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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mohamed Morsi não é mais o presidente do Egito

Comemoração na Praça Tahrir.

Nesta quarta-feita (3) Mohamed Morsi foi oficialmente deposto. Os intensos protestos organizados pelos opositores resultaram em uma intervenção militar que tirou o (ex?) membro da Irmandade Muçulmana da chefia do poder executivo.

No passado dia 30 de junho Mohamed Morsi completou seu primeiro ano na presidência. Para que esta data realmente fosse marcante seus adversários organizaram intensos protestos que tinham apenas um fim: derrubar o presidente. Liderados pelo grupo Tamarod (rebelião), eles se mobilizaram no país todo e prometeram não descansar até que Morsi abandonasse o cargo.

A Irmandade Muçulmana, por sua vez, fez com que seus militantes se preparassem para defender a legitimidade do presidente. Desde sexta-feira eles acamparam em frente ao palácio presidencial esperando pelos opositores.

O exército disse que só iria interferir caso a situação se tornasse ainda mais caótica. E foi exatamente o que aconteceu. Na segunda-feira (1), através de um comunicado oficial, deram 48 horas para o presidente Mohamed Morsi apresentar uma resposta satisfatória ao povo. O engenheiro disse que seu poder estava em consonância com as forças armadas e que não toleraria qualquer golpe. Esta foi claramente uma resposta aos militares, e não aos manifestantes.

Nas ruas, pouco a pouco, os confrontos entre os pró e os anti-Morsi iam se intensificando. A sede da Irmandade Muçulmana em Alexandria foi atacada após um dos membros atirar contra os manifestantes. O Egito esteve (e para falar a verdade ainda está) à beira de uma guerra civil. Os relatos de violência (incluindo  46 agressões sexuais) e os 16 mortos deixam isso muito claro.

Mas como as coisas chegaram a este extremo?

Para entender as circunstâncias que levaram à queda de Morsi, devemos fazer uma retrospectiva até o cenário político egípcio logo que o ditador Hosni Mubarak foi deposto. Na época os militares também tiveram um papel vital, se encarregando das eleições parlamentares e da organização das presidenciais.

Como expliquei em minha análise da Primavera Árabe realizada no ano passado, a ascensão da Irmandade Muçulmana (da qual falei aqui e aqui) era mais do que lógica. Afinal de contas, não havia qualquer outro grupo organizado. No entanto, o fato de Ahmed Shafiq, ex-ministro das relações exteriores de Mubarak, ter ficado na segunda colocação revelou o receio que parte dos seculares sentiam da Irmandade e seu candidato.

A maioria dos observadores externos não sabia o que pensar da entidade. Para eles o fato de Morsi ter se afastado dela oficialmente (o que não corresponde à realidade) e algumas divergências iniciais com personalidades políticas muçulmanas mostravam que ele seria um presidente "moderado". A grande ajuda do governo Obama desde o início do mandato também moldou o pensamento das demais nações ocidentais.

Mediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas só abrilhantou a imagem de Morsi. Mas a "lua-de-mel" com o Ocidente durou pouco. A coisa começou a mudar de figura quando ele anunciou um decreto faraônico no qual submetia todas as decisões a seu poder sem revisão judicial até que uma nova Constituição fosse elaborada. Apesar do autoritarismo, não houve pressão externa e os protestos dentro do país foram facilmente controlados.

O autoritarismo da Irmandade e a desorganização da oposição

Passados alguns meses desde que assumiu o poder já era evidente o caráter autoritário de dr. Morsi e a influência da Irmandade no governo. Ainda que não tenha conseguido afastar a "ameaça" dos militares (Abdul Fattah Al-Sissi se tornou ministro da defesa) ele fez o que pôde (o general Hussein Tantawi foi aposentado compulsoriamente). Ademais, a disputa com o judiciário remanescente de Mubarak (por isso chamado de felul) era cada vez maior.

O único problema que Morsi não conseguia enfrentar era o da economia. Nem a ajuda do governo americano foi suficiente. O empréstimo do FMI não foi liberado porque as negociações emperraram. Enquanto isso o povo perecia e saía às ruas protestando contra o governo.

Não vendo outra saída possível, aqueles se intitulavam opositores formaram uma coalizão -- a Frente de Salvação Nacional -- capitaneada por Mohamed El-Baradei. A única coisa que os unia era a vontade de derrubar Morsi. Resultado: não houve qualquer discurso que pudesse ao menos propor uma alternativa para a população. Nada de propostas, apenas "Fora Morsi".

A gota d'água e a intervenção militar

Enquanto a oposição se concentrava em bater em Morsi e na Irmandade, a qualidade de vida dos egípcios ficava cada vez mais precária (o valor da libra caiu 25% em relação ao dólar desde o fim do governo Mubarak). Isso durou até o momento em que o povo resolveu dar um basta.

Durante todo o mês de junho os protestos se tornaram mais contundentes. A aliança de Morsi com o Al-Gama'a Al-Islamiya, um grupo assumidamente terrorista, só piorou as coisas. Na passada quarta-feira o presidente foi ridicularizado em público por seu discurso lamentável. O grupo Tamarod disse que juntou 22 milhões (!) de assinaturas pedindo sua saída. Os comícios organizados pela Irmandade foram insignificantes. 

Quando a situação política beirava o colapso os militares interviram. Após uma reunião com representantes da FSN, da Igreja Copta e muçulmanos, Abdul Fattah Al-Sissi, por volta de 21h00 horário local, anunciou as modificações e o plano político futuro para o Egito: (1) suspensão da Constituição; (2) eleições antecipadas serão realizadas; (3) a chefia do executivo ficará a cargo do presidente da Suprema Corte Constitucional (Adly Mansur); (4) será formado um governo de coalizão nacional; e (5) haverá uma comissão para analisar emendas à Constituição.

Em apoio à atitude dos militares e em tom conciliador falaram Mohamed El-Baradei, o papa copa Tawadros II e o grande imã de Al-Azhar, Sheikh Ahmed El-Tayyeb. Contudo, o que ainda preocupa é uma possível (e até provável) reação da Irmandade Muçulmana. O primeiro comunicado do grupo, que inclusive teve apoio do partido salafista Watan, dizia que este "golpe" não seria tolerado. E nem é preciso dizer que a Irmandade é uma organização extremamente forte e influente.

Concluindo: acho sim que a população tem motivos para comemorar (sobretudo os coptas) e vejo com bons olhos a intervenção militar. Só acho que este foi apenas o primeiro passo para os egípcios. Agora eles precisarão estar preparados pela resposta da Irmandade (seus partidários já cantaram "reação, reação, reação" depois do anúncio de El-Sissi) e para resistirem a este quadro econômico que ainda é demasiadamente complicado.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um "moderado" é eleito presidente do Irã

Hassan Rouhani.

Não sei se já repararam, mas sempre que a mainstream media se refere a um candidato iraniano ele é "moderado". Os ultraconservadores são aqueles que recebem poucos votos e nem se aproximam de se eleger. A impressão que tenho ao ler alguns jornais americanos (vocês já devem saber quais são) é que todos os candidatos iranianos são moderados. Ou seja, alguma coisa nisso tudo está errada!

A bola da vez é o recém-eleito Hassan Rouhani, que tem até twitter, um clérigo conhecido no Ocidente pelo seu apelido de "Sheikh Diplomata". Ele mesmo se declarou "moderado" e "reformador", palavras estas que só adoçaram NYT, Washington Post e cia limitada. Teve até colunista por aí pedindo uma aproximação do presidente Obama para com ele. 

Passemos agora, resumidamente, a analisar os feitos políticos do senhor Rouhani. Ele esteve no Conselho Supremo Nacional durante 16 anos e renunciou recentemente, ainda sob o mandato de Mahmoud Ahmadinejad*. O que indica claramente que detém a confiança do aiatolá Ali Khamenei. Vale destacar também que durante o governo de Mohammed Khatami (vejam só, outro moderado!) o "Sheikh Diplomata" foi colocado à frente da equipe nuclear iraniana e conseguiu, ao prometer suspensão de parte da atividade nuclear do país, um abrandamento nas sanções.

Quem pode melhor explicar o resultado de todo este esforço de Rouhani é o ex-presidente do Parlamento Abdullah Ramezanzadeh: "Nós tínhamos um acordo para a suspensão do enriquecimento, mas importávamos todas as peças necessárias para a atividade nuclear. Estávamos realizando todas as nossas políticas em duas frentes: uma para continuar as negociações de forma aberta mantendo os americanos longe delas, e outra para continuar nossas atividades nucleares e segredo."

