples assim. Antes do tão aguardado encontro com Merkel seu avião foi atingido por um raio e forçado a voltar. Nada que o impedisse de ir até a Alemanha. O que era para ser apenas um jantar informal acabou se convertendo no assunto mais comentado do mundo, como se qualquer decisão de sumária importância fosse tomada naquele momento. Obviamente isso não aconteceu (tanto que até alguns jornais estavam divulgando o menu degustado pelos chefes de Estado).

À parte disso, Hollande saiu com uma vitória. Como já foi mencionado aqui no Internationale Actuelle, ele tem o forte desejo de anexar uma cláusula de crescimento ao Fiscal Compact (já que renegociá-lo está fora de cogitação) e, ao que parece, a senhora Merkel se mostrou de pleno acordo. Contudo, uma coisa deve sempre se ter em mente: não há como combater uma crise apenas com injeções financeiras e sem austeridade. Merkel sabe disso. Tanto que, apesar de amenizar o discurso, não aceita de forma alguma que a Grécia renegocie as condições de seu empréstimo.

Agora só nos resta saber se o "Senhor Normal" também compartilha desta opinião. De momento sua única grande mudança foi a redução salarial dos ministros (e sua) em cerca de 30% e a lógica reforma ministerial (nomeando Jean-Marc Ayrault primeiro ministro). Historicamente falando as relações entre governantes franceses e alemães deram mais certo quando eles tinham "perfis opostos". O maior exemplo disso são François Mitterand (ídolo de Hollande e também socialista) e o chanceler Helmut Kohl.

Muitos já dizem que Merkel está de mãos atadas e vai precisar abrir mão do seu discurso de "ferro e sangue" (comparado pelo genial Harold James ao de Otto von Bismark) em prol de apoio dos outros países. Realmente é difícil colocar na cabeça de nações onde há desemprego e fome que medidas de contenção financeira são necessárias, mas o que todos precisam entender é que uma saída da União Europeia não é o melhor remédio para ninguém.

Prova disso é que os líderes europeus no decorrer da semana enfatizaram que a Grécia precisa cumprir com o acordo para receber seu empréstimo e, caso saia da zona do Euro, sua situação será ainda mais caótica. Uma informação divulgada -e posteriormente desmentida- relatou que Frau Merkel havia pedido um referendo para saber a opinião do povo grego a respeito da continuidade ou não na UE. Tudo isso serve de alerta às pessoas que pretendem votar no Syriza nas próximas eleições.

Ainda que suas ideias sejam um pouco diferentes, Hollande e Merkel têm como principal objetivo a reversão imediata do quadro econômico europeu. Se algo não for feito, a situação tende a piorar (e muito). Ademais, Merkel sabe que não ficará no poder para sempre e que qualquer crise interna pode afetar seu governo (a perda na Renânia do Norte-Westfália serve de alerta). Portanto, a colaboração mútua é mais que uma obrigação.


domingo, 13 de maio de 2012

Populismo grego?

A reunião durou 90 minutos. EL PAÍS.

Na semana passada foram realizadas as eleições legislativas na Grécia. Estas visavam a formação de um novo governo. Contudo, a fragmentação no Parlamento tornou as coisas muito complicadas. Antonis Samaras, Alexis Tsipras e Evangelos Venizelos tentaram, em vão, formar uma nova coalizão. Neste domingo (13) o presidente Karolos Papulias se reuniu com os três representantes, mas nada foi decidido. Tudo indica que ele precisará convocar novas eleições.

Como todos sabem, o partido Nova Democracia obteve o maior número de cadeiras no Parlamento. Por isso seu líder, Antonis Samaras, foi o primeiro encarregado de unir os interesses partidários em torno de um bem comum. Logicamente teve o apoio do PASOK. O principal empecilho foi o Syriza, que aos poucos está colocando suas "manguinhas" para fora.

Demoraram menos de 24 horas para que Samaras anunciasse que não obteve sucesso. Depois dele foi a vez de Tsipras, líder do já mencionado partido que representa a esquerda radical, mas ele também fracassou. Logo abaixo vou comentar com mais calma as razões deste insucesso. Por fim, a "batata quente" caiu nas mãos de Evangelos Venizelos. Ele quase foi salvo pelo Dimar (esquerda democrática), mas adivinhem, por culpa do Syriza as coisas não deram certo.

Devem estar se perguntado: o que há de errado com este partido? Em seu lugar eu também estaria. A verdade é que desde a campanha eleitoral eles se mostraram um pouco radicais. Tsipras, contudo, defendeu a permanência do país helênico na zona do Euro e apenas cobrou algumas reformulações. Foi só seu partido tomar o poder que ele começou a imitar seus ídolos chamados "populistas" (dentre eles Hugo Chávez).
Divisão do Parlamento. EL PAÍS.

Ele atacou veementemente o Fiscal Compact e pediu uma revisão das medidas que o país deveria tomar para que o empréstimo negociado por Venizelos pudesse chegar. Ademais, exigiu que uma cláusula de crescimento fosse adicionada ao já mencionado tratado. Tudo bem que ele quer defender o povo, mas será que não percebe que uma saída da União Europeia agora só iria prejudicar a Grécia? Será que ele acha que graças a suas lamúrias Angela Merkel, o Banco Central Europeu e o FMI estarão dispostos a mudar o Fiscal Compact? Parece mais um garoto iludido do que alguém capaz de liderar o segundo partido mais votado da Grécia.

Quem está seguindo a situação de perto pode argumentar: "mas Hollande também quer renegociar o Fiscal Compact". Sim, isso é verdade. A diferença é que ele não quer alterar o limite da dívida de cada país (que não pode ultrapassar 3% do PIB), interferir nas medidas de austeridade ou mesmo na troika. Seu principal objetivo é combinar, por assim dizer, crescimento com austeridade. Uma pena que esta última seja a única ideia plausível que Tsipras defenda.

Após a reunião realizada com Papulias sua primeira declaração à imprensa foi a seguinte: "eles (Papulias, PASOK e Nova Democracia) não querem apenas que o Syriza concorde, eles querem que o partido seja cúmplice de crimes e não vamos concordar com isso".

Caso novas eleições sejam realizadas, o cenário é ainda mais perigoso. A maioria das pesquisas aponta uma vitória do Syriza inclusive sobre o Nova Democracia, o que tonaria ainda mais difícil a formação de qualquer coalizão. Até a hipótese de isso acontecer deixa arrepiada a senhora Merkel. Quem perde mais com isso? A própria Grécia.

Karolos Papulias realizou ainda outra reunião à portas fechadas com os líderes dos partidos menos votados. Infelizmente apenas Fotis Kuvelis (representante do Dimar) estava disposto a concordar com uma coalizão. Os outros só defenderam suas ideias radicais, como se isso fosse ajudar de alguma forma a o país que clama por socorro.

O presidente, de 82 anos, sabe que o caminho das novas eleições não é o melhor a ser tomado. Portanto, na segunda-feira (14) outra reunião com os primeiros três líderes será realizada. As esperanças de que isso resulte em alguma coisa são pequenas, mas estaremos na expectativa.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Luz no fim do túnel? Parece que não

Venizelos (esq.) e Samaras (dir.). EL PAÍS.

Como já foi relatado aqui no "Internationale Actuelle", no domingo foram realizadas as eleições legislativas na Grécia. Se as pesquisas já estavam alertando a opinião internacional sobre o país, a coisa ficou ainda pior quando todas as urnas foram apuradas. Basicamente o atual Parlamento é um dos mais fragmentados da história do país.

A Nova Democracia, partido de centro-direita que fazia parte da coalizão, atingiu 18,85% dos votos (108 deputados). A partir daí é que começam as surpresas. O PASOK, que em 2007 havia conquistado 44% do eleitorado, obteve apenas 13,18% no domingo (41 deputados). O segundo partido mais votado foi o Syriza, chefiado pelo jovem Alexis Tsiparis (38 anos). Com 16,78% dos sufrágios, um número razoável de assentos no Parlamento foram conseguidos (52).

Se acham que isso já denota a indignação do povo grego com as dívidas do país e com a miséria em que estão vivendo, esperem um pouco e respirem fundo antes de ler o que segue: o KKE, partido comunista, conseguiu colocar 26 deputados no Parlamento graças aos 8,48% de votos conquistados. E não para por aí. O neonazista -ou como preferem seus seguidores Ultranacionalista Grego- Aurora Dourada superou a porcentagem esperada e, com 6,97% do eleitorado vai contar com 21 cadeiras no Parlamento.

Para bom entendedor meia palavra basta. Com um Parlamento tão fragmentado assim é quase impossível formar um novo governo de coalizão. Hoje o líder do Nova Democracia, Antonis Samaras, disse o seguinte: "fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas foi impossível". Resumindo: ele tinha três dias para formar uma nova coalizão e fracassou.

Agora a "bucha" está nas mãos de Tsiparis. E é justamente aí que entram suas ideias de reforma. Ele quer renegociar com a UE e com o FMI as condições para que o resgate de 130 bilhões de euros, providenciado por Evangelos Venizelos, não prejudique ainda mais o país. Isso implicaria em uma redução, por assim dizer, da troika e das medidas de austeridade tão defendidas (apenas) por Angela Merkel. A chanceler alemã já se pronunciou dizendo que não concorda com estes termos.

Sejamos racionais. Ao menos em um ponto o discurso de Tsiparis não é totalmente absurdo. Ele não quer que o povo grego seja ainda mais prejudicado. Contudo, a Grécia está uma situação muito crítica onde precisa fazer estes "sacrifícios" para não quebrar de vez. E, cá entre nós, apenas uma tentativa de inflar a economia não iria resolver os problemas do país. Até porque, é bastante complicado que tal coisa aconteça.

Voltando ao assunto coalizão, Tsiparis também não vai ter vida fácil. Além de não contar com o apoio dos extremistas, se ele tiver um discurso anti-Europa na manga também vai acabar tendo sérios problemas. Caso ele não consiga formar o governo, a última tentativa será feita com Evangelos Venizelos. E se mesmo assim nada der certo, novas eleições serão marcadas.