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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mohamed Morsi não é mais o presidente do Egito

Comemoração na Praça Tahrir.

Nesta quarta-feita (3) Mohamed Morsi foi oficialmente deposto. Os intensos protestos organizados pelos opositores resultaram em uma intervenção militar que tirou o (ex?) membro da Irmandade Muçulmana da chefia do poder executivo.

No passado dia 30 de junho Mohamed Morsi completou seu primeiro ano na presidência. Para que esta data realmente fosse marcante seus adversários organizaram intensos protestos que tinham apenas um fim: derrubar o presidente. Liderados pelo grupo Tamarod (rebelião), eles se mobilizaram no país todo e prometeram não descansar até que Morsi abandonasse o cargo.

A Irmandade Muçulmana, por sua vez, fez com que seus militantes se preparassem para defender a legitimidade do presidente. Desde sexta-feira eles acamparam em frente ao palácio presidencial esperando pelos opositores.

O exército disse que só iria interferir caso a situação se tornasse ainda mais caótica. E foi exatamente o que aconteceu. Na segunda-feira (1), através de um comunicado oficial, deram 48 horas para o presidente Mohamed Morsi apresentar uma resposta satisfatória ao povo. O engenheiro disse que seu poder estava em consonância com as forças armadas e que não toleraria qualquer golpe. Esta foi claramente uma resposta aos militares, e não aos manifestantes.

Nas ruas, pouco a pouco, os confrontos entre os pró e os anti-Morsi iam se intensificando. A sede da Irmandade Muçulmana em Alexandria foi atacada após um dos membros atirar contra os manifestantes. O Egito esteve (e para falar a verdade ainda está) à beira de uma guerra civil. Os relatos de violência (incluindo  46 agressões sexuais) e os 16 mortos deixam isso muito claro.

Mas como as coisas chegaram a este extremo?

Para entender as circunstâncias que levaram à queda de Morsi, devemos fazer uma retrospectiva até o cenário político egípcio logo que o ditador Hosni Mubarak foi deposto. Na época os militares também tiveram um papel vital, se encarregando das eleições parlamentares e da organização das presidenciais.

Como expliquei em minha análise da Primavera Árabe realizada no ano passado, a ascensão da Irmandade Muçulmana (da qual falei aqui e aqui) era mais do que lógica. Afinal de contas, não havia qualquer outro grupo organizado. No entanto, o fato de Ahmed Shafiq, ex-ministro das relações exteriores de Mubarak, ter ficado na segunda colocação revelou o receio que parte dos seculares sentiam da Irmandade e seu candidato.

A maioria dos observadores externos não sabia o que pensar da entidade. Para eles o fato de Morsi ter se afastado dela oficialmente (o que não corresponde à realidade) e algumas divergências iniciais com personalidades políticas muçulmanas mostravam que ele seria um presidente "moderado". A grande ajuda do governo Obama desde o início do mandato também moldou o pensamento das demais nações ocidentais.

Mediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas só abrilhantou a imagem de Morsi. Mas a "lua-de-mel" com o Ocidente durou pouco. A coisa começou a mudar de figura quando ele anunciou um decreto faraônico no qual submetia todas as decisões a seu poder sem revisão judicial até que uma nova Constituição fosse elaborada. Apesar do autoritarismo, não houve pressão externa e os protestos dentro do país foram facilmente controlados.

O autoritarismo da Irmandade e a desorganização da oposição

Passados alguns meses desde que assumiu o poder já era evidente o caráter autoritário de dr. Morsi e a influência da Irmandade no governo. Ainda que não tenha conseguido afastar a "ameaça" dos militares (Abdul Fattah Al-Sissi se tornou ministro da defesa) ele fez o que pôde (o general Hussein Tantawi foi aposentado compulsoriamente). Ademais, a disputa com o judiciário remanescente de Mubarak (por isso chamado de felul) era cada vez maior.

O único problema que Morsi não conseguia enfrentar era o da economia. Nem a ajuda do governo americano foi suficiente. O empréstimo do FMI não foi liberado porque as negociações emperraram. Enquanto isso o povo perecia e saía às ruas protestando contra o governo.

