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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Qusayr caiu e levou consigo a moral dos rebeldes

Após 17 longos dias de batalha  Qusayr sucumbiu às forças de Bashar Al-Assad e do Hezbollah na quarta-feira (5), naquela que foi uma das derrotas mais duras para os insurgentes sírios. A cidade, que estava há cerca de um ano nas mãos dos rebeldes, servia como rota de abastecimento para suas tropas com suprimentos vindos do Líbano.

Qusayr localiza-se ao norte da fronteira com o Líbano e está próxima ao Vale do Bekaa. Era uma das poucas cidades do centro-sul da Síria que ainda estava sob o jugo dos rebeldes. Assim sendo, a mobilidade de tropas vindas do norte não foi uma surpresa. Para Assad o comando da cidade seria vital por três grandes motivos: (a) cortar a principal rota de abastecimento rebelde provinda do Líbano; (b) "limpar" o corredor que liga Damasco a Tartus e Latakia, cidades do noroeste sírio que são redutos da seita alauíta do presidente e que albergam grande parte de seus apoiadores (vale lembrar também que em Tartus está uma instalação estratégica naval russa); e (c) propiciar uma válvula de escape para que suas tropas tenham acesso também a Homs e de lá para outras áreas ao norte.

Reparem no corredor formado à esquerda.

A vital contribuição do Hezbollah

No mês passado o líder do grupo terrorista libanês Hezbollah, Sheikh Sayyed Hassan Nasrallah, gravou uma mensagem na qual deixava extremamente claro que apoiaria seu parceiro Bashar Al-Assad até as últimas consequências prometendo o envio de "dezenas de milhares de combatentes". Sua justificativa foi que o fluxo de estrangeiros nas fileiras rebeldes aumentou muito nos últimos tempos. E quanto a isso ele tem razão. O Syrian Human Rights Watch estima que 2.219 estrangeiros foram mortos lutando em nome dos rebeldes.

No entanto, o envio de militantes à Síria serviu também como uma espécie de laboratório para os terroristas xiitas. De 2006 para cá suas técnicas de treinamento foram modificas enfocando sobretudo táticas de guerrilha. Isso porque, segundo a própria liderança do grupo, tais artimanhas poderiam ser eventualmente utilizadas contra o "agente sionista".

A estratégia de guerrilha difere um pouco do antigo modus operandi do Hezbollah: nos anos de 1990 a luta ocorreu (contra israelenses) principalmente em territórios rurais, onde os milicianos precisaram aprender a se camuflar em um ambiente difícil de floresta densa; em 2006 os confrontos passaram a acontecer dentro de vilas e cidades, o que propiciou um aperfeiçoamento nas táticas de guerrilha (táticas estas que foram aprimoradas no Irã).

Qusayr era acessível para o Hezbollah.

Inicialmente, segundo Nasrallah, a constante movimentação de milicianos do grupo terrorista na região era apenas para "proteger civis libaneses". Mas logo que se viu que o objetivo era bem maior do que esse. No exato momento em que o exército de Assad começou a perder terreno em Homs, tropas mobilizadas em Hermel e no Vale do Bekaa foram prontamente acionadas para o apoio. O mesmo ocorreu em Qusayr.

No entanto, nesta última pudemos ter uma real dimensão do envolvimento dos terroristas xiitas e do quanto suas táticas recém-aprimoradas podem oferecer grande perigo a Israel futuramente. Citando um miliciano de nome Hajj Abbas, o jornal Daily Star forneceu mais detalhes sobre a batalha. O principal deles foi a efetividade do Hezbollah no confronto: o grupo terrorista utilizou cerca de 1.200 combatentes de suas forças de elite e comandou os ataques do solo, enquanto o exército de Assad ofereceu apoio aéreo. Engenheiros também foram mobilizados para, nas palavras do terrorista ao Daily Star, livrá-los de "maiores dores de cabeça" que poderiam ser acarretadas pelas armadilhas dos rebeldes.

A queda de Qusayr era uma questão de tempo.

Os rebeldes que lá estavam receberam reforços das brigadas Farouq, Al-Haqq, Mughaweer, Wadi, dos batalhões Quassion  e Ayman. Sobre o Jabaht Al-Nusra, poucos foram os que apareceram. Aproveitando a "fama" do grupo a mídia quis exagerar um pouco. De qualquer forma nem todo este deslocamento bastou para  que a cidade fosse mantida sob o jugo rebelde. A resistência foi brava, sem dúvidas, e eu diria até milagrosa. Mas contra milicianos bem preparados e que ainda contavam com grande auxílio do exército regular, seria impossível permanecer no comando de Qusayr.

Resultados políticos da batalha de Qusayr

Se a fragmentação do suposto Exército Sírio Livre (FSA na sua sigla em inglês) já era um motivo para a divisão política*, agora tudo ficará ainda mais complicado. Ainda que tenha perdido muitas cidades ao norte, a vitória sobre Qusayr foi uma das mais significativas até agora nesta guerra civil para Bashar Al-Assad.

Estamos no aguardo de uma nova reunião que resultará nas discussões de sempre sobre a saída imediata ou permanência de Assad, sua participação em um novo governo, etc. Enquanto isso, é bom lembrar que "oficialmente" o número de mortos já ultrapassa os 80 mil (para o SHRW estamos na casa dos 94 mil). E impasses nas negociações só irão gerar mais e mais mortos.

Outra consequência imediata da vitória de Assad com o apoio do Hezbollah é uma tendência ao aumento no número de combatentes estrangeiros pelo FSA (muitos deles jihadistas). É importante lembrar que o clérigo sunita do Qatar e pró-Irmandade Muçulmana, Sheikh Youssef Qaradawi, convocou todos os sunitas a lutarem contra Assad e contra o "Partido do Satã" (é assim que ele chama o Hezbollah, cujo nome significa "Partido de Allah").

*Com o passar do tempo e o aumento nas dificuldades para os rebeldes, a oposição fica cada vez mais dividada também no campo ideológico. Até o momento aqueles que, para os insurgentes, estão apresentando resultados são os extremistas islâmicos. Prova disso é o Jabaht Al-Nusra. Ademais, a Irmande Muçulmana também cresce exponencialmente dentro da oposição. Logo que Ghassan Hitto foi eleito PM interino da Coalizão Nacional Síria, o clérigo Moaz Al-Khatib (figura muito respeitada no Ocidente) renunciou.

domingo, 5 de maio de 2013

Dissuadir é preciso

Montanhas Quasyon.