Bom, para mim isso já bastaria para ter os dois pés atrás com este presidente "moderado". No entanto, a coisa não para por aí. Ainda tem mais. Conforme noticiou o Washington Times, Hassan Rouhani integrou uma força-tarefa iraniana responsável por planejar o atentando à AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina), em 1994, assassinando nada menos do que 85 pessoas. Sabem o que é pior? Ler matérias de jornalistas "respeitáveis" confiando em sua moderação porque ele não falou nada sobre Israel. Não falou mesmo. Mas fez coisa muito pior!

Algo que pode parecer meio contraditório aqui depois do exposto anteriormente é o fato de Rouhani se apresentar como moderado tanto dentro quanto fora do Irã. Sobre isso, e para concluir este pequeno texto, gostaria de citar a melhor análise que li tratando do assunto até o momento, feita por Reza Kahlili no WND:

"Um analista da inteligência da Guarda Revolucionária que desertou para um país escandinavo previu a seleção de Rouhani como próximo presidente uma semana antes da eleição e disse que o regime cria constantemente uma imagem de divisão dentro do seu sistema político entre os chamados conservadores e moderados. O objetivo de colocar o moderado Rouhani como vencedor era enganar o Ocidente mais uma vez através de uma nova esperança de que poderia haver negociações sobre o programa nuclear ilícito do Irã, disse ele, enquanto consegue ainda mais tempo para desenvolver armas nucleares, tornando-se assim, inatingível pelo Ocidente."

 Reparem como não é nem um pouco difícil enganar o Ocidente com esta tática. E tudo se torna ainda mais fácil com Barack Obama Presidente, John Kerry Secretário de Estado e Chuck Hagel Secretário de Defesa dos Estados Unidos.

*Pouco antes das eleições e vendo que sua guerra particular contra Ali Khamenei estava para ser liquidada, o presidente Mahmoud Ahmadinejad fez uma ameaça: se a candidatura de seu favorito não fosse aprovada pelo Conselho ele traria a público as provas de que houve fraude em sua eleição. Em resposta ficou preso por 7 horas, seu candidato não foi aprovado e até o momento ele calou a boca.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Qusayr caiu e levou consigo a moral dos rebeldes

Após 17 longos dias de batalha  Qusayr sucumbiu às forças de Bashar Al-Assad e do Hezbollah na quarta-feira (5), naquela que foi uma das derrotas mais duras para os insurgentes sírios. A cidade, que estava há cerca de um ano nas mãos dos rebeldes, servia como rota de abastecimento para suas tropas com suprimentos vindos do Líbano.

Qusayr localiza-se ao norte da fronteira com o Líbano e está próxima ao Vale do Bekaa. Era uma das poucas cidades do centro-sul da Síria que ainda estava sob o jugo dos rebeldes. Assim sendo, a mobilidade de tropas vindas do norte não foi uma surpresa. Para Assad o comando da cidade seria vital por três grandes motivos: (a) cortar a principal rota de abastecimento rebelde provinda do Líbano; (b) "limpar" o corredor que liga Damasco a Tartus e Latakia, cidades do noroeste sírio que são redutos da seita alauíta do presidente e que albergam grande parte de seus apoiadores (vale lembrar também que em Tartus está uma instalação estratégica naval russa); e (c) propiciar uma válvula de escape para que suas tropas tenham acesso também a Homs e de lá para outras áreas ao norte.

Reparem no corredor formado à esquerda.

A vital contribuição do Hezbollah

No mês passado o líder do grupo terrorista libanês Hezbollah, Sheikh Sayyed Hassan Nasrallah, gravou uma mensagem na qual deixava extremamente claro que apoiaria seu parceiro Bashar Al-Assad até as últimas consequências prometendo o envio de "dezenas de milhares de combatentes". Sua justificativa foi que o fluxo de estrangeiros nas fileiras rebeldes aumentou muito nos últimos tempos. E quanto a isso ele tem razão. O Syrian Human Rights Watch estima que 2.219 estrangeiros foram mortos lutando em nome dos rebeldes.

No entanto, o envio de militantes à Síria serviu também como uma espécie de laboratório para os terroristas xiitas. De 2006 para cá suas técnicas de treinamento foram modificas enfocando sobretudo táticas de guerrilha. Isso porque, segundo a própria liderança do grupo, tais artimanhas poderiam ser eventualmente utilizadas contra o "agente sionista".

A estratégia de guerrilha difere um pouco do antigo modus operandi do Hezbollah: nos anos de 1990 a luta ocorreu (contra israelenses) principalmente em territórios rurais, onde os milicianos precisaram aprender a se camuflar em um ambiente difícil de floresta densa; em 2006 os confrontos passaram a acontecer dentro de vilas e cidades, o que propiciou um aperfeiçoamento nas táticas de guerrilha (táticas estas que foram aprimoradas no Irã).

Qusayr era acessível para o Hezbollah.

Inicialmente, segundo Nasrallah, a constante movimentação de milicianos do grupo terrorista na região era apenas para "proteger civis libaneses". Mas logo que se viu que o objetivo era bem maior do que esse. No exato momento em que o exército de Assad começou a perder terreno em Homs, tropas mobilizadas em Hermel e no Vale do Bekaa foram prontamente acionadas para o apoio. O mesmo ocorreu em Qusayr.

No entanto, nesta última pudemos ter uma real dimensão do envolvimento dos terroristas xiitas e do quanto suas táticas recém-aprimoradas podem oferecer grande perigo a Israel futuramente. Citando um miliciano de nome Hajj Abbas, o jornal Daily Star forneceu mais detalhes sobre a batalha. O principal deles foi a efetividade do Hezbollah no confronto: o grupo terrorista utilizou cerca de 1.200 combatentes de suas forças de elite e comandou os ataques do solo, enquanto o exército de Assad ofereceu apoio aéreo. Engenheiros também foram mobilizados para, nas palavras do terrorista ao Daily Star, livrá-los de "maiores dores de cabeça" que poderiam ser acarretadas pelas armadilhas dos rebeldes.

A queda de Qusayr era uma questão de tempo.

Os rebeldes que lá estavam receberam reforços das brigadas Farouq, Al-Haqq, Mughaweer, Wadi, dos batalhões Quassion  e Ayman. Sobre o Jabaht Al-Nusra, poucos foram os que apareceram. Aproveitando a "fama" do grupo a mídia quis exagerar um pouco. De qualquer forma nem todo este deslocamento bastou para  que a cidade fosse mantida sob o jugo rebelde. A resistência foi brava, sem dúvidas, e eu diria até milagrosa. Mas contra milicianos bem preparados e que ainda contavam com grande auxílio do exército regular, seria impossível permanecer no comando de Qusayr.

Resultados políticos da batalha de Qusayr

Se a fragmentação do suposto Exército Sírio Livre (FSA na sua sigla em inglês) já era um motivo para a divisão política*, agora tudo ficará ainda mais complicado. Ainda que tenha perdido muitas cidades ao norte, a vitória sobre Qusayr foi uma das mais significativas até agora nesta guerra civil para Bashar Al-Assad.

Estamos no aguardo de uma nova reunião que resultará nas discussões de sempre sobre a saída imediata ou permanência de Assad, sua participação em um novo governo, etc. Enquanto isso, é bom lembrar que "oficialmente" o número de mortos já ultrapassa os 80 mil (para o SHRW estamos na casa dos 94 mil). E impasses nas negociações só irão gerar mais e mais mortos.

Outra consequência imediata da vitória de Assad com o apoio do Hezbollah é uma tendência ao aumento no número de combatentes estrangeiros pelo FSA (muitos deles jihadistas). É importante lembrar que o clérigo sunita do Qatar e pró-Irmandade Muçulmana, Sheikh Youssef Qaradawi, convocou todos os sunitas a lutarem contra Assad e contra o "Partido do Satã" (é assim que ele chama o Hezbollah, cujo nome significa "Partido de Allah").

*Com o passar do tempo e o aumento nas dificuldades para os rebeldes, a oposição fica cada vez mais dividada também no campo ideológico. Até o momento aqueles que, para os insurgentes, estão apresentando resultados são os extremistas islâmicos. Prova disso é o Jabaht Al-Nusra. Ademais, a Irmande Muçulmana também cresce exponencialmente dentro da oposição. Logo que Ghassan Hitto foi eleito PM interino da Coalizão Nacional Síria, o clérigo Moaz Al-Khatib (figura muito respeitada no Ocidente) renunciou.

domingo, 5 de maio de 2013

Dissuadir é preciso

Montanhas Quasyon.