Não vendo outra saída possível, aqueles se intitulavam opositores formaram uma coalizão -- a Frente de Salvação Nacional -- capitaneada por Mohamed El-Baradei. A única coisa que os unia era a vontade de derrubar Morsi. Resultado: não houve qualquer discurso que pudesse ao menos propor uma alternativa para a população. Nada de propostas, apenas "Fora Morsi".

A gota d'água e a intervenção militar

Enquanto a oposição se concentrava em bater em Morsi e na Irmandade, a qualidade de vida dos egípcios ficava cada vez mais precária (o valor da libra caiu 25% em relação ao dólar desde o fim do governo Mubarak). Isso durou até o momento em que o povo resolveu dar um basta.

Durante todo o mês de junho os protestos se tornaram mais contundentes. A aliança de Morsi com o Al-Gama'a Al-Islamiya, um grupo assumidamente terrorista, só piorou as coisas. Na passada quarta-feira o presidente foi ridicularizado em público por seu discurso lamentável. O grupo Tamarod disse que juntou 22 milhões (!) de assinaturas pedindo sua saída. Os comícios organizados pela Irmandade foram insignificantes. 

Quando a situação política beirava o colapso os militares interviram. Após uma reunião com representantes da FSN, da Igreja Copta e muçulmanos, Abdul Fattah Al-Sissi, por volta de 21h00 horário local, anunciou as modificações e o plano político futuro para o Egito: (1) suspensão da Constituição; (2) eleições antecipadas serão realizadas; (3) a chefia do executivo ficará a cargo do presidente da Suprema Corte Constitucional (Adly Mansur); (4) será formado um governo de coalizão nacional; e (5) haverá uma comissão para analisar emendas à Constituição.

Em apoio à atitude dos militares e em tom conciliador falaram Mohamed El-Baradei, o papa copa Tawadros II e o grande imã de Al-Azhar, Sheikh Ahmed El-Tayyeb. Contudo, o que ainda preocupa é uma possível (e até provável) reação da Irmandade Muçulmana. O primeiro comunicado do grupo, que inclusive teve apoio do partido salafista Watan, dizia que este "golpe" não seria tolerado. E nem é preciso dizer que a Irmandade é uma organização extremamente forte e influente.

Concluindo: acho sim que a população tem motivos para comemorar (sobretudo os coptas) e vejo com bons olhos a intervenção militar. Só acho que este foi apenas o primeiro passo para os egípcios. Agora eles precisarão estar preparados pela resposta da Irmandade (seus partidários já cantaram "reação, reação, reação" depois do anúncio de El-Sissi) e para resistirem a este quadro econômico que ainda é demasiadamente complicado.

sábado, 27 de abril de 2013

Se não é a Irmandade, quem então persegue os coptas?

No passado dia 14 fiz uma análise sobre as raízes do sectarismo no Egito que veio a ser publicada também na "Coluna do leitor" no portal da Reaçonaria. Gostaria, inclusive, de agradecer aos que me deram espaço para publicar o texto. Hoje me deparei com o tweet de Alice Salles dizendo que havia um post em resposta ao meu.

O texto em questão é do jornalista José Antônio Lima, que trabalha na revista CartaCapital e cobriu parte dos protestos que culminaram na queda de Hosni Mubarak. A crítica de Lima foi  postada em seu blog "Oriente Médio em Foco".

Nos parágrafos iniciais Lima comenta o caso de Al-Khasous que usei para introduzir a questão da perseguição aos coptas e a fala de Dom Rafael. No entanto, ele dá a entender que generalizo a questão atribuindo a violência contra os cristãos a todos os muçulmanos. Se passei esta impressão, me retrato agora: não disse que todos os muçulmanos egípcios perseguem os coptas, mas afirmo que é uma quantia bastante considerável. Nunca é demais ressaltar que os cristãos atualmente são os que mais sofrem perseguição por causa de sua fé. Neste link segue uma lista de atentados contra os mais diversos grupos cristãos desde 2001.