Atualização

Na noite de sábado (início da madrugada de domingo em Damasco) fortes explosões foram ouvidas na capital síria. Explosões estas que, segundo informações preliminares, tinham como alvos depósitos de armas do exército de Bashar Al-Assad. Um pouco antes, na sexta-feira (4), a imprensa internacional disse que Israel atacou outro carregamento de armas que iria parar nas mãos do Hezbollah.

Antes de mais nada, vamos esclarecer esta situação. O primeiro ataque visou destruir uma carga de mísseis Fateh 110 de fabricação iraniana que estavam sendo transportados para o Líbano. Vale lembrar que em janeiro o mesmo aconteceu. E, além do carregamento, o "centro de pesquisa militar" (nome bonito para depósito de armas) de Jamraya, nos arredores de Damasco, também foi alvo. Apesar de não existir confirmação oficial, atribuiu-se o ataque a Israel.

No entanto, as explosões de domingo tiveram um significado muito maior. Elas atingiram o coração do regime de Assad. Tão logo ocorreram já foram atribuídas pelo regime a Israel, tendo em vista que populares afirmaram (segundo a Al-Jazeera) ter visto um avião nos arredores da capital síria. Ora, até onde sabemos os rebeldes ainda não possuem caças e nem capacidade para realizar um ataque assim. Curiosamente um dos alvos foi mais uma vez o "centro" de Jamraya. Sinal de que o trabalho de janeiro não foi bem feito. Outra explosão aconteceu nas montanhas de Quasyon, reduto militar de Assad na capital.

Como consequência do ataque os rebeldes rapidamente ganharam muitas posições em Damasco e relata-se que uma reunião de urgência foi organizada pelo regime. Segundo fontes independentes, pessoas ligadas ao círculo íntimo do presidente deixaram a capital ainda na madrugada de domingo (o que me parece difícil de acreditar). Inicialmente foi prometida uma resposta oficial na TV síria às cinco da manhã, mas  não ocorreu nem sequer um pronunciamento.

O Ministro Omran Al-Zoabi apareceu para protestar dizendo que o ato significava uma clara associação de Israel com os terroristas e que era uma violação das leis internacionais (e matar mais de 70 mil pessoas não é uma violação, senhor ministro?). Tirando isso o silêncio por parte dos membros do regime seguiu.

Israel

Como mencionado acima, o ataque perpetrado em janeiro não foi confirmado oficialmente até hoje. Do mesmo modo as explosões de Damasco foram ligadas a Israel primeiramente pela mídia estatal e depois por outros veículos como a Reuters e a NBC. Algumas citaram, inclusive, fontes americanas e israelenses. De uma forma ou de outra, a confirmação oficial é o de menos.

O que precisamos analisar aqui é o contexto em que tais ataques ocorreram e principalmente sua razão. Israel queria simplesmente evitar que mísseis chegassem às mãos do Hezbollah? Este sem dúvida é um bom motivo, mas não o único. Acredita-se que o grupo terrorista libanês não tenha tanto acesso aos Fateh 110, que são mais modernos (pode ser que exista até uma quarta geração deles recém-fabricada no Irã), como tem aos Scud. E isso, por si só, já seria uma razão para Israel ter de se defender. 

No entanto, o armamento para o Hezbollah fica até em segundo plano quando analisamos tudo que envolve este ato de legítima defesa do Estado Israelense. Há alguns dias a imprensa divulgou declarações de um funcionário da Defesa de Israel onde ele dizia que o Irã acabara de ultrapassar a linha vermelha anunciada pelo premiê Benjamin Netanyahu. Neste ínterim aconteceu justamente a viagem de Chuck Hagel a Israel e, na sequência, o PM anunciou que Teerã ainda não chegou ao estágio mais perigoso. Curioso, não? Mas no meio disso tudo pudemos perceber que a viagem de Hagel serviu como um puxão de orelha ao governo israelense, o qual não poderia tomar qualquer atitude sem o apoio (leia-se autorização) dos americanos.

Esta bronca, num primeiro momento, deixou de Israel de mãos atadas. Mas havia ainda uma alternativa: a Síria. Não é mais segredo para ninguém que terroristas iranianos e do Hezbollah operam em solo sírio (na semana passada cerca de 30 militantes da facção libanesa foram mortos lutando por Assad). Ou seja, um pequeno aviso mostraria para aqueles que tanto odeiam os israelenses que estes estão dispostos a se defender sem precedentes. E isso dá certo? Seguramente! Nas palavras de um especialista, o Brig. General Zvika Fogel, "24 horas após o ataque na Síria, pelo menos de acordo com as fontes estrangeiras, Teerã, Damasco e o Hezbollah estão ocupados com controle de danos, verificando se há vazamento de informações e, principalmente, frustrados por não poderem retaliar".

O artigo do senhor Fogel é o mais esclarecedor sobre o tema. Se Israel não pode atacar o Irã, que mostre ao menos sua disposição para a defesa. Ademais, Fogel menciona ainda que a única maneira de lidar com regimes terroristas é por meio da dissuasão. Só assim seus líderes ficam acuados e pensam duas ou três vezes antes de responder.

A dissuasão é válida também quando se está sozinho. A omissão do governo de Barack Hussein Obama no que tange política externa -e sobretudo as relações com Israel- é algo assustador. Contudo, prefiro não entrar no tema agora. Para encerrar, acho pouco provável que jornais israelenses (exceto o Israel Hayom) tratem deste ato de defesa como deveriam, tendo em vista o ódio que sentem por Netanyahu. Mas uma coisa é certa: o compromisso com a proteção por parte do premiê é algo admirável e digno de aplausos.

domingo, 10 de março de 2013

A apatia custará caro

Mais quanto tempo?

A Guerra Civil na Síria está caminhando para seu segundo aniversário e já deixou um saldo de mais de 70 mil mortes e cerca de um milhão de refugiados. Apesar dos últimos sinais de negociação, Bashar Al-Assad segue com seu massacre e só agora a oposição parece estar caminhando para a unidade, o que na prática não quer dizer muita coisa. Mas afinal de contas, qual o papel dos Estados Unidos no conflito?

Analisando friamente, nenhum. Mas as coisas não são assim. Na sua qualidade de grande potência os Estados Unidos não tem apenas o direito, mas o dever moral de intervir em favor do povo sírio. Logicamente muitos leitores acham que estou exagerando. No entanto, este é exatamente o pensamento dos rebeldes e dos civis que estão sendo mortos por Assad. Outros vão ainda mais além, culpando os Americanos pela permanência do ditador no poder. Nas palavras de Rachel Kleinfeld, "muitos na região acreditam que, ao não fazer nada, o país mais forte do mundo escolheu cinicamente o resultado final: Assad no poder e civis em sacos para cadáveres"¹.