Atualização

Na noite de sábado (início da madrugada de domingo em Damasco) fortes explosões foram ouvidas na capital síria. Explosões estas que, segundo informações preliminares, tinham como alvos depósitos de armas do exército de Bashar Al-Assad. Um pouco antes, na sexta-feira (4), a imprensa internacional disse que Israel atacou outro carregamento de armas que iria parar nas mãos do Hezbollah.

Antes de mais nada, vamos esclarecer esta situação. O primeiro ataque visou destruir uma carga de mísseis Fateh 110 de fabricação iraniana que estavam sendo transportados para o Líbano. Vale lembrar que em janeiro o mesmo aconteceu. E, além do carregamento, o "centro de pesquisa militar" (nome bonito para depósito de armas) de Jamraya, nos arredores de Damasco, também foi alvo. Apesar de não existir confirmação oficial, atribuiu-se o ataque a Israel.

No entanto, as explosões de domingo tiveram um significado muito maior. Elas atingiram o coração do regime de Assad. Tão logo ocorreram já foram atribuídas pelo regime a Israel, tendo em vista que populares afirmaram (segundo a Al-Jazeera) ter visto um avião nos arredores da capital síria. Ora, até onde sabemos os rebeldes ainda não possuem caças e nem capacidade para realizar um ataque assim. Curiosamente um dos alvos foi mais uma vez o "centro" de Jamraya. Sinal de que o trabalho de janeiro não foi bem feito. Outra explosão aconteceu nas montanhas de Quasyon, reduto militar de Assad na capital.

Como consequência do ataque os rebeldes rapidamente ganharam muitas posições em Damasco e relata-se que uma reunião de urgência foi organizada pelo regime. Segundo fontes independentes, pessoas ligadas ao círculo íntimo do presidente deixaram a capital ainda na madrugada de domingo (o que me parece difícil de acreditar). Inicialmente foi prometida uma resposta oficial na TV síria às cinco da manhã, mas  não ocorreu nem sequer um pronunciamento.

O Ministro Omran Al-Zoabi apareceu para protestar dizendo que o ato significava uma clara associação de Israel com os terroristas e que era uma violação das leis internacionais (e matar mais de 70 mil pessoas não é uma violação, senhor ministro?). Tirando isso o silêncio por parte dos membros do regime seguiu.

Israel

Como mencionado acima, o ataque perpetrado em janeiro não foi confirmado oficialmente até hoje. Do mesmo modo as explosões de Damasco foram ligadas a Israel primeiramente pela mídia estatal e depois por outros veículos como a Reuters e a NBC. Algumas citaram, inclusive, fontes americanas e israelenses. De uma forma ou de outra, a confirmação oficial é o de menos.

O que precisamos analisar aqui é o contexto em que tais ataques ocorreram e principalmente sua razão. Israel queria simplesmente evitar que mísseis chegassem às mãos do Hezbollah? Este sem dúvida é um bom motivo, mas não o único. Acredita-se que o grupo terrorista libanês não tenha tanto acesso aos Fateh 110, que são mais modernos (pode ser que exista até uma quarta geração deles recém-fabricada no Irã), como tem aos Scud. E isso, por si só, já seria uma razão para Israel ter de se defender. 

No entanto, o armamento para o Hezbollah fica até em segundo plano quando analisamos tudo que envolve este ato de legítima defesa do Estado Israelense. Há alguns dias a imprensa divulgou declarações de um funcionário da Defesa de Israel onde ele dizia que o Irã acabara de ultrapassar a linha vermelha anunciada pelo premiê Benjamin Netanyahu. Neste ínterim aconteceu justamente a viagem de Chuck Hagel a Israel e, na sequência, o PM anunciou que Teerã ainda não chegou ao estágio mais perigoso. Curioso, não? Mas no meio disso tudo pudemos perceber que a viagem de Hagel serviu como um puxão de orelha ao governo israelense, o qual não poderia tomar qualquer atitude sem o apoio (leia-se autorização) dos americanos.

Esta bronca, num primeiro momento, deixou de Israel de mãos atadas. Mas havia ainda uma alternativa: a Síria. Não é mais segredo para ninguém que terroristas iranianos e do Hezbollah operam em solo sírio (na semana passada cerca de 30 militantes da facção libanesa foram mortos lutando por Assad). Ou seja, um pequeno aviso mostraria para aqueles que tanto odeiam os israelenses que estes estão dispostos a se defender sem precedentes. E isso dá certo? Seguramente! Nas palavras de um especialista, o Brig. General Zvika Fogel, "24 horas após o ataque na Síria, pelo menos de acordo com as fontes estrangeiras, Teerã, Damasco e o Hezbollah estão ocupados com controle de danos, verificando se há vazamento de informações e, principalmente, frustrados por não poderem retaliar".

O artigo do senhor Fogel é o mais esclarecedor sobre o tema. Se Israel não pode atacar o Irã, que mostre ao menos sua disposição para a defesa. Ademais, Fogel menciona ainda que a única maneira de lidar com regimes terroristas é por meio da dissuasão. Só assim seus líderes ficam acuados e pensam duas ou três vezes antes de responder.

A dissuasão é válida também quando se está sozinho. A omissão do governo de Barack Hussein Obama no que tange política externa -e sobretudo as relações com Israel- é algo assustador. Contudo, prefiro não entrar no tema agora. Para encerrar, acho pouco provável que jornais israelenses (exceto o Israel Hayom) tratem deste ato de defesa como deveriam, tendo em vista o ódio que sentem por Netanyahu. Mas uma coisa é certa: o compromisso com a proteção por parte do premiê é algo admirável e digno de aplausos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

"Cada resposta resulta em uma nova pergunta"

Yair Lapid e Naftali Bennett.

Este é um conhecido provérbio iídiche que pode ser usado para explicar a coalizão do governo de Israel capitaneada por Benjamin Netanyahu. Na passada semana, após 33 longos dias de negociação, as partes finalmente chegaram a um acordo. Além do Hatnuah, Yesh Atid e Habayit Hayehudi passaram a compor o governo que tem maioria no Knesset. Pese o fato de ser apenas o primeiro passo da caminhada, muitas dúvidas já pairam sobre as cabeças dos israelenses.

Primeiramente é importante ressaltar o por que de tamanha demora para compor o governo. Dois motivos nos saltam à vista: (1) Netanyahu foi displicente e, ao contrário do que se acreditava, não procurou Naftali Bennett prontamente. Seu alvo inicial, na verdade, foi Yair Lapid, que à esta altura tinha um plano bem arquitetado e, propositalmente, recusou. (2) Passaram-se os dias e Netayahu conseguiu apenas o apoio de Tzipi Livni (que no final das contas ficará com o Ministério da Justiça). Nisso, Lapid conseguiu colocar seu plano em prática e formou uma forte aliança com Naftali Bennett. Esta aliança exigia de Netanyahu ministérios-chave, caso aderissem à coalizão, e também a exclusão de partidos haredi, como por exemplo, o Shas (parceiro de longa data do Likud).

A coligação entre o segundo e o terceiro partidos mais votados das eleições merece ser vista com bastante cuidado. Na opinião de alguns ela significou uma "traição" de Bennett a seus eleitores, haja vista que ele seria uma alternativa ao Likud não se distanciando muito do mesmo. Pudemos ver, ainda durante a campanha, cartazes do Habayit Hayehudi contendo as fotos de Bennett e do premiê. Isso agravou muito a posição do ex-membro do Likud quando da associação com Lapid. No entanto, é preciso se levar em consideração a detachment de Netanyahu anteriormente mencionada.

Enquanto isso, quem ganhava ainda mais prestígio era Lapid. Com Bennett a seu lado ele exigia mais veementemente a cadeira das Relações Exteriores, ocupada por Avigdor Lieberman antes do escândalo de corrupção que ainda não foi julgado. Netanyahu, como esperado, protegia o cargo (coisa que conseguiu fazer até o fim).

Mas a posição quase irredutível de Yesh Atid e Habayit Hayehudi não foi o único problema. Muito se falou sobre o tema dos ultra-ortodoxos, que estão isentos do serviço militar e são subsidiados pelo governo para continuarem seus estudos das sagradas escrituras. Uma das bandeiras de Lapid e Bennett era justamente o fim de tal regalia. Por isso os dois não queriam fazer parte de qualquer coalizão que contivesse o Shas.

Ao cabo de tudo eles bateram o pé e atingiram seus objetivos. Segundo a imprensa israelense os últimos dias de negociação foram exaltados, com Bennett precisando ser "o adulto de plantão" para mediar o diálogo de Netanyahu e Lapid. Na quinta-feira (14) foi anunciada a nova coalizão(ainda que o acordo não estivesse sacramentado). Mesmo tendo parceiros que não são de seu agrado, o premiê se manterá à frente do governo. Lapid "se contentou" com o Ministério das Finanças, enquanto Bennett guiará o do Comércio. Sou dos que defendem o primeiro na cadeira de Relações Exteriores, mas Netanyahu não iria deixar de cumprir sua palavra dada a Lieberman.

As mudanças que veremos prontamente (digamos dentro de 45 dias, que é prazo mínimo estipulado para que as primeiras leis cheguem até o Knesset) envolverão setores religiosos (incluindo os ultra-ortodoxos), questões políticas, educação e uma pequena reforma ministerial. Falando sobre os haredim, eles deveriam se juntar ao serviço militar com a idade de 21 anos. Caso contrário, alguns benefícios seriam cortados, como por exemplo, a segurança social. Até o momento a possibilidade de processo para os que não se apresentarem de qualquer maneira não é cogitada.

No âmbito religioso, envolvendo as negociações com Bennett, ficou acordado que instituições religiosas teriam seu status regulamentado por lei e que receberiam financiamento especial. O Ministério de Serviços Religiosos, além de dirigido pelo Habayit Hayehudi, incluiria o controle de locais sagrados e do Rabinato Chefe (que estão atualmente nas mãos dos haredim). O governo, ademais, apresentará uma lei no Knesset para definir Israel claramente como um Estado judeu. Tal norma se enquadraria como "Lei Básica", sendo necessária uma maioria especial no Parlamento israelense para confirmar ou revogá-la (se assemelha às Emendas Constitucionais no Brasil no que tange o processo de aprovação).

Chegar a um consenso com Lapid também não foi tarefa das mais simples. Ele exigiu, além do Ministério das Finanças, encabeçar o comitê ministerial encarregado dos encargos sociais. Na área da educação, cujo ministro será Shai Piron (número 2 do Yesh Atid) a ideia é implantar, dentro de seis meses, os estudos fundamentais obrigatórios para absolutamente todos os estudantes, incluindo os haredim. Last but no least, no que tange a política, a nova lei aceitará que partidos que tenham conseguido no mínimo 4% dos votos tenham acesso a cadeiras no Knesset (até o momento o mínimo é de 2%) e reduzirá o número de ministérios de 22 para 18¹.

Estes, meus caros, foram apenas os primeiros problemas enfrentados pelos novos parceiros de governo. Assim que o mandato começar oficialmente mais divergências aparecerão (esperem também pelo retorno de Avigdor Lieberman). Uma destas, como coloca bem o Times of Israel, é a questão dos assentamentos na Cisjordânia: Livni quer acelerar as negociações de paz com os palestinos enquanto Uri Ariel, Ministro da Habitação, é um defensor da expansão dos assentamentos; a aposta do Yesh Atid é que acabar com o governo tendo responsabilidades para com os palestinos, dando-lhes autonomia, enquanto Bennett pretende anexar a maior parte da Cisjordânia².

Por fim, o Ministério da Defesa ficará a cargo de Moshe Ya'alon, ex-chefe do Estado-Maior israelense. Ya'alon, de 62 anos, tem uma longa a prestigiosa carreira militar. Depois da guerra dom Yom Kippur, onde esteve entre os primeiros a atravessar o Canal de Suez, permaneceu no IDF tornando-se mais tarde chefe da unidade de elite Sayeret Matkal. Foi um dos maiores críticos da retirada unilateral da Faixa de Gaza em 2005 (quando Ariel Sharon era primeiro-ministro). Se juntou ao Likud em 2008. Para alívio de Netanyahu, suas posições sobre o Irã são parecidas (ainda que aparentemente mais moderadas)³.

¹ Coalition guidelines to chance Israel's religious status quo. Israel Hayom
² Netanyahu and his partner-rivals. Times of Israel
³ "I'm determined to lead responsibly", new defense chief says. Israel Hayom

domingo, 10 de março de 2013

A apatia custará caro

Mais quanto tempo?

A Guerra Civil na Síria está caminhando para seu segundo aniversário e já deixou um saldo de mais de 70 mil mortes e cerca de um milhão de refugiados. Apesar dos últimos sinais de negociação, Bashar Al-Assad segue com seu massacre e só agora a oposição parece estar caminhando para a unidade, o que na prática não quer dizer muita coisa. Mas afinal de contas, qual o papel dos Estados Unidos no conflito?

Analisando friamente, nenhum. Mas as coisas não são assim. Na sua qualidade de grande potência os Estados Unidos não tem apenas o direito, mas o dever moral de intervir em favor do povo sírio. Logicamente muitos leitores acham que estou exagerando. No entanto, este é exatamente o pensamento dos rebeldes e dos civis que estão sendo mortos por Assad. Outros vão ainda mais além, culpando os Americanos pela permanência do ditador no poder. Nas palavras de Rachel Kleinfeld, "muitos na região acreditam que, ao não fazer nada, o país mais forte do mundo escolheu cinicamente o resultado final: Assad no poder e civis em sacos para cadáveres"¹.

Antes de abordar o resultado desta política de não-intervenção direta Americana, faz-se necessário compreender por quê o senhor Barack Obama quer tanto fugir do conflito. O primeiro motivo é o compreensível medo de se envolver novamente em uma guerra sem ter previsão de saída. Este argumento é sólido e contundente no que tange a entrada de tropas americanas em solo sírio. Mas e a questão das armas? Acredito que este seja o ponto mais delicado. Partindo do pressuposto de que cada revolução dentro da complexa Primavera Árabe tem suas peculiaridades, comparemos o caso sírio com o líbio: no país norte-africano os americanos ministraram armas aos rebeldes desde o início do conflito, haja vista que a queda de Muamar Kadafi era muito clara. No final das contas, estas armas caíram nas mãos de jihadistas, muitos dos quais invadiram o norte do Mali e chegaram até mesmo a implantar a sharía. Vale lembrar também que o embaixador Christopher Stevens foi morto após um ataque terrorista em Benghazi.

E aí vem o questionamento acerca da segunda razão pela qual governo do senhor Obama não forneceu armas aos rebeldes sírios desde a fase inicial do conflito. Isso aconteceu basicamente porque, dentre as revoltas, a da Síria era a mais desacreditada. O processo de oposição ao governo Assad foi inicialmente gradativo. Os primeiros a protestar eram uma minoria. A revolta foi se intensificando conforme Assad coibia violentamente os protestos mas, ainda assim, tendo a maioria a seu lado. O momento-chave da divisão e da perda de controle por parte de seu clã foi quando os sunitas, majoritariamente, pegaram em armas e aí foi decretada oficialmente uma Guerra Civil. Neste meio tempo as mortes já passavam de 20 mil. Uma violenta guerra visando o controle do país era mais do que clara. Só a CIA não conseguia (ou não queria) enxergar.

Quando o genral Martin Dempsey juntamente com Leon Panetta, Hillary Clinton e o então chefe da CIA, David Petraeus, criaram um plano cujo objetivo era armar os rebeldes, o senhor Obama vetou. Agora o número de mortos, como mencionado na introdução, ultrapassa os 70 mil e as únicas esperanças recaem sobre os guerreiros jihadistas, que estão melhor armados e preparados. Em meu último podcast comentei sobre estes terroristas, com foco maior para o Jabaht Al-Nursa, que é o mais forte deles. Mas se a Síria, antes da revolução, era um verdadeiro exemplo de convivência de diferentes povos porque esta aproximação com os ideias dos extremistas islâmicos? Ainda que o leitor não acompanhe o conflito, os argumentos tecidos anteriormente já respondem com clareza tal pergunta.

Aproveitando-se justamente deste abandono internacional terroristas de outros países ofereceram apoio e armas, em troca "apenas" de propagarem suas ideias radicais do Alcorão. Como se não bastasse isso, alguns dos países "amigos" dos rebeldes financiam descaradamente o terrorismo. O melhor exemplo é a Arábia Saudita. Apoiar os jihadistas na Síria dá a Ryadh a oportunidade de enviar seus próprios radicais ao país, onde podem lutar e possivelmente morrer. Com um grande número de jovens desempregados, subempregados e marginalizados, a jihad na Síria oferece uma "válvula de escape" como no Iraque, na Chechênia, na Bósnia e no Afeganistão. Os relatórios indicam também que os jovens estão viajando de graça e recebendo um salário por seus serviços². Nem é preciso comentar os prejuízos que este momentâneo alívio causarão a Ryadh a médio/longo prazo. E este também não é o tema da análise.

Passemos finalmente aos comentários sobre o custo da não-intervenção Americana. De uma forma simplista e concisa ela só aumentará o ódio para com os Estados Unidos. Há pessoas por aí, me refiro aos anti-americanos de plantão, que fomentam este ódio devido aos EUA se meterem naquilo que não os interessa como por exemplo, ainda na visão deles, conflitos externos. Pelo visto o senhor Barack Obama pensa a mesma coisa. Para o professor Rami Khouri, "isso soa como uma política razoável mas, na verdade, é um fracasso total. Na verdade, traz o resultado que Washington diz querer evitar -a ascensão, ou mesmo o domínio, destes grupos islâmicos que odeiam os EUA. O governo americano fala corajosamente em derrubar Assad mas pouco faz para consegui-lo. Enquanto isso militantes islâmicos têm armas e vão acumulando vitórias passando, portanto, a ganhar a confiança das pessoas comuns de todo o país".

Ainda que o cenário pareça cada vez mais nebuloso daqui para frente, a posição irredutível de Washington permanece. Na semana passada o novo Secretário de Estado, John Kerry, anunciou a doação de US$ 60 milhões para ajuda humanitária, o que não suprirá todas as carências -físicas e militares- do povo sírio.

¹ The case for arming sirian rebels. Rachel Kleinfeld. Carnegie Endowment. http://carnegieendowment.org/2013/02/24/russia-s-foreign-and-security-policy-update/fktt

² The consequences of intervening in Syria. Scott Stewart. Stratfor. http://www.stratfor.com/weekly/consequences-intervening-syria?utm_source=freelist-f&utm_medium=email&utm_campaign=20130131&utm_term=sweekly&utm_content=readmore&elq=6e39f05dfde94ca489ed89b52f6e10a6

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Há um futuro?

Yair Lapid.

No dia 7 de janeiro falei sobre os muitos partidos que disputariam as eleições parlamentares israelenses e as possíveis coalizões capitaneadas por Netanyanu. Nesta semana o povo foi às urnas e deu, como esperado a vitória ao Likud-Beytenu. No entanto, o sabor desta vitória foi um tanto amargo, haja vista que o partido ficou com 31 assentos no Knesset (perdeu 11).

A verdade é que o grande vencedor das eleições foi o centrista Yesh Atid, partido do ex-âncora e jornalista Yair Lapid. O partido, que em português seria traduzido como "há um futuro", conseguiu nada menos do que 19 cadeiras, número muito acima do esperado (as pesquisas indicavam 11 ou 12 no máximo). E com 11 ficou justamente o Habayt Hayehudi, partido ultranacionalista liderado por Naftali Bennett, ex-membro do Likud que deixou a legenda por problemas com Netanyahu (e com sua esposa Sarah). Também com 11 ficou o haredim sefardita Shas, velho parceiro do premiê. O Trabalho, de Shelly Yachimovich, alcançou o número de 15 cadeiras e novamente deve ficar à frente da oposição.

Muitos analistas dizem por aí que Israel "deu uma guinada perigosa para a direita". Eu discordo. E acredito que o número de assentos conquistados pelo Yesh Atid prova isso. Mas então porque estão falando desta migração para a direita? Tudo começou da fusão do Likud com o Yisrael Beytenu de Avigdor Lieberman. Esta era uma estratégia de Netanyahu que visava justamente polarizar a política israelense. Ele queria basicamente o seguinte: seu bloco representava uma defesa forte em tempos turbulentos enquanto o outro se mostraria fraco para proteger o país. Isso, em tempos de Primavera Árabe e com a constante ameaça do Irã, poderia fazer -e fez- a diferença.

Não obstante, Netanyahu procurou se aproximar ainda mais dos haredim pela questão do serviço militar. Para quem não sabe, em Israel muitos judeus ultraortodoxos não trabalham e estão isentos do serviço militar (que no país é obrigatório) para se dedicarem inteiramente aos estudos sagrados, o que gera muita polêmica. Partidos como o Shas representam os ultraortodoxos e, se o chanceler os deixasse escapar, poderiam ir para a oposição.

Esta foi, digamos, uma estratégia de campanha. Talvez mais do que de governo. Temos de convir que Benjamin Netanyahu -apelidado pela Time de "Rei Bibi"- não é o governante mais simpático do mundo. E realmente não é. Mas ele também não é um político de extrema-direita como dizem por aí. O que aconteceu foi que, com a mencionada estratégia de campanha, a legenda Likud-Beytenu se tornou mais conservadora e espantou alguns eleitores moderados. O plano de Arthur Finkelstein, conhecido estrategista americano, era que o partido tivesse mais ganhos do que perdas. Ou seja, ele não previu os 31 assentos no Knesset.

O resultado da "minuciosa" estratégia foi um só: o Likud-Beytenu migrou para a direita e os eleitores moderados para o centro. E este centro era representado pelo Yesh Atid. No final das contas Lieberman e Netanyahu precisarão fazer algumas concessões e se esforçarão ao máximo para ter Yair Lapid ao seu lado. David Weinberg, comentando sobre a fusão Likud-Beytenu no ano passado, disse que um dos objetivos era "minar" o centro, posto que o Kadima não vive seus melhores momentos (nestas eleições ficou com apenas 2 cadeiras).

De momento, Benjamin Netanyahu entrou em contato com todos os partidos para formar a sua -frágil- coalizão. O principal parceiro precisa mesmo ser Lapid. O problema é que uma das bandeiras do Yesh Atid era o serviço militar obrigatório também para os ultraortodoxos (além de questões sociais e econômicas, que pouco foram abordadas pelo premiê na campanha). A reação inicial do Shas foi até positiva -pelo menos segundo o Israel Hayom. O partido anunciou que aceitaria compor um governo juntamente com o Yesh Atid. Este, por sua vez, também precisará abrir mão de determinadas ideias ou, digamos, adiá-las. O mesmo Israel Hayom indicou que a determinação de incluir os ultraortodoxos no serviço militar pode ser "prorrogada".

Tudo levar a crer que Yair Lapid quer o cargo de ministro das relações exteriores. O problema é que Avigdor Lieberman quer se manter nele. Cá entre nós, para Israel seria muito melhor ter Lapid na posição, mas não será nada fácil para o chanceler jogar o chefe do Yisrael Beytenu de lado. E ele não deve fazê-lo. Lapid, se quiser, precisará "se contentar" com o ministério das finanças.

Acreditem se quiser, mas será mais fácil para Bibi conseguir o apoio do Yesh Atid do que do Habayt Hayehudi. Como falei acima, Naftali Bennett abandonou o Likud por divergências com Netanyahu e, ainda que ele tenha deixado em aberto a possibilidade de apoiar o ex-chefe, as diferenças entre os dois podem atrapalhar (fala-se que a senhora Sarah Netanyahu não ficaria muito contente com a parceria. Papo de tabloide).

Mas e quanto à Palestina? Meus caros, nada deve mudar. Netanyahu não é o melhor negociador do mundo e Mahmoud Abbas tampouco. Portanto, veremos mais do mesmo. Outra coisa que não deve mudar é a instabilidade do governo. Uma unanimidade entre os especialistas (pró e anti-Bibi) é que novas eleições não tardarão muito a acontecer. Dadas as circunstâncias, não tem como discordar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Indiferença para Israel, maior moral para o Hamas e enfraquecimento do Fatah

Médicos palestinos comemoram o cessar-fogo.

Nesta quarta-feira (21) finalmente foi acordado um cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas. O acordo foi mediado pelo Egito e pelos Estados Unidos (Hillary Clinton viajou para o Oriente Médio nesta semana). O saldo foi de 167 mortos no total (sendo 162 palestinos), mesmice para o poder de dissuasão israelense e um fortalecimento do Hamas.

Assim como a operação Chumbo Fundido, comandada por Ehud Olmert, Pilar de Defesa não tinha como objetivo destruir o Hamas e ocupar a Faixa de Gaza, mas sim aumentar seu poder de dissuasão na região e reduzir consideravelmente, pelo menos por enquanto, o poder de fogo do grupo terrorista. Analisando os números, isso deu certo: foram mais de 1.500 ataques aéreos (sendo 19 em centros de comando superiores), 30 membros importantes dos grupos terroristas (considerando Hamas e Jihad Islâmica) mortos e centenas de lançadores de foguetes subterrâneos destruídos. Além disso, o sistema de defesa Iron Dome se mostrou extremamente eficaz, realizando 421 interceptações, o que corresponde a 84% do total de mísseis que penetraram Israel.

Mas se os números dizem uma coisa, por que algo tão distinto ocorre na prática? Como já foi mencionado aqui no IA, o Hamas ganhou um pouco mais de apoio após a Primavera Árabe e, querendo ou não, se fortaleceu consideravelmente nos últimos anos. O primeiro indício desta evolução foi justamente o alvo inicial da operação Pilar de Defesa, Ahmed Jabari. Ele não era um líder político, mas sim militar. Isso significa que Israel tinha plena consciência do perigo oferecido pelo grupo terrorista a seu território.

Ademais, muitos analistas acharam um tanto exagerada a importância que o governo de Jerusalém deu ao Hamas logo no início do conflito, falando diretamente ao grupo após ataques perpetrados por facções que podem ser consideradas como suas subordinadas dentro de Gaza. Mas a verdade é que Netanyahu foi correto em todas as suas atitudes, sobretudo esta, haja vista que a esfera de influências do Hamas realmente é bem maior do que a de quatro anos atrás.

Quando os boatos de cessar-fogo tiveram início, poucos poderiam imaginar que Israel aceitaria negociar com terroristas. Mas ao fim de tudo exigências foram atendidas. Destaque para a abertura das fronteiras para a circulação de bens e pessoas. Recordam-se que no último post comentei sobre uma possível abertura do terminal de Rafah? Pois então, o "palpite" de Ehud Yaari realmente estava certo e o Egito fez esta concessão aos palestinos. Ainda não se sabe até que ponto chegará esta abertura, mas já é um grande feito.

Quem não concordou muito com o cessar-fogo e suas condições foi a população israelense (além da oposição de Netanyahu, lógico). Segundo o Times of Israel 70% dos israelenses foram contra o acordo e apenas 24% se mostraram favoráveis. Ainda assim nada que, pelo menos por ora, abale as aspirações de reeleição do atual governo.

Ainda há opiniões um tanto controversas acerca do quão prejudicial foi o conflito para Israel. A unanimidade só gira em torno do significativo enfraquecimento da Autoridade Palestina frente ao Hamas. Para os palestinos, a forma como o Hamas resistiu (se é que o fato de se esconder covardemente atrás de civis pode se chamar resistência), foi quase heroica. A facção da bandeira verde ganhou total apoio da Cisjordânia, que se mostrou demasiadamente cansada com as promessas de Mahmoud Abbas e, principalmente, com a ocupação transfronteiriça ilegal de Israel. Ramallah ficou quase deserta nos últimos dias.

É importante que uma coisa fique bem clara: uma "derrota" do Fatah também pode ser prejudicial a Israel porque, a priori, o grupo é mais moderado e tem defendido um acordo de paz respeitando a fronteira de 1967. Como bem disse Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, Israel deveria buscar na AP um aliado para intensificar o projeto de paz e colocá-lo, por fim, em prática.

Haass, que foi enviado pelos EUA para o processo de paz na Irlanda do Norte, disse que Israel deveria buscar no Fatah "a sua Irlanda do Norte". E tal observação é muito precisa. O problema é que agora, decadente como está, a AP não mais parece uma solução tão viável -e confiável- para o povo palestino. Devemos ter medo se o Hamas passar efetivamente a ser considerado esta "solução".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Egito é a maior esperança de um cessar-fogo

Reunião dos ministros israelenses. Times of Israel

Atualização do conflito

Estamos caminhando para o sétimo dia da operação israelense Pilar de Defesa na Faixa de Gaza e, segundo Al Jazeera, o número de mortos chega a 110 (o de feridos gira em torno de 450). Apesar de a imprensa árabe ter vinculado, até agora não há sinais claros de que um cessar-fogo seja iminente. No domingo negociadores israelenses e palestinos se reuniram no Cairo mas não chegaram a um acordo.

Desde o último post, a situação segue a mesma: Israel ataca pontos estratégicos do Hamas e a organização terrorista responde com foguetes de curto (Qassam) e longo (Farj5) alcance. O IDF informou que mais de 1.500 alvos foram atingidos. Nesta segunda (19) o grupo Jihad Islâmica confirmou a morte do líder das brigadas Al-Quds, seu braço armado, Ramez Harb.

Segundo o próprio IDF nos últimos cinco dias um total de 877 foguetes foram lançados contra Israel, dos quais o sistema anti-mísseis Iron Dome conseguiu abater 307. A verdade que o Iron Dome está salvando Israel. Vale lembrar que o sistema é um tanto quanto moderno e começou a ser instalado efetivamente só no ano passsado.

Infelizmente o número de civis mortos -principalmente crianças- segue chamando muito a atenção de todo o mundo. Al-Jazeera informou que no domingo uma família inteira foi morta. O que mais assusta é que, ainda assim, a população de Gaza segue apoiando o Hamas. Os terroristas, como bem disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, estão usando os civis como escudo para disparar contra outros civis. Mas cada foguete lançado contra Israel é, na verdade, um motivo de comemoração.

Também neste fim de semana o correspondente da Al-Jazeera em Gaza, Nadim Baba, publicou uma foto de um local, cheio de casas, de onde um foguete acabara de ser disparado. Há relatos também de que alguns dos mísseis lançados pelo Hamas caíram em Gaza, ferindo pessoas.

Khaled Mashaal (E), líder do Hamas, e Morsi (D).
As dificuldades no cessar-fogo

Com a ascensão de regimes islâmicos na Primavera Árabe, o Hamas está aproveitando para ver até onde consegue ir sendo protegido de outras nações islâmicas (está, inclusive, testando o Egito) e financiado por mais terroristas (Irã e Hezbollah).

O cessar-fogo foi impossível até agora, apesar dos inúmeros diálogos, devido às reivindicações de ambos os lados: o Hamas quer (1) todos os postos de fonteira em Gaza abertos 24 horas por dia, (2) um fim dos ataques israelenses e (3) manter seu armamento; Israel, por outro lado, quer (1) todos os grupos terroristas desarmados, (2) parada imediata no lançamento de foguetes e (3) um cessar-fogo de longo prazo garantido.

Morsi está deixando seu amor pelo Hamas de lado para servir como mediador

Como bem disse David Kirkpatrick, no passado o presidente egípcio Mohamed Morsi, então líder da Irmandade Muçulmana, defendeu avidamente a causa palestina, condenou Israel e se mostrou um grande apoiador do Hamas. Hoje, na qualidade de chefe de Estado, ele precisa cumprir o seu papel e deixar as crenças de lado (ou o próprio país, que tem negócios com Israel, vai sofrer ainda mais os efeitos da crise econômica interna).

Ao que parece ele está fazendo isso. O simples fato de se referir a Israel pelo nome e não como "o intruso sionista" ou, como prefere Ahmadinejad, "o câncer", já é alguma coisa. Tudo indica que ele está fazendo o possível para que o cessar-fogo aconteça (ao contrário de outros chefes de Estado, como Recep Tayyp Erdogan, que chamou os israelenses de terroristas).

Em seu mais recente artigo no Foreign Affairs, Ehud Yaari sugere uma boa alternativa para o fim do conflito (ou pelo menos um cessar-fogo): a abertura do terminal de Rafah, que fica na fronteira do Egito com Gaza. Reparem que uma das reivindicações do Hamas é a total abertura da fronteira, para facilitar não só o trânsito de pessoas, mas também de mercadorias.

Para Yaari, "isto poderia significar que Gaza iria receber seu combustível e outros produtos do Egito, enquanto Israel continuaria fornecendo eletricidade. Portos egípcios poderiam começar a lidar com o fluxo de mercadorias dentro e fora de Gaza, e Israel seria eliminado gradualmente das atividades comerciais que passam pelos seis terminais operantes em Gaza".

Veem? Esta, sem dúvida, é a melhor alternativa para pôr fim a este combate antes que ele se intensifique ainda mais. Tal medida seria boa para ambos, haja vista que o Egito posaria de herói para os palestinos e Israel poderia transferir um "problema" para Morsi (cá entre nós, o Hamas não é um problema para o Egito).


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Antes das eleições, hostilidades na Faixa de Gaza recomeçam

Funeral de Ahmed Jabari. AL-JAZEERA.

Nesta quarta-feira (14) a força aérea israelense empreendeu diversos ataques à Faixa de Gaza. Os alvos eram misseis de longo alcance do Hamas e o braço militar da organização, Ahmed Jabari. Em termos militares a operação foi bem-sucedida, haja vista que Jabari e os misseis foram abatidos, mas infelizmente vidas civis palestinas também foram ceifadas.

A nova missão do IDF prosseguiu na quinta-feira (15) e deixou um saldo de 22 mortos (sendo 19 palestinos). O próprio exército israelense confirmou que realizou 340 ataques contra alvos na Faixa de Gaza desde o início da operação Pilar de Defesa. Também nesta quinta veio a primeira resposta do Hamas: dois mísseis foram lançados em Tel-Aviv por volta das 7 horas, menos de uma hora depois de alguns terem atingido a cidade de Rishon Letzion.

No total 305 foguetes atingiram Israel e 130 foram interceptados pelo sistema de defesa. As três mortes do lado israelense aconteceram quando um foguete chegou à localidade de Kiryat Malachi. Relata-se que um bebê de 8 meses também ficou ferido. No lado palestino pelo menos duas crianças morreram só nesta quinta.

A operação Pilar de Defesa começou depois que mísseis palestinos foram disparados em direção ao sul de Israel. As hostilidades em si tiveram início quando um jipe com militares do IDF foi atacado no fim da passada semana. Aí é que as informações se desencontram porque o Times of Israel diz que o veículo estava no seu lado da fronteira, enquanto um colunista do YNet News relata o contrário. Ambos são jornais conservadores.

De qualquer forma, em resposta Israel disparou tiros de aviso (como fez com a Síria nas Colinas de Golã há poucos dias) e foi aí que o Hamas atacou de novo. Se a pressão sobre Netanyahu já era grande, ficou ainda maior.

Pronunciamento de Benjamin Netanyahu.
Perguntado sobre qual a diferença entre os mísseis que o Hamas tem hoje na Faixa de Gaza e os de meses atrás, o analista Thrall Nathan respondeu: "Desta vez não há centenas de milhares de israelenses em abrigos e seus filhos estão indo para a escola. Basicamente, todo o espectro político de Israel estava dizendo que isso era inaceitável e que algo precisava ser feito".

Faz todo o sentido. O país não poderia ficar acuado e sofrendo ataques terroristas. Ademais, é muito provável que o ministro da defesa, Ehud Barak, seja um dos grandes mentores da operação. Ele é conhecido por não ser muito favorável a um acordo de paz "qualquer" com os palestinos e não parece de seu feitio deixar barato este tipo de afronta.

Pelo menos por enquanto Benjamin Netanyahu e seu partido, o Likud, saíram fortalecidos para as eleições parlamentares de janeiro. Como já foi mencionado, a população pedia uma dura resposta e os setores políticos também, tanto que até mesmo membros da (cada vez mais enfraquecida) oposição se mostraram de acordo com a atitude do primeiro-ministro. Para ele isso é bom. Ainda mais agora que Ehud Olmert pode voltar ao cenário político do país.

O ex-premiê Olmert foi absolvido de acusações de corrupção recentemente e é a principal aposta centrista da oposição, capitaneada pelo Kadima de Shaul Mofaz, para vencer Netanyahu. Vale lembrar que, em 2008-2009, Olmert comandou a missão Lead Cost (que foi um pouco mais agressiva).

Em declaração oficial na quarta-feira, Benjamin Netanyahu disse o seguinte: "o Hamas escolheu aumentar seus ataques nos últimos dias. Nós não vamos aceitar ameaças de foguetes contra nossos cidadãos.

"Danificamos seriamente a capacidade do Hamas de lançar mísseis de longo alcance para o centro de Israel. Eles atacam nossos cidadãos de propósito, enquanto se escondem atrás de civis. Nós fazemos de tudo para não prejudicar estes civis".

Segundo Al-Jazeera, uma criança palestina de 2 anos morreu.
No entanto, Netanyahu também está ciente dos riscos que corre com esta operação. Analisando friamente, hoje a eleição está ganha, mas se a resposta do Hamas for mais dura do que o esperado, fatalmente obrigará o IDF  a fazer uma incursão terrestre mais prolongada, o que poderia provocar um maior número de baixas. 

Outro que tem papel-chave no conflito é o Egito. Segundo Caio Blinder, "uma opção para Mohamed Morsi é fazer vista grossa se militantes do Hamas lançarem ataques contra Israel a partir da península do Sinai. Mas se as coisas degringolarem, numa opção extrema, Morsi poderá até questionar o tratado de paz do Egito com Israel (aqui os militares terão voz). E este tratado é essencial para Israel".

Em suma, Israel precisava mesmo se defender e o fez. Atacou cirurgicamente as opções que o Hamas tinha de ameaçar o país e o deixou sem um de seus cérebros militares. De momento, é difícil acreditar que a organização terrorista tenha capacidade para, militarmente, responder a altura. Mas ainda é muito cedo para prever o desenrolar do conflito.

domingo, 21 de outubro de 2012

Atentado terrorista acaba com a paz que reinava em Beirute


Últimas homenagens a Hassan.
Na última sexa-feira (19) a cosmopolita Beirute, capital do Líbano, foi palco de algo que não se via desde 2008: um ataque terrorista. No distrito de Ashrafiyeh (bairro cristão) um carro-bomba explodiu, matou oito pessoas e deixou mais de 100 feridas. Dentre os mortos estava o chefe da inteligência libanesa, Wissam Al-Hassan, homem que tinha muitos inimigos poderosos.

Hassan era um sunita influente dentro do cenário libanês. Muito conhecido por investigar casos um tanto polêmicos. O primeiro deles talvez tenha sido um dos mais emblemáticos da história libanesa, o assassinato do premiê Rafik Hariri no ano de 2005. Há poucos anos o senhor Hassan, que investigou o caso desde o início, descobriu que agentes sírios e membros do grupo terrorista Hezbollah estavam envolvidos. Mas, misteriosamente, os indícios perderam força.

Ele também foi responsável por descobrir espiões israelenses em solo libanês juntamente com o ministro pró-sírio Michel Samaha. O curioso é que este mesmo Samaha também foi alvo de investigações de Hassan. O chefe da inteligência descobriu que o senhor Samaha planejou junto a Bashar Al-Assad, ditador sírio, uma série de atentados no Líbano. Um motivo para assassiná-lo, não acham?

Os suspeitos: Hezbollah e Síria

Ainda que sejam citados separadamente como suspeitos, o grupo terrorista caminha junto com o regime sírio*. Ambos, após o incidente, declararam que não tinham qualquer relação com ele e que repudiaram o andamento dos fatos apesar das evidentes rixas com Hassan.

A Síria teria todos os motivos para perpetrar tal ataque. Alguns analistas, inclusive, o compararam em magnitude ao que vitimou a cúpula do presidente sírio há poucos meses atrás. Além disso, seria mais uma estratégia de Assad para desviar o foco da matança que acontece em seu país (a oposição já contabiliza cerca de 35 mil mortos), como fez -e está fazendo- na vizinha Jordânia.

Para o jornalista Rami Khouri, "quem fez este ataque queria entregar uma mensagem de que eles podem alcançar qualquer pessoa, que podem atingir o mais alto nível da inteligência".

Ele concluiu dizendo que o atentado em Beirute é uma consequência lógica do que vem acontecendo na Síria nos últimos 19 meses: "tem havido um aumento constante da violência e agora vamos para a próxima etapa de atentados, assassinatos e talvez até confrontos".

As disputas pelo poder no Líbano

Logo após o atentado parte da população foi às ruas protestar contra o Hezbollah (que já mandou militantes defenderem os bairros xiitas) e pedir a saída do primeiro-ministro sunita Najib Mikati -muitos acreditam que ele está disposto a enfrentar o grupo terrorista xiita- que chegou a pedir demissão, mas foi impedido pelo presidente Michel Suleiman.

Ele também atendeu a um apelo externo, visto que muitos chefes de estado -inclusive o presidente francês François Hollande- pediram que ficasse para manter a estabilidade no governo libanês. Para se ter uma ideia, a situação do governo no país é a seguinte: o presidente Suleiman é cristão (maronita), o premiê é sunita e a maioria no Parlamento é xiita -representada pelo Hezbollah, que para quem não sabe é um partido político.

*em setembro o portal Al-Arabiya teve acesso a documentos secretos do governo sírio nos quais constavam provas de que militantes do Hezbollah foram enviados para a Síria logo no início do levante popular.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Um anjo no meio do inferno

#MalalaYousafzai

Assim pode ser descrita a menina paquistanesa Malala Yousafzai que foi vítima de um atentado perpetrado por terroristas do Talibã. Motivo? A garota de 14 anos defendia mais educação para as meninas e criticava o fundamentalismo do grupo terrorista.

O admirável ativismo de Malala já lhe rendeu prêmios no Paquistão e até mesmo reconhecimento internacional. Ela, que também fala inglês, teve um blog no site da BBC de 2007 a 2009. "Eu queria gritar e dizer ao mundo o que estávamos passando. Mas não foi possível. Os talibãs teriam matado meu pai, minha família inteira. Então eu escolhi escrever através de um pseudônimo e funcionou", disse Malala.

A jovem mora no Vale do Swat, região paquistanesa onde o Talibã ainda tem forte influência e, nos últimos anos, sentiu a necessidade de protestar por seu direito e pelo das outras meninas. Com o passar do tempo as normas em sua escola -onde inclusive seu pai é diretor- foram enrijecendo até o momento em que ele precisava cobrir até seu rosto, coisa que antes não era necessário.

Mais do que assustada Malala estava indignada com tudo o que se passava a seu redor e não tinha medo de se expressar. Aliás, seu único medo era por sua família. Agora pensem, uma menina de 14 anos com toda esta coragem e este senso de justiça é algo mais que admirável. Ela tinha tudo para se deixar levar pelas ameaças talibãs, mas preferiu enfrentar os terroristas cara à cara em um país onde as mulheres vergonhosamente desconhecem seus direitos básicos.

E justamente o fato de elas não terem a mínima consciência do que podem ou não fazer é bom para o Talibã. Existe uma frase que diz, "o controle do opressor está na mente do oprimido". Sendo assim, quanto mais ignorantes forem as pessoas, mais fácil é manipulá-las. Ou vocês acham que os militantes que atacaram Malala são inteligentes a ponto de ler e interpretar o Alcorão ou qualquer outro livro?

O ataque aconteceu quando ela e seus amigos voltavam da escola. Segundo depoimento de um amigo de Malala, "eles (talibãs) pararam nossa van escolar. Estavam de bicicleta. O homem mascarado manteve a arma apontada para nós enquanto o outro gritava por Malala". Viram só a que ponto chega a covardia destes animais? Eles atacaram crianças indefesas e, como se não bastasse isso, quando souberam que Malala estava viva prometeram novos ataques.

Na semana em que o Prêmio Nobel da Paz foi concedido à União Europeia, a garota Malala estava morrendo no Oriente Médio por lutar praticamente sozinha contra um grupo terrorista visando apenas direito à educação para meninas.

A história em si já é chocante e deixa qualquer um indignado. Mas é impossível conter as lágrimas ao ler o depoimento do jornalista paquistanês Owais Tohid, que por muitas vezes entrevistou Malala: "Na terça-feira quando minha filha me chamou, Malala estava sendo levada às pressas para o hospital. Quando falei com seu pai, ele disse que estava de pé a seu lado, segurando sua mão. 'Não se preocupe, papai. Ficarei bem e a vitória será nossa', disse ela antes de perder a consciência.

"Cheguei em casa com o coração apertado e com raiva. Minha filha tinha dormido sobre um livro intitulado 'Mulan', um conto popular que lemos juntos sobre uma heroica menina chinesa que lutou contra os mongóis e salvou sua aldeia. Eu a segurei com força, tentando não acordá-la, porque no dia seguinte ela tinha escola -o que era o sonho de Malala".

Repito, nem mesmo um coração de pedra consegue se segurar depois destas palavras e conhecendo a história de Malala. Isso só deixa ainda mais evidente que qualquer diálogo com terroristas é impossível. A única linguagem que eles entendem é a do stick. Portanto, repudio quaisquer críticas à política de drones adotada por Barack Obama.

Enquanto governos forem complacentes com este tipo de terroristas, mais meninas como Malala sofrerão até o fim de suas vidas sendo forçadas a se calarem. Já basta!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O grupamento armado sírio mais organizado está nas mãos de um líbio

Mahdi Al-Harati. Facebook.

Não, o título não está errado. Realmente é um líbio quem comanda o grupo denominado Liwa Al-Ummah (A Bandeira da Nação). Depois de enfatizar tanto a desorganização do Exército Sírio Livre e até mesmo as influências da organização terrorista Al-Qaeda, é muito importante mencionar que existe este bastião revolucionário organizado e sem quaisquer aspirações fanáticas (Sharía).

Quem nos trouxe esta história à tona foi a maravilhosa jornalista Mary Fitzgerald, em artigo publicado no Foreign Policy, onde inclusive entrevistou Mahdi Al-Harati, líbio com passaporte irlandês, que está à frente do grupo. Tal relato serve para desmistificar ao menos um pouco a oposição síria (principalmente por parte dos meios de comunicação orientais, que não fazem uma boa propaganda).

Mas o que teria motivado Al-Harati a lutar na Síria? Antes de responder a este questionamento falaremos sobre a questão de sua terra-natal, a Líbia. Não restam dúvidas de que o autoritarismo do coronel Muamar Kadafi culminou na sua decisão de pegar em armas. Mesmo antes de a revolução "estourar" ele já estava na Líbia. Antes disso vivia com sua esposa na Irlanda e lecionava árabe.

Ao verem seu sucesso e, sobretudo, a sua visão política libertadora não-baseada no fundamentalismo islâmico, influentes opositores sírios ofereceram condições para que ele pudesse formar um grupo armado. Em nenhum momento ele é considerado um mercenário, haja vista que o financiamento vai todo para o Liwa Al-Ummah. Os combatentes possuem não só armas, como também uniformes e inclusive um registro com foto e documentação que é feito por parentes do xeque Al-Harati na Irlanda.

O próprio chefe do grupo diz que há líbios -de sua confiança- no grupo, mas faz questão de relatar que 90% dos já 6 mil combatentes são sírios cansados da ditadura de Assad e também do caos da oposição.

"Havia uma sensação de crescente frustração entre a Síria e os thuwar (revolucionários) sobre sua falta de coordenação. Eles me perguntaram se eu poderia ajudá-los a treinar e se organizar, e eu concordei", afirmou Harati.

Ele também se refere a importância do treinamento para seus soldados, muitos dos quais nunca pegaram em armas: "Estamos aqui para treinar e ajudar os rebeldes da Síria -muitos são médicos, engenheiros e professores- usando a nossa experiência da revolução na Líbia".

A organização é tamanha que, segundo Mary Fitzgerald, aos combatentes também são passadas táticas de guerra. Cá entre nós, isso dificilmente acontece no ESL, até porque quase não há treinamento para eles. Muitos simplesmente passam para o lado dos rebeldes, precisam comprar uma Kalashnikov e atirar. E isso contra um exército preparado é quase uma sentença de morte.

O Liwa Al-Ummah tem até uma página no facebook, onde divulga seus ideais e até mesmo fotos dos combatentes. Há poucos dias, eles exibiram um vídeo no qual muitos rebeldes aderiam ao movimento. Parece que esta atitude tem crescido nos últimos meses. Para um grupo que foi criado neste ano, os números são muitos positivos.

Para aqueles que temem um radicalismo após a iminente queda de Bashar Al-Assad, Harati se posicionou a favor de uma democracia para todas as etnias presentes no país, incluindo os alauítas. O xeque também quer fazer parte do conselho de transição que deverá se formar como ocorreu na Líbia.

Outro objetivo do Liwa Al-Ummah é constituir, futuramente, um partido político na Síria. Todas estas ideias e ações soam como um alívio, já que o desespero nas declarações de pessoas que viram na Al-Qaeda sua única forma de lutar era cada vez mais comum.