Já que se faz necessário, vou citar apenas um absurdo caso e seus motivos ainda mais assustadores. Em 2011 os responsáveis pelo poder local de Edfu aprovaram a reforma da Igreja de São George, construída há quase um século durante a "Idade de Ouro Cristã". A Igreja apresentava, inclusive, riscos aos fiéis tendo em vista o estado da edificação. Foi só o projeto ser aprovado que começaram os protestos por parte dos muçulmanos. Dentre suas primeiras reivindicações estava a abolição de cruzes e sinos, porque elas "irritavam os muçulmanos e seus filhos". Em seguida foram mais além, dizendo que a cúpula da Igreja deveria ser demolida. Com a recusa do bispo, houve intensos protestos dos muçulmanos, que ameaçaram demolir a Igreja e construir uma mesquita em seu lugar. Como se não bastasse isso, os coptas foram proibidos de sair de suas casas até que a cúpula fosse removida.

O ápice do embate se deu em dezembro do mesmo ano quando 3 mil muçulmanos, após as orações de sexta na Igreja, incendiaram e demoliram a cúpula. Focos do incêndio se espalharam por casas próximas e ainda houve saques. Até mesmo o governador da vizinha Aswan concedeu uma entrevista a TV negando qualquer incêndio e dizendo "que os coptas cometeram um erro e foram punidos". Que erro seria esse? Provavelmente não ser muçulmano.

Para que tudo fique ainda mais claro, grandes intérpretes da Sharia -os ulemás- que servem de referência aos islamistas proferiram seus pareceres com respeito aos cristãos. Um deles foi Ibn Taymiyya, confirmando que "os ulemás das quatro escolas de Direito -Hanafi, Shafi'i, Maliki e Hanbali- concordaram que se o iman destrói todas as igrejas em terras tomadas pela força, como Egito, Sudão, Iraque, Síria...isso não seria injusto". Taymmiya acrescenta ainda que, se os cristãos resistirem, eles "perderão sua aliança, sua vida e seus bens". 

Mais casos podem ser encontrados no estudo "Death to Churches Under Islam: A Study of the Coptic Church", que conta as origens do sectarismo contra os coptas e cita inúmeras informações do famoso historiador muçulmano Taqi Al-Din Al-Maqrizi.

Ascensão da Irmandade e sua rede de contatos

Lima diz que atribuo apenas à Irmandade Muçulmana "um problema que é do Egito". Isso não é verdade, tanto que também citei as políticas de Gamal Abdel Nasser e Anwar Al-Sadat que foram, para dizer o mínimo, contraditórias. O que não se pode negar de forma alguma é a natureza fundamentalista da Irmandade que se engendrou, desde 1928 (ano de sua fundação como mencionei também em meu texto anterior) no seio da sociedade egípcia. Sempre é válido lembrar que foi Hassan Al-Banna quem disse: "o voto para as mulheres é a rebelião contra o Islã e a humanidade".

Dizer que o governo se mostra, "por enquanto, incompetente" para lidar com o problema dos coptas é um eufemismo. Há casos evidentes de incitação à violência contra os coptas por parte de membros da Irmandade Muçulmana. Atualizações a respeito podem ser conferidas no twitter do ativista político copta Dioscorus Boles. Vale a pena ler também a entrevista do Papa copta Tawadros II concedida a Reuters nesta semana.

Em se tratando das relações dos muçulmanos com a Alemanha Nazista, Lima me contraria dizendo que "meia palavra não basta". Pois bem. Passo a discorrer sobre o tema. Como já salientei, a Irmandade Muçulmana foi financiada com recursos vindos diretamente do regime Nazista. Mas por que este interesse nos fundamentalistas islâmicos? Usar a definição de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo" vem a ser ainda mais simplista ao abordar este tema.

Não nego que certos princípios em comum nortearam as relações de afinidades entre nazistas e muçulmanos. Mas não foi apenas isso. Em seu livro "A Mosque in Munich", o jornalista Ian Johnson traz mais detalhes sobre a ascensão da Irmandade, os quais comentarei aqui. Vamos por partes. Johnson começa dizendo que a aliança muçulmano-Nazista teve seu início com a repressão dos primeiros por parte do regime soviético. De olho no petróleo do Cáucaso e no apoio da oprimida comunidade muçulmana, Hitler viu uma oportunidade de ser o "salvador" e ofereceu seu apoio. Os laços se intensificaram ainda mais graças ao anti-semitismo enraizado nas duas partes.