Antes de abordar o resultado desta política de não-intervenção direta Americana, faz-se necessário compreender por quê o senhor Barack Obama quer tanto fugir do conflito. O primeiro motivo é o compreensível medo de se envolver novamente em uma guerra sem ter previsão de saída. Este argumento é sólido e contundente no que tange a entrada de tropas americanas em solo sírio. Mas e a questão das armas? Acredito que este seja o ponto mais delicado. Partindo do pressuposto de que cada revolução dentro da complexa Primavera Árabe tem suas peculiaridades, comparemos o caso sírio com o líbio: no país norte-africano os americanos ministraram armas aos rebeldes desde o início do conflito, haja vista que a queda de Muamar Kadafi era muito clara. No final das contas, estas armas caíram nas mãos de jihadistas, muitos dos quais invadiram o norte do Mali e chegaram até mesmo a implantar a sharía. Vale lembrar também que o embaixador Christopher Stevens foi morto após um ataque terrorista em Benghazi.

E aí vem o questionamento acerca da segunda razão pela qual governo do senhor Obama não forneceu armas aos rebeldes sírios desde a fase inicial do conflito. Isso aconteceu basicamente porque, dentre as revoltas, a da Síria era a mais desacreditada. O processo de oposição ao governo Assad foi inicialmente gradativo. Os primeiros a protestar eram uma minoria. A revolta foi se intensificando conforme Assad coibia violentamente os protestos mas, ainda assim, tendo a maioria a seu lado. O momento-chave da divisão e da perda de controle por parte de seu clã foi quando os sunitas, majoritariamente, pegaram em armas e aí foi decretada oficialmente uma Guerra Civil. Neste meio tempo as mortes já passavam de 20 mil. Uma violenta guerra visando o controle do país era mais do que clara. Só a CIA não conseguia (ou não queria) enxergar.

Quando o genral Martin Dempsey juntamente com Leon Panetta, Hillary Clinton e o então chefe da CIA, David Petraeus, criaram um plano cujo objetivo era armar os rebeldes, o senhor Obama vetou. Agora o número de mortos, como mencionado na introdução, ultrapassa os 70 mil e as únicas esperanças recaem sobre os guerreiros jihadistas, que estão melhor armados e preparados. Em meu último podcast comentei sobre estes terroristas, com foco maior para o Jabaht Al-Nursa, que é o mais forte deles. Mas se a Síria, antes da revolução, era um verdadeiro exemplo de convivência de diferentes povos porque esta aproximação com os ideias dos extremistas islâmicos? Ainda que o leitor não acompanhe o conflito, os argumentos tecidos anteriormente já respondem com clareza tal pergunta.

Aproveitando-se justamente deste abandono internacional terroristas de outros países ofereceram apoio e armas, em troca "apenas" de propagarem suas ideias radicais do Alcorão. Como se não bastasse isso, alguns dos países "amigos" dos rebeldes financiam descaradamente o terrorismo. O melhor exemplo é a Arábia Saudita. Apoiar os jihadistas na Síria dá a Ryadh a oportunidade de enviar seus próprios radicais ao país, onde podem lutar e possivelmente morrer. Com um grande número de jovens desempregados, subempregados e marginalizados, a jihad na Síria oferece uma "válvula de escape" como no Iraque, na Chechênia, na Bósnia e no Afeganistão. Os relatórios indicam também que os jovens estão viajando de graça e recebendo um salário por seus serviços². Nem é preciso comentar os prejuízos que este momentâneo alívio causarão a Ryadh a médio/longo prazo. E este também não é o tema da análise.

Passemos finalmente aos comentários sobre o custo da não-intervenção Americana. De uma forma simplista e concisa ela só aumentará o ódio para com os Estados Unidos. Há pessoas por aí, me refiro aos anti-americanos de plantão, que fomentam este ódio devido aos EUA se meterem naquilo que não os interessa como por exemplo, ainda na visão deles, conflitos externos. Pelo visto o senhor Barack Obama pensa a mesma coisa. Para o professor Rami Khouri, "isso soa como uma política razoável mas, na verdade, é um fracasso total. Na verdade, traz o resultado que Washington diz querer evitar -a ascensão, ou mesmo o domínio, destes grupos islâmicos que odeiam os EUA. O governo americano fala corajosamente em derrubar Assad mas pouco faz para consegui-lo. Enquanto isso militantes islâmicos têm armas e vão acumulando vitórias passando, portanto, a ganhar a confiança das pessoas comuns de todo o país".

Ainda que o cenário pareça cada vez mais nebuloso daqui para frente, a posição irredutível de Washington permanece. Na semana passada o novo Secretário de Estado, John Kerry, anunciou a doação de US$ 60 milhões para ajuda humanitária, o que não suprirá todas as carências -físicas e militares- do povo sírio.

¹ The case for arming sirian rebels. Rachel Kleinfeld. Carnegie Endowment. http://carnegieendowment.org/2013/02/24/russia-s-foreign-and-security-policy-update/fktt

² The consequences of intervening in Syria. Scott Stewart. Stratfor. http://www.stratfor.com/weekly/consequences-intervening-syria?utm_source=freelist-f&utm_medium=email&utm_campaign=20130131&utm_term=sweekly&utm_content=readmore&elq=6e39f05dfde94ca489ed89b52f6e10a6

sábado, 22 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte III)

Liberdade!


Nos dois últimos textos (Parte I e Parte II) falei sobre a causa e as consequências iniciais da Primavera Árabe. Agora, para finalizar, abordarei mais alguns casos específicos e colocarei em pauta os problemas que serão enfrentados pelos governos.

Na Tunísia, secularistas venceram mas agora sofrem; na Síria o sectarismo é cada vez maior

A Tunísia é o berço da Primavera Árabe. Foi lá que, em 2010, o comerciante Mohamed Bouazizi colocou fogo em seu próprio corpo e "acendeu" a revolta (não foi um trocadilho proposital). Posteriormente à queda do presidente Ben Ali, o secularista Moncef Marzouki foi eleito. O problema é que agora ele enfrenta quase os mesmos problemas que Ben Ali.

A população está cansada de sofrer. Está cansada de passar fome e de ser subjugada. Marzouki não é um ditador, muito pelo contrário, mas ele não pode até agora atender os anseios da população. Racionalmente falando é impossível que ele consiga reverter o quadro econômico de um país tão castigado em menos de dois anos. Não há como. Mas também não há como explicar isso para alguém que está sem emprego (o desemprego aumentou na Tunísia) e precisa sustentar sua família.  Em recente visita a Sidi Bouzid (cidade de Bouazizi), o presidente Marzouki e seu primeiro-ministro foram recebidos a pedradas. E isso só abre um espaço cada vez maior para os conservadores islâmicos, que já conseguiram angariar um grande número de simpatizantes. 

Na Síria, o conflito ainda está longe de ser resolvido. O presidente Bashar Al-Assad e seu exército, predominantemente alauíta, ainda resistem aos ataques rebeldes. Estes, por sua vez, foram reconhecidos por potências internacionais, conquistaram territórios e bases significativas mas ainda não têm condições de depor Assad. Nisso, o sectarismo aumenta cada vez mais. Aqueles que estão ao lado de Assad -principalmente alauítas e cristãos- tendem a sofrer se o próximo governo for islâmico.

Alguns diziam que antes da guerra civil a Síria era um paraíso de diversidades. Outros eram mais realistas dizendo que o país era um caldeirão de água pronta para entrar em ebulição a qualquer momento. Quem controlava isso era a família Assad, mas pelo visto Bashar nunca teve o pulso de seu pai Hafez. Com a oposição fragilizada, o muçulmanos fundamentalistas tiveram espaço para a agir e mostrar a "mão amiga" para os necessitados. É difícil prever o que acontecerá na Síria nos próximos tempos.

O que esperar daqui para frente?

Até agora, vimos que os primeiros governos que se instauraram -secularistas ou islâmicos- estão tendo problemas para se manterem firmes graças a impaciência da população já cansada de sofrer. Isso vai dificultar um pouco as coisas a menos que medidas rápidas e satisfatórias sejam tomadas. Uma delas, no caso do Egito, seria o abrandamento da Irmandade. Em artigo recente para a Al-Jazeera o professor Mark LeVine disse algo muito correto: que a tendência de determinados partidos quando chegam no poder é o abrandamento. Isso não acontece por uma questão ideológica, mas sim pelo ímpeto de quererem ficar onde estão.

Voltando a falar sobre economia, todos estes países precisarão de ajuda externa para se reerguerem (a Síria principalmente). Sendo assim, empréstimos como os que o Egito realizou serão comuns. Contudo, para que o FMI libere este dinheiro os países precisam fazer um acordo de corte de gastos (assim como na União Europeia, com o memorando). Em outras palavras, precisam passar por um período de austeridade que vem tradicionalmente após mudanças tão radicais.

Agora vamos pensar um pouco pelo lado da população: será que vai ser fácil aceitar isso? A resposta é clara e muito óbvia, não. Muitas dessas pessoas já enfrentaram dificuldades ao longo de suas vidas e não querem passar pela mesma coisa. A diferença é que agora eles não hesitarão em protestar quando necessário e isso dificultará as coisas para os governos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte II)

Praça Tahrir.

No post anterior, citei um trecho do livro do professor Kissinger e exemplifiquei a situação da política egípcia nos últimos anos. Política esta que derrubou o ditador Hosni Mubarak visando ao menos tentar instaurar um regime democrático no país.

Vale relembrar algumas das palavras do professor Kissinger: "quando o governo é a principal, por vezes a única, expressão de identidade nacional, a oposição passa a ser considerada como traição. O profundo abismo social ou religioso de muitas das nações novas transforma o controle da autoridade política numa questão de vida e morte. Sempre que a obrigação política acompanha as linhas tribais, raciais ou religiosas, o autodomínio entra em colapso. Os conflitos internos assumem o caráter de guerra civil. A autoridade tradicional nas condições existentes vem a ser pessoal ou feudal".

Serão demasiadamente úteis para esta postagem pois, a partir delas, reflexionarei a atual situação política dos países que passaram pela Primavera Árabe (com foco no Egito outra vez) e os grupos que tiveram significativa ascensão. Ademais, o quadro econômico também será levado em questão, devido ao fato de estas nações precisarem passar por regimes de austeridade para uma possível recuperação.

A lógica ascensão da Irmandade Muçulmana

Com a queda dos regimes anteriores já era esperado que grupos islâmicos ganhassem força e tomassem o poder. A verdade é que eles nunca perderam força efetivamente, tanto que foram "cirurgicamente" marginalizados pelos governos. No Egito, Hosni Mubarak contrariou Anwar Al-Sadat e voltou a considerar a Irmandade Muçulmana criminosa. Esta medida nos dá uma boa noção da influência que as organizações religiosas conservadores têm nestes países.

Mas por que justamente a Irmandade Muçulmana ganhou tanta força? Bom, para respondermos a esta pergunta precisamos voltar ao ano de 1928 quando, no Egito,  o professor e imã Hassan Al-Banna decidiu criar uma organização pacífica e política cujos preceitos eram baseados no Alcorão e na Sunnah. Esta organização era Al-Ikhwan Al-Muslimun, a Irmandade Muçulmana. Durante anos Ikhwan prestou assistência aos pobres, ensinou analfabetos e ajudou a população, conquistando grande simpatia.

Com o passar do tempo sua influência foi se estendendo por outros países islâmicos e a política da não-violência passou a agradar. Inclusive, quando o grupo terrorista Hamas foi fundado, em 1987, um de seus idealizadores, o Sheik Ahmed Yassin, foi expulso da Irmandade haja vista que o grupo desde o início queria pegar em armas contra o estado de Israel.

Este aparente pacifismo é ótimo, mas não tira o caráter conservador da Irmandade. Para eles, o islã e a política caminham juntos. E a sharía deve estar presente em qualquer governo. Entenderam? Desde os seus primordes Ikhwan é um movimento político, por isso ascendeu tão rapidamente logo que os governos autoritários caíram. Sua grande organização lhes permitiu que oferecessem uma alternativa à carente população. E, além disso, não havia mais partidos que pudessem concorrer de igual para igual com os islamistas. Em outras palavras, a repressão conseguiu deter os secularistas mas não os conservadores religiosos.

Voltando ao Egito, a Irmandade está no poder mas a crise continua

Logo que Hosni Mubarak caiu e eleições presidenciais puderam ser realizadas no Egito, a Irmandade Muçulmana, através do Partido da Liberdade e Justiça, chegou à presidência com Mohamed Morsi. O engenheiro de formação que estudou nos EUA queria mostrar que se distanciaria um pouco do conservadorismo de seu partido e seria mais centralizador. No entanto, essa imagem que ele estava tentando passar durou pouco. Digamos que até seu decreto faraônico (comentei sobre ele aqui e aqui).

Com medo de uma nova ditadura, desta vez islâmica, a população foi às ruas protestar novamente. O problema é que não havia uma oposição forte para defrontar o presidente. Recordem-se que no trecho acima falei a respeito da desorganização dos secularistas. Pois é, isso de certa forma facilitou as coisas para a Irmandade que não tinha um rival político a altura. Os opositores mais significativos eram considerados felool (termo pejorativo utilizado para se referir aos remanescentes da era Mubarak) e marginalizados pela Irmandade, exatamente da mesma forma que descreveu o professor Kissinger no trecho inicialmente mencionado.

Para se ter uma ideia, a oposição só conseguiu certa organização poucos dias antes  do primeiro turno do plebiscito que visaria aprovar ou não a nova Constituição. A "unificação" se deu com a criação da Frente de Salvação Nacional, que tentou englobar -sob a liderança de Ahmed Shafiq e Mohamed El-Baradei- todos aqueles que eram contra as decisões do presidente Mohamed Morsi e da Irmandade Muçulmana. Basicamente, a primeira reação da Irmandade foi classificar a todos como felool, não importando a qual vertente política pertenciam.

A tendência é que a Constituição baseada na sharia seja mesmo aprovada no Egito. Alguns veem isso como o primeiro passo para a democracia, mas é difícil acreditar que seja mesmo. Se qualquer artigo está submetido à lei islâmica, ele pode ser deturpado de forma conservadora. Quem mais sofre com isso? Principalmente os cristãos coptas (que formam 10% da população) e as mulheres.

No âmbito econômico, os dados também não são muito bons. A crise de 2011 para cá se intensificou muito e o turismo, uma das principais fontes de renda egípcia, foi significativamente prejudicado. O presidente Morsi já recebeu ajuda dos Estados Unidos mas precisa de mais. Recentemente negociou um empréstimo com o FMI. No entanto, o dinheiro só será liberado quando o país atingir certa estabilidade, isto é, quando sua Constituição for aprovada. A aprovação, em si, será o menor dos problemas para a Irmandade. O difícil mesmo será enfrentar a ira da oposição depois.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte I)

Mohamed Bouazizi, o estopim da Primavera Árabe.

Em seu livro "Política Externa Americana", publicado em 1969, o professor Henry Kissinger -assessor do presidente Richard Nixon para assuntos de segurança- assim descreveu a instabilidade política nas novas nações:

"Quase todas as nações novas sofrem de um mal-estar revolucionário: as revoluções vencem através da incidência de todos os rancores. A eliminação das estrutura existentes, porém, promove a dificuldade de estabelecer acordos políticos. Uma revolução vitoriosa deixa como legado um profundo desajuste. Nos países novos, contra todas as previsões revolucionárias, a tarefa construtiva surge menos fascinante e mais complexa do que a luta pela liberdade; a exaltação da busca pela independência não pode ser perpetuada. Mais cedo ou mais tarde, objetivos positivos devem substituir os rancores do antigo poder colonial como força motriz. Na ausência de forças sociais autônomas, este papel unificador deve ser interpretado pelo Estado.

A aceitação do papel por parte do Estado não produz estabilidade. Quando a coerência social é superficial, a luta pelo controle da autoridade é relativamente mais dura e amarga. Quando o governo é a principal, por vezes a única, expressão de identidade nacional, a oposição passa a ser considerada como traição. O profundo abismo social ou religioso de muitas das nações novas transforma o controle da autoridade política numa questão de vida e morte. Sempre que a obrigação política acompanha as linhas tribais, raciais ou religiosas, o autodomínio entra em colapso. Os conflitos internos assumem o caráter de guerra civil. A autoridade tradicional nas condições existentes vem a ser pessoal ou feudal. O problema está em torná-la 'legítima' -desenvolvendo uma noção de deveres políticos que dependam mais de normas legais do que de um poder coercitivo ou de lealdade pessoal.

Este processo durou séculos na Europa. Deve ser atingido em décadas pelas novas nações onde as condições prévias de sucesso são menos favoráveis do que em períodos equivalentes no continente europeu. Estas nações estão sujeitas a pressões externas; há uma compensação nas aventuras externas que é a de atrair a coesão doméstica. A falta de estruturas internas provoca as já tão marcantes instabilidades internacionais". 

O respeitabilíssimo professor Kissinger, neste contexto, referia-se principalmente aos processos de independência de países do Oriente Médio, da África Subsaariana e do Magreb Islâmico. Estas novas nações ainda passariam por um longo período de estabilização nos âmbitos social, político e econômico. Na verdade, ainda estão passando, haja vista que, após atingirem a independência, muitos destes países se submeteram a violentas e repressivas ditaduras. Alguns saíram do domínio colonial direto para ditaduras, outros ainda enfrentaram autocracias corruptas que os levaram a ditaduras.

Para entendermos o por que da Primavera Árabe, é necessário que tenhamos em mente os acontecimentos históricos que culminaram nas revoltas contra os Estados. Todas as nações revoltosas protagonistas são exemplos clássicos da situação descrita no parágrafo anterior. Assim sendo, nos vale tomar e dissecar o contexto egípcio.

De Muhammad Ali a Hosni Mubarak

Basicamente o Egito foi dominado desde 1805 até o início da década de 1950 pela dinastia Muhammad Ali. Esta iniciou-se com Muhammad Ali Pasha, comandante albanês do Império Otomano que seria encarregado de forçar a retirada das tropas francesas da região. Após fazê-lo, decidiu ficar a formar para si um protetorado que, com o tempo, tornou-se mais próspero economicamente que o próprio Império Otomano, abrangendo também o Sudão. Em meados de 1880 deu-se o domínio britânico, mas a dinastia Muhammad Ali seguiu no poder, sem qualquer oposição ao subjugo da Grã-Bretanha.

A situação só mudou de verdade na Revolução de 1952, quando uma comissão militar forçou o rei Farouk I a abdicar em favor de seu filho, o jovem Ahmed-Fuad, denominado Fuad II que então tinha menos de 1 ano de idade. Esta estratégia dos militares serviu para apaziguar os temerosos britânicos e dar-lhes tempo para que pudessem se estabelecer no governo. Em 1953 o moderado general Mohamed Naguib, um dos idealizadores da revolução, foi empossado presidente, primeiro-ministro e líder do Conselho do Comando Revolucionário (CCR, que era o SCAF da época). Sua ideia era liderar um governo de transição que pudesse abrir caminho para uma presidência civil.

No entanto, outro militar forte e idealizador da revolução, o coronel Gamal Abdel Nasser, não estava contente com a perspectiva de que comunistas e conservadores religiosos - Irmandade Muçulmana- chegassem ao poder. A partir daí começou uma disputa entre Nasser e Naguib, sendo vencida pelo primeiro que instaurou uma ditadura nacionalista no país. Apesar do acordo de armas com a Checoslováquia e do financiamento soviético, Nasser nunca se declarou  pró-URSS. Seu lobby estava entre os não-alinhados e seu "carro-chefe" era o pan-arabismo. Dentro do Egito, ele perseguiu seus opositores (até mandou matar os que tentaram assassiná-lo pouco antes de ele assumir o poder) e deixou a democracia apenas para alguns discursos. Na prática, nada.

Nasser morreu em 1970 vítima de um infarto e deixou o poder nas mãos de seu vice-presidente e grande amigo, Anwar Al-Sadat. Muitos viam Sadat como um político fraco e manipulável, mas ele mostrou o contrário. Utilizou-se de inúmeras estratégias que o mantiveram no poder e procurou um distanciamento das políticas ditatoriais de seu antecessor: incentivou os movimentos islamistas tirando a Irmandade Muçulmana da clandestinidade; promoveu uma aproximação com o Ocidente; e, no âmbito econômico, instaurou a Infitah, que foi a abertura do Egito para investimentos externos e privados.

O que não agradou muito os islamistas e demais países árabes foi o processo de paz com Israel. Após a Guerra do Yom Kippur, em conjunto com Hafez Al-Assad (pai de Bashar Al-Assad), Sadat viu a necessidade de entrar em um acordo com os israelenses e começou a colocar a ideia em prática já no ano de 1974. Em 1979 foi assinado o "Tratado de paz egípcio-israelense" (após os acordos de Camp David), o que rendeu a Sadat e ao então premiê israelense, Menachem Begin, o prêmio Nobel da paz.

O preço que Sadat precisou pagar para promover um pouco de estabilidade na região foi alto. Em 1981, durante uma parada em carro aberto no Cairo, ele foi assassinado. O comandante do grupo executor, Khalid Islambouli, foi condenado a morte um ano depois. Para muitos, Hosni Mubarak teve participação ativa no golpe, não só por ter saído ileso como também pelas inúmeras "coincidências" que se deram no momento: a inatividade dos seguranças presidenciais e caças passando sobre o presidente no exato instante que os tiros foram disparados.

A sucessão de Sadat se deu da mesma forma que a de Nasser. Quem assumiu o poder foi o vice, ou seja, Hosni Mubarak. A história deste já conhecemos muito bem: governou o país de 1981 até 2011 promovendo uma ditadura muito semelhante a de Nasser, mas com uma política externa bastante limitada e fechada. Cuidou ao menos de manter de pé os acordos de paz feitos por seu antecessor com Israel. No âmbito interno procurou marginalizar outra vez a Irmandade Muçulmana e isolar as diferentes classes políticas do país, alegando "proteção".

domingo, 21 de outubro de 2012

Atentado terrorista acaba com a paz que reinava em Beirute


Últimas homenagens a Hassan.
Na última sexa-feira (19) a cosmopolita Beirute, capital do Líbano, foi palco de algo que não se via desde 2008: um ataque terrorista. No distrito de Ashrafiyeh (bairro cristão) um carro-bomba explodiu, matou oito pessoas e deixou mais de 100 feridas. Dentre os mortos estava o chefe da inteligência libanesa, Wissam Al-Hassan, homem que tinha muitos inimigos poderosos.

Hassan era um sunita influente dentro do cenário libanês. Muito conhecido por investigar casos um tanto polêmicos. O primeiro deles talvez tenha sido um dos mais emblemáticos da história libanesa, o assassinato do premiê Rafik Hariri no ano de 2005. Há poucos anos o senhor Hassan, que investigou o caso desde o início, descobriu que agentes sírios e membros do grupo terrorista Hezbollah estavam envolvidos. Mas, misteriosamente, os indícios perderam força.

Ele também foi responsável por descobrir espiões israelenses em solo libanês juntamente com o ministro pró-sírio Michel Samaha. O curioso é que este mesmo Samaha também foi alvo de investigações de Hassan. O chefe da inteligência descobriu que o senhor Samaha planejou junto a Bashar Al-Assad, ditador sírio, uma série de atentados no Líbano. Um motivo para assassiná-lo, não acham?

Os suspeitos: Hezbollah e Síria

Ainda que sejam citados separadamente como suspeitos, o grupo terrorista caminha junto com o regime sírio*. Ambos, após o incidente, declararam que não tinham qualquer relação com ele e que repudiaram o andamento dos fatos apesar das evidentes rixas com Hassan.

A Síria teria todos os motivos para perpetrar tal ataque. Alguns analistas, inclusive, o compararam em magnitude ao que vitimou a cúpula do presidente sírio há poucos meses atrás. Além disso, seria mais uma estratégia de Assad para desviar o foco da matança que acontece em seu país (a oposição já contabiliza cerca de 35 mil mortos), como fez -e está fazendo- na vizinha Jordânia.

Para o jornalista Rami Khouri, "quem fez este ataque queria entregar uma mensagem de que eles podem alcançar qualquer pessoa, que podem atingir o mais alto nível da inteligência".

Ele concluiu dizendo que o atentado em Beirute é uma consequência lógica do que vem acontecendo na Síria nos últimos 19 meses: "tem havido um aumento constante da violência e agora vamos para a próxima etapa de atentados, assassinatos e talvez até confrontos".

As disputas pelo poder no Líbano

Logo após o atentado parte da população foi às ruas protestar contra o Hezbollah (que já mandou militantes defenderem os bairros xiitas) e pedir a saída do primeiro-ministro sunita Najib Mikati -muitos acreditam que ele está disposto a enfrentar o grupo terrorista xiita- que chegou a pedir demissão, mas foi impedido pelo presidente Michel Suleiman.

Ele também atendeu a um apelo externo, visto que muitos chefes de estado -inclusive o presidente francês François Hollande- pediram que ficasse para manter a estabilidade no governo libanês. Para se ter uma ideia, a situação do governo no país é a seguinte: o presidente Suleiman é cristão (maronita), o premiê é sunita e a maioria no Parlamento é xiita -representada pelo Hezbollah, que para quem não sabe é um partido político.

*em setembro o portal Al-Arabiya teve acesso a documentos secretos do governo sírio nos quais constavam provas de que militantes do Hezbollah foram enviados para a Síria logo no início do levante popular.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O grupamento armado sírio mais organizado está nas mãos de um líbio

Mahdi Al-Harati. Facebook.

Não, o título não está errado. Realmente é um líbio quem comanda o grupo denominado Liwa Al-Ummah (A Bandeira da Nação). Depois de enfatizar tanto a desorganização do Exército Sírio Livre e até mesmo as influências da organização terrorista Al-Qaeda, é muito importante mencionar que existe este bastião revolucionário organizado e sem quaisquer aspirações fanáticas (Sharía).

Quem nos trouxe esta história à tona foi a maravilhosa jornalista Mary Fitzgerald, em artigo publicado no Foreign Policy, onde inclusive entrevistou Mahdi Al-Harati, líbio com passaporte irlandês, que está à frente do grupo. Tal relato serve para desmistificar ao menos um pouco a oposição síria (principalmente por parte dos meios de comunicação orientais, que não fazem uma boa propaganda).

Mas o que teria motivado Al-Harati a lutar na Síria? Antes de responder a este questionamento falaremos sobre a questão de sua terra-natal, a Líbia. Não restam dúvidas de que o autoritarismo do coronel Muamar Kadafi culminou na sua decisão de pegar em armas. Mesmo antes de a revolução "estourar" ele já estava na Líbia. Antes disso vivia com sua esposa na Irlanda e lecionava árabe.

Ao verem seu sucesso e, sobretudo, a sua visão política libertadora não-baseada no fundamentalismo islâmico, influentes opositores sírios ofereceram condições para que ele pudesse formar um grupo armado. Em nenhum momento ele é considerado um mercenário, haja vista que o financiamento vai todo para o Liwa Al-Ummah. Os combatentes possuem não só armas, como também uniformes e inclusive um registro com foto e documentação que é feito por parentes do xeque Al-Harati na Irlanda.

O próprio chefe do grupo diz que há líbios -de sua confiança- no grupo, mas faz questão de relatar que 90% dos já 6 mil combatentes são sírios cansados da ditadura de Assad e também do caos da oposição.

"Havia uma sensação de crescente frustração entre a Síria e os thuwar (revolucionários) sobre sua falta de coordenação. Eles me perguntaram se eu poderia ajudá-los a treinar e se organizar, e eu concordei", afirmou Harati.

Ele também se refere a importância do treinamento para seus soldados, muitos dos quais nunca pegaram em armas: "Estamos aqui para treinar e ajudar os rebeldes da Síria -muitos são médicos, engenheiros e professores- usando a nossa experiência da revolução na Líbia".

A organização é tamanha que, segundo Mary Fitzgerald, aos combatentes também são passadas táticas de guerra. Cá entre nós, isso dificilmente acontece no ESL, até porque quase não há treinamento para eles. Muitos simplesmente passam para o lado dos rebeldes, precisam comprar uma Kalashnikov e atirar. E isso contra um exército preparado é quase uma sentença de morte.

O Liwa Al-Ummah tem até uma página no facebook, onde divulga seus ideais e até mesmo fotos dos combatentes. Há poucos dias, eles exibiram um vídeo no qual muitos rebeldes aderiam ao movimento. Parece que esta atitude tem crescido nos últimos meses. Para um grupo que foi criado neste ano, os números são muitos positivos.

Para aqueles que temem um radicalismo após a iminente queda de Bashar Al-Assad, Harati se posicionou a favor de uma democracia para todas as etnias presentes no país, incluindo os alauítas. O xeque também quer fazer parte do conselho de transição que deverá se formar como ocorreu na Líbia.

Outro objetivo do Liwa Al-Ummah é constituir, futuramente, um partido político na Síria. Todas estas ideias e ações soam como um alívio, já que o desespero nas declarações de pessoas que viram na Al-Qaeda sua única forma de lutar era cada vez mais comum. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O regime de Assad está morrendo aos poucos

ESL em Aleppo. Foto de Ricardo Garcia Vilanova.

Não restam dúvidas de que mais dia menos dia o presidente sírio Bashar Al-Assad irá cair. Mas isso não acontecerá sem que ele lute até as últimas consequências. O que está acontecendo gradativamente, para seu desespero, é o número de baixas de militantes que estavam a seu lado. Segundo o El País, foram 40 deserções de pessoas que formavam o alto escalão do governo.

A mais recente delas foi nesta segunda-feira (06), quando o premiê Riad Farib Hijab anunciou que estava deixando o regime que chamou de "terrorista e assassino". Para piorar a situação, ele mostrou seu total apoio ao Exército Sírio Livre e disse que, em junho, quando foi nomeado primeiro ministro, aceitou o cargo unicamente porque Bashar Al-Assad o ameaçou de morte.

No entanto, este ainda não foi o golpe mais duro que a cúpula de Assad sofreu. Seguramente o atentado terrorista que matou, entre outros, o seu cunhado Bushra Asef Shawkat (um de seus homens de confiança e outro sanguinário) foi muito pior. Como mencionado aqui no Internationale Actuelle, tal atentado mostrou a fragilidade na segurança do presidente. Depois disso muitos chegaram a cogitar sua fuga para Latakia -local de origem dos alauítas- mas a agência estatal Sana desmentiu a informação.

Além disso, outro nome muito próximo de Assad que abandonou o regime foi o general  sunita Manaf Tlass. Ele era filho de Mustapha Tlass, que foi ministro da defesa e amigo de Hafez Al-Assad (pai de Bashar). Manaf era um general extremamente influente e sua saída foi um golpe para o presidente alauíta.

Reparem que até o momento os militares de baixas patentes nem sequer foram listados. Não há um número exato de deserções, mas centenas delas já aconteceram nestes 17 meses de intensos protestos e conflitos no país. O próprio Hijab levantou uma questão interessante: muitos -sejam políticos ou militares-  não se juntam aos opositores por medo. Mesmo o influente Tlass teve certo trabalho até conseguir se exilar e, antes disso, estava em prisão domiciliar.

Todos estes fatos indicam que pouco a pouco toda a cúpula que estava em volta do presidente está caindo. Ele está ficando cada vez mais acuado -tendo apenas o apoio efetivo do Hezbollah e do Irã- e ninguém sabe o que pode fazer em tais condições.

Por outro lado, podemos fazer uma leitura da oposição também: sua desorganização os impede de tomar o poder e instaurar uma democracia (se este for realmente seu desejo). Basicamente o ESL está muito fragmentado e mesmo que agora tenha armas (fornecidas por regimes como os da Arábia Saudita, Qatar e provavelmente Turquia) não tem condições de se firmar.

As duras batalhas que ocorrem simultaneamente em Aleppo (principal cidade econômica da Síria) e na capital Damasco deixa claro o caráter imprevisível do conflito. Há poucos dias os rebeldes foram expulsos de Damasco mas já voltaram a atacar a cidade inesperadamente. Em Aleppo não se sabe quem está vencendo. O único rumor mais forte é o de que o exército de Assad está preparando uma ofensiva para contra-atacar.

A pergunta que fica é a seguinte: quanto tempo mais Bashar Al-Assad vai resistir? Isso é impossível dizer. Inúmeras reviravoltas já aconteceram nesta Guerra Civil e provavelmente ainda acontecerão. Todo este despreparo rebelde pode indicar uma triste prorrogação no conflito.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Al-Qaeda tem influência cada vez maior sobre o ESL

Após ler um artigo bastante detalhado no Guardian sobre a influência da Al-Qaeda no Exército Sírio Livre e aproveitando a boa repercussão do primeiro vídeo, resolvi gravar outro falando sobre o assunto e alertando acerca do perigo desta "mão amiga" oferecida pelo grupo terrorista aos rebeldes opositores sírios.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Atentado contra cúpula de Assad deve provocar dura resposta

Como se noticiou hoje o governo de Bashar Al-Assad sofreu um duríssimo golpe, perdeu dois de seus principais articuladores: o general Daoud Rahja, ministro da defesa, e Asef Shawkat, vice-ministro e cunhado do presidente sírio.

Eu não poderia me calar diante de tal acontecimento. Entretanto, meu resfriado me impediu de escrever e em decorrência disso resolvi gravar um vídeo. Estava "amadurecendo" a ideia há algum tempo e finalmente coloquei em prática. Espero fazê-lo mais vezes.


domingo, 3 de junho de 2012

O inferno se chama Síria!

Assad se pronunciando no Parlamento. 

Há pouco mais de um ano, dentro da denominada Primavera Árabe, o povo sírio se revoltou contra o autoritarismo do clã Assad -que está no poder há 40 anos- e passou a protestar. Mas o presidente Bashar Al-Assad, como seu pai, não estava disposto a aceitar revoltosos e coibiu, com violência, os protestos. O problema é que não parou por aí, e a crise ainda se arrasta sem previsão de um final feliz. 

Inicialmente os protestos não surtiram efeito como em outros países porque a maioria da população estava com Assad, e a oposição se mostrou muito desorganizada. Com o tempo, mais pessoas foram aderindo às revoltas e a coisa foi tomando forma cada vez mais violenta. Estima-se que mais de 10 mil pessoas morreram nos confrontos, sendo 2600 delas ligadas às autoridades.

Desde que a violência aumentou no país o Conselho de Segurança da ONU alertou Assad das consequências mas, respaldado por seus grandes aliados China e Rússia, ele seguiu massacrando a sangue frio seus opositores. Tudo parecia acabado quando a cidade de Homs, conhecida internacionalmente como bastião rebelde, foi tomada pelo exército. Mas não foi o que aconteceu. O Exército Sírio Livre na verdade fez apenas uma retirada estratégica para voltar ao combate.

O massacre de Houla

No começo da semana passada surgiu a notícia de mais um massacre. Desta vez na cidade de Houla, onde 108 pessoas morreram (dentre elas 49 crianças com menos de 10 anos). Me arrepio todas as vezes que leio ou escrevo isso. Em resposta, muitos países expulsaram embaixadores sírios e chefes de Estado condenaram veementemente tal atitude de repressão por parte do governo. Até o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, se pronunciou em tom de desaprovação.

Mas há provas de que foram partidários de Assad? Sim! Além dos depoimentos das pessoas que sobreviveram, os próprios observadores da inútil Liga Árabe viram os estragos e, em seu relatório, afirmaram que tamanho estrago só poderia ter sido feito pelo exército sírio. Mas logicamente quem fez as cruéis execuções não foi exatamente o exército, e sim a milícia Shabiha, formada por muçulmanos alauitas (assim como Assad).

Sabem o que é pior? Neste domingo o senhor Assad se pronunciou e, em um discurso inflamado no Parlamento da capital Damasco, disse que o governo não foi responsável pelo massacre e culpou aqueles a quem chama de "terroristas".

O perigo da oposição

Boa parte da oposição síria é formada por pessoas simples que querem ter seus direitos garantidos e também por militares desertores que se recusaram a acatar as terríveis ordens de Assad e foram até torturados. Mas não se enganem, existem vários oportunistas aproveitando-se de tais circunstâncias. Dentre eles destacam-se muitíssimos terroristas que estão oferecendo apoio e só esperando a hora de cobrar este favor.

Estes são os mais perigosos de todos. Aí vem o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney (o qual admiro apesar da declaração), dizer que Obama não está fazendo nada e que uma boa alternativa seria armar a oposição. Primeiro, Obama realmente não está fazendo muita coisa porque sua maior preocupação -com razão- é o Irã. Segundo, será que ele não viu o que aconteceu no Afeganistão e no Iraque? Ele quer que a Síria tenha o mesmo fim? Lamentável.

Existe alguma possível solução?

Como disse o respeitabilíssimo professor Richard Falk, querendo ou não a diplomacia é o melhor resultado: "o que resta para preencher a lacuna entre o inaceitável e o impossível é a diplomacia, que até agora foi inútil, mas dadas as outras possibilidades é a única maneira de se reverter este caótico quadro na Síria".

Inúmeras pessoas estão criticando Kofi Annan e seu "plano de seis pontos", inicialmente aceito por Assad mas que acabou sendo esquecido. O armistício entre o governo e os rebeldes durou poucos dias. A rigor acabou com o massacre de Houla. O problema é que, com o apoio passional de Vladimir Putin, a ONU não pode passar por cima de seu poder de veto e mandar militares atacarem a Síria. Portanto, o que resta a fazer é esperar e torcer para que o inferno não fique ainda maior.

Agora a situação crítica também passou a se espalhar para zonas próximas do país. O Líbano, que ainda se recupera de uma violenta guerra civil, se tornou o principal receptor de refugiados sírios e neste fim de semana foi palco de um confronto entre sunitas e alauitas, dentro da cidade de Trípoli, que resultou em 8 mortos. Ademais, o líder do grupo terrorista Hamas (que é patrocinado por Assad), Hasan Nasrallah, exigiu a libertação de um xiita que foi sequestrado pelos rebeldes sírios (sunitas na sua maioria).