Algo que Lima faz com muita precisão em seu texto é citar Hajj Amin Al-Husseini, o grande mufti de Jerusalém. Ele foi conhecido por ser uma figura proeminente do movimento islamista radical, dando impulso a inúmeras revoltas e mantendo estreitos laços com nomes de alto prestígio junto a Adolf Hitler (relata-se Adolf Eichman e Heinrich Himmler). Husseini foi ainda o responsável pela criação da divisão Handzar dentro da SS, composta por muçulmanos da Iugoslávia.

Como bem lembrado por Lima, "muitos palestinos serviram no exército britânico e centenas de milhares de árabes do Império Francês lutaram pela libertação da França". Quanto aos palestinos, ainda consegui números: foram cerca de 6 mil os que lutaram pelo exército britânico. Ademais, cerca de 26 mil voluntários muçulmanos e judeus serviram lado a lado pelos aliados. Tais informações jamais podem ser dispensadas.

Mas, concomitantemente a isso, Husseini via crescer cada vez mais seu poder em todo o Oriente Médio. Só na Palestina ele exterminou 11 clãs que faziam oposição a suas políticas e não viam com maus olhos a chegada de judeus. Ademais, o grande mufti teve vasta influência sobre a Irmandade Muçulmana ainda em seus primeiros estágios.

É normal que, em meio a isso, se faça uma pergunta: se a Irmandade foi próxima do regime Nazista, porque nenhum governo ocidental tentou coibi-la ou incentivar outros movimentos? Este questionamento, inclusive, foi um dos primeiros a brotar em minha mente tão logo iniciei os estudos a respeito do tema. Para respondê-lo, volto a citar o livro de Johnson. 

Segundo o autor, o governo americano viu nos movimentos políticos islamistas uma oportunidade para conter o avanço do comunismo (que seria o passo prévio a derrubada). Em primeiro lugar os EUA trabalharam com imigrantes muçulmanos ex-nazistas não-russos com sede na Alemanha. Posteriormente, vendo o sucesso de tal empreendimento, os muçulmanos também estiveram presentes no segundo passo de combate ao comunismo, envolvendo operações secretas, guerra econômica, sabotagem e propaganda.

Johnson escreve que o ano de 1953 foi fundamental para a Irmandade Muçulmana, quando, antes de uma conferência em Princeton, os líderes do movimento pediram uma audiência com ninguém menos do que o presidente Eisenhower. Para que isso pudesse ocorrer, logicamente, os dois lados "apagaram" quaisquer envolvimentos do então líder da Irmandade, Tariq Ramadan, com Husseini e Al-Banna. A reunião entre ambos era mesmo urgente e, principalmente, inevitável, tendo em vista que, neste período, a União Soviética estava revendo suas políticas com relação os muçulmanos, financiados algun imãs a seu favor. 

Ramadan foi, neste contexto, a voz que os EUA precisavam para combater o avanço do comunismo no Oriente Médio. Se esta política deu certo para os americanos não podemos afirmar, mas para a Irmandade sim. Com o dinheiro angariado através de seu proselitismo, Ramadan conseguiu financiar a construção de mesquitas e criou uma extensa rede de controle para a Irmandade, incluindo uma revista com função de propaganda, uma organização estudantil e a Liga Muçulmana Mundial. Em outras palavras, a militância muçulmana tomou grande corpo também no Ocidente.

Mas então quer dizer que a Irmandade não mudou?

Sim. Mas foi uma mudança "para inglês (ou americano não é mesmo, senhor Obama?) ver". E deu certo. Tanto que os Estados Unidos continuam financiando a organização mesmo com seu caráter sectário. Lima adverte que há divergentes facções dentro da Irmandade e chama atenção ainda para o fato de que a facção dita "mais conservadora" assumiu o controle do grupo, "afastando os mais moderados das decisões".

Concordo que há divergências dentro da Irmandade, mas acredito também que as convergências sejam bem maiores. Explico: antes de começarem a discutir entre si é necessário tomar e estabelecer o poder, juntamente com a Sharia. Só no final das contas, quando o objetivo maior for alcançado é que eles deverão parar para colocar suas divergências sobre uma balança.

Nunca podemos esquecer que Mohamed Morsi, presidente do Egito e membro da Irmandade, foi quem disse que "judeus são descendentes de porcos e macacos". Esta é a tolerância da entidade? É assim que um governo democrático lida com as diferenças?

Para finalizar meu longo texto, reitero que Lima utilizou a palavra "moderados" para se referir a membros da Irmandade que, segundo ele, foram afastados das decisões. Acho importante dizer que, em se tratando de Irmandade Muçulmana, não consigo imaginar alguma membro que seja realmente "moderado". Ora, o Dr Wagdi Ghoneim, personagem de grande influência no Conselho de Relações Islâmico-Americanas, já chegou a dizer que, caso houvesse oposição por parte dos coptas, eles "seriam varridos da face da terra".

domingo, 14 de abril de 2013

Raízes do sectarismo no Egito

Precisa de legenda?

Existe uma palavra no idioma russo chamada Pogrom. Ela se traduz, em linhas gerais, a algo como "destruir inteiramente". O vocábulo ganhou destaque internacional quando, entre 1881 e 1884, no sul da Rússia, os ataques contra a população judia se intensificaram (segundo consta foram até incentivados pela Okhrana). Um Pogrom é um ataque maciço e violento contra determinados grupos -geralmente religiosos- visando as pessoas e seus ambientes. Ataques como este vêm acontecendo no Egito há muito contra os cristãos coptas -que compõem 10% da população- mas não ganham grande destaque na mídia.

A mais recente escalada de violência se deu no início deste mês, quando quatro cristãos e um muçulmano morreram após confrontos na cidade de Al-Khasous. Os enfrentamentos ficaram mais intensos justamente no velório dos coptas, quando a Catedral de São Marcos foi atacada por vários manifestantes. Segundo fiéis cristãos, a polícia, ao invés de tentar apaziguar a situação, atirava gás lacrimogênio contra a Catedral. "A polícia está atirando gás em nós, eles estão tomando parte daqueles que nos atacam", relatou um jovem citado pelo Ahram (1).

Uma reunião foi realizada às pressas em Al-Khasous visando uma reconciliação entre muçulmanos e coptas. Estes últimos, representados pelo Conselho Consultivo da Organização Copta, fizeram fortes reivindicações e acusaram expressamente a polícia de tomar parte nos ataques. "O plano de luta sectária foi coroado pelas agressões por parte das forças de segurança na Catedral de São Marcos", rezava um trecho do comunicado. Ademais, exigiu-se uma retratação da posição tomada pelo Ministério do Interior dias antes, que condenava expressamente os cristãos pelo tumulto em Al-Khasous. Até o momento nada foi decidido (2).

Comprovando que ocorre justamente o contrário do proclamado pelo Ministério do Interior, o bispo Dom Rafael orientou seus fiéis a se manterem firmes: "Vocês só podem honrar os mártires ficando calmos e orando por eles" e ainda acrescentou que "esta ferida profunda me deixa com três mensagens. Uma para o céu...nós acreditamos na justiça divina...Cristo nos ensinou que ele vinga o sangue dos mártires e que eles não são esquecidos por Deus.

"Minha segunda mensagem é dirigida ao Egito: nós não vamos sair. Os governos não podem exercer seu poder através do derramamento de sangue. Minha última mensagem é dirigida aos coptas do Egito: nós não devemos abandonar nossa fé. O derramamento de sangue só nos deve fazer abraçá-la ainda mais!"

A segunda mensagem, que começa com "nós não vamos sair", sugere  o intuito dos ataques muçulmanos: a expulsão da população copta. Mas por que? Quando esta violência sectária começou? Quando muçulmanos e coptas chegaram ao Egito? Algum dos grupos têm mais direitos que o outro? Estas perguntas serão respondidas no próximo tópico.

O início das hostilidades

Em meu ensaio, cujo mote era a Primavera Árabe, intitulado "Os rumos da revolução" comentei sobre a partir de quando o Egito passou a ser dominado efetivamente por muçulmanos:

"Basicamente o Egito foi dominado desde 1805 até o início da década de 1950 pela dinastia Muhammad Ali. Esta iniciou-se com Muhammad Ali Pasha, comandante albanês do Império Otomano que seria encarregado de forçar a retirada das tropas francesas da região. Após fazê-lo, decidiu ficar a formar para si um protetorado que, com o tempo, tornou-se mais próspero economicamente que o próprio Império Otomano, abrangendo também o Sudão. Em meados de 1880 deu-se o domínio britânico, mas a dinastia Muhammad Ali seguiu no poder, sem qualquer oposição ao subjugo da Grã-Bretanha".

O excelente Egypt Independent (3) trouxe uma cronologia completa da violência sectária contra cristãos, enfatizando que ela se intensificou após o golpe militar que, em 1952, destituiu a monarquia. Antes disso, o episódio que ganhou maior destaque foi o assassinato do primeiro-ministro copta Boutros Ghali Pasha*, acusado de favorecer o imperialismo britânico. Ademais, ele -pese o fato de ser copta- foi nomeado chefe de uma comissão seletiva de juízes para o tribunal da Sharía. Nem é preciso dizer o quão desgostosos ficaram os muçulmanos.

Passada a monarquia e o golpe militar, o general Mohamed Naguib assumiu o poder (1952). Promovendo ampla abertura tanto política quanto econômica ele não agradou e foi substituído por Gamal Abdel Nasser. Sobre Nasser também escrevi algumas palavras anteriormente:
"(...) outro militar forte e idealizador da revolução, o coronel Gamal Abdel Nasser, não estava contente com a perspectiva de que conservadores religiosos - Irmandade Muçulmana- chegassem ao poder. A partir daí começou uma disputa entre Nasser e Naguib, sendo vencida pelo primeiro que instaurou uma ditadura nacionalista no país. Apesar do acordo de armas com a Checoslováquia e do financiamento soviético, Nasser nunca se declarou  pró-URSS. Seu lobby estava entre os não-alinhados e seu "carro-chefe" era o pan-arabismo. Dentro do Egito, ele perseguiu seus opositores (até mandou matar os que tentaram assassiná-lo pouco antes de ele assumir o poder) e deixou a democracia apenas para alguns discursos. Na prática, nada".
Sobre o governo Nasser, Tarek Osman, do Ahram, ponderou aspectos interessantes. Segundo o colunista, o general inicialmente teve o apoio dos coptas, que compunham boa parte da elite econômica desde a monarquia. No entanto, suas medidas populistas representadas pelo supracitado Pan-Arabismo e grande simpatia pela URSS afastaram os coptas mais ricos para os Estados Unidos e Europa. E isso fatalmente refletiu na derrocada da proteção dos cristãos, cujos principais defensores já não mais se encontravam no país (4).

O general Nasser morreu em 1970, vítima de um infarto. Anwar Al-Sadat, vice-presidente, assumiu o governo:
"Muitos viam Sadat como um político fraco e manipulável, mas ele mostrou o contrário. Utilizou-se de inúmeras estratégias que o mantiveram no poder e procurou um distanciamento das políticas ditatoriais de seu antecessor: incentivou os movimentos islamistas tirando a Irmandade Muçulmana da clandestinidade; promoveu uma aproximação com o Ocidente; e, no âmbito econômico, instaurou a Infitah, que foi a abertura do Egito para investimentos externos e privados".
 Sadat, após a surra que seus aliados estavam tomando de Israel, decidiu pôr fim aos conflitos e, em 1979, assinou o "Tratado de paz egípcio-israelense". Apesar da popularidade externa nos anos finais de seu mandato, Sadat estava sendo pressionado internamente. A Irmandade Muçulmana ganhou cada vez mais força até que o presidente a reconheceu legalmente (coisa que Nasser nunca fez). A entidade foi fundada em 1928 por Hassan Al-Banna e sempre contou com um forte diálogo anti-semita e fascista. Durante a Segunda Guerra Mundial foi financiada pela Alemanha Nazista.

Como o respeitado historiados norueguês Brynjar Lia contou em seu relatório sobre a Irmandade Muçulmana, "documentos apreendidos no apartamento de Wilhelm Stellbogen, diretor da agência de notícias alemã no Cairo, mostram que antes de 1939, a Irmandade Muçulmana recebeu subsídios financeiros da delegação alemã no Cairo. Stellbogen foi fundamental na transferência desses fundos" (5).

Para bom entendedor meia palavra basta. Quando Sadat chegou ao governo a força política da Irmandade já era imensa e não poderia mais ser desprezada. Qualquer garoto do colegial sabe que um movimento político precisa, antes de ter condições de exercer qualquer influência, passar por um período de maturação. Assim foi com a Irmandade Muçulmana. Aos desavisados que suspeitam uma fuga do assunto por parte do escritor, fica um aviso: aumento do poderio da Irmandade significa maior supressão dos cristãos coptas. Ao passo que a entidade muçulmana se fortalecia, ocupava os espaços antes dominados pelos cristãos. Esta tática os lembra alguma coisa?

Governo Mubarak

Anwar Al-Sadat foi assassinado em 1981:
"Em 1981, durante uma parada em carro aberto no Cairo, ele foi assassinado. O comandante do grupo executor, Khalid Islambouli, foi condenado a morte um ano depois. Para muitos, Hosni Mubarak teve participação ativa no golpe, não só por ter saído ileso como também pelas inúmeras "coincidências" que se deram no momento: a inatividade dos seguranças presidenciais e caças passando sobre o presidente no exato instante que os tiros foram disparados".
Com Hosni Mubarak no poder houve uma falsa sensação de segurança entre muçulmanos e cristãos. O ditador, mesmo sabendo a força da Irmandade Muçulmana, voltou a torná-la ilegal e organizou uma censura para seus meios de comunicação. Quem estava de fora pensou que a militância fora desbaratada. Contudo, o oposto acontecia e seu crescimento gradativo não foi interrompido. O que Mubarak fez foi evitar, por meio da força, que distintos grupos tivessem contato dentro do Egito. Liberais, coptas e muçulmanos viveram separados até o levante que derrubou o ditador.

Primavera Árabe

É unanimidade entre os especialistas que a revolta egípcia foi de cunho espontâneo. Apesar do exemplo da Tunísia, Mubarak acreditava que poderia coibir os manifestantes. Foi assim durante muitos meses. Fazendo uma reflexão mais profunda, nem mesmo a Irmandade acreditava na queda do ditador. Elucido meu argumento com a frase que tanto vinculou nos meios de comunicação egípcios: "a Irmandade foi a última a entrar na Praça Tahrir e a primeira a sair".

Os membros da Fraternidade só entraram de vez na revolução quando tiveram absoluta certeza da derrota de Mubarak. Ao cabo de tudo, para os que acreditavam que ela havia sido suficientemente reprimida no governo Mubarak, Mohamed Morsi, um proeminente membro, foi eleito presidente na primeira eleição democrática da história do Egito.

Os motivos para a eleição de Morsi foram mencionados em todos os parágrafos acima. Se faz mister destacar agora a situação dos coptas, que é claramente insustentável. Com um presidente da Irmandade Muçulmana, entidade de cunho fascista que persegue desde seu início cristãos e judeus, o que pode ser feito? Sua esperanças estariam depositadas na oposição, caso nesta não imperasse o caos. A suposta "organização" Frente da Salvação Nacional apenas engloba todos aqueles que se dizem contra o governo, mesmo sem ter uma agenda fixa e planos para fazer frente ao trabalho da Irmandade.

O grupo militante muçulmano esperou 84 anos para assumir o poder e dificilmente sairá de lá. Enquanto isso, a perseguição aos coptas não irá cessar até que tais "forças" de oposição tenham em mente que este é um dos objetivos criminosos da Irmandade e que precisa claramente ser coibido antes que mais pessoas inocentes morram unicamente por expressarem a sua fé.



(1). Politically charged Coptic funeral ends in violence, one Death. Al-Ahram
(2). Seventh death in Al-Khousous. Daily News Egypt.
(3). Roots of religious violence lie booth state and society. Egypt Independent.
(4). Understending sectarianism in Egypt. Al-Ahram.
(5). Fascismo islâmico: a conexão Nazista. Gary Aminoff.
FOTO: The Jewish Press.

*Alguns devem estar se perguntando sobre a palavra "Pasha" (pronuncia-se "paxá" em português) acrescentada após os nomes de Muhammad Ali e Boutros Ghali. Ela não designa um sobrenome, mas sim uma alta honraria. Era muito comum tanto no Império Otomano quanto na monarquia egípcia. Alguns autores colocam como a equivalência muçulmana ao título de cavaleiro na Grã-Bretanha. Boutros Ghali foi o primeiro copta a receber tal honra no Egito

sábado, 22 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte III)

Liberdade!


Nos dois últimos textos (Parte I e Parte II) falei sobre a causa e as consequências iniciais da Primavera Árabe. Agora, para finalizar, abordarei mais alguns casos específicos e colocarei em pauta os problemas que serão enfrentados pelos governos.

Na Tunísia, secularistas venceram mas agora sofrem; na Síria o sectarismo é cada vez maior

A Tunísia é o berço da Primavera Árabe. Foi lá que, em 2010, o comerciante Mohamed Bouazizi colocou fogo em seu próprio corpo e "acendeu" a revolta (não foi um trocadilho proposital). Posteriormente à queda do presidente Ben Ali, o secularista Moncef Marzouki foi eleito. O problema é que agora ele enfrenta quase os mesmos problemas que Ben Ali.

A população está cansada de sofrer. Está cansada de passar fome e de ser subjugada. Marzouki não é um ditador, muito pelo contrário, mas ele não pode até agora atender os anseios da população. Racionalmente falando é impossível que ele consiga reverter o quadro econômico de um país tão castigado em menos de dois anos. Não há como. Mas também não há como explicar isso para alguém que está sem emprego (o desemprego aumentou na Tunísia) e precisa sustentar sua família.  Em recente visita a Sidi Bouzid (cidade de Bouazizi), o presidente Marzouki e seu primeiro-ministro foram recebidos a pedradas. E isso só abre um espaço cada vez maior para os conservadores islâmicos, que já conseguiram angariar um grande número de simpatizantes. 

Na Síria, o conflito ainda está longe de ser resolvido. O presidente Bashar Al-Assad e seu exército, predominantemente alauíta, ainda resistem aos ataques rebeldes. Estes, por sua vez, foram reconhecidos por potências internacionais, conquistaram territórios e bases significativas mas ainda não têm condições de depor Assad. Nisso, o sectarismo aumenta cada vez mais. Aqueles que estão ao lado de Assad -principalmente alauítas e cristãos- tendem a sofrer se o próximo governo for islâmico.

Alguns diziam que antes da guerra civil a Síria era um paraíso de diversidades. Outros eram mais realistas dizendo que o país era um caldeirão de água pronta para entrar em ebulição a qualquer momento. Quem controlava isso era a família Assad, mas pelo visto Bashar nunca teve o pulso de seu pai Hafez. Com a oposição fragilizada, o muçulmanos fundamentalistas tiveram espaço para a agir e mostrar a "mão amiga" para os necessitados. É difícil prever o que acontecerá na Síria nos próximos tempos.

O que esperar daqui para frente?

Até agora, vimos que os primeiros governos que se instauraram -secularistas ou islâmicos- estão tendo problemas para se manterem firmes graças a impaciência da população já cansada de sofrer. Isso vai dificultar um pouco as coisas a menos que medidas rápidas e satisfatórias sejam tomadas. Uma delas, no caso do Egito, seria o abrandamento da Irmandade. Em artigo recente para a Al-Jazeera o professor Mark LeVine disse algo muito correto: que a tendência de determinados partidos quando chegam no poder é o abrandamento. Isso não acontece por uma questão ideológica, mas sim pelo ímpeto de quererem ficar onde estão.

Voltando a falar sobre economia, todos estes países precisarão de ajuda externa para se reerguerem (a Síria principalmente). Sendo assim, empréstimos como os que o Egito realizou serão comuns. Contudo, para que o FMI libere este dinheiro os países precisam fazer um acordo de corte de gastos (assim como na União Europeia, com o memorando). Em outras palavras, precisam passar por um período de austeridade que vem tradicionalmente após mudanças tão radicais.

Agora vamos pensar um pouco pelo lado da população: será que vai ser fácil aceitar isso? A resposta é clara e muito óbvia, não. Muitas dessas pessoas já enfrentaram dificuldades ao longo de suas vidas e não querem passar pela mesma coisa. A diferença é que agora eles não hesitarão em protestar quando necessário e isso dificultará as coisas para os governos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte II)

Praça Tahrir.

No post anterior, citei um trecho do livro do professor Kissinger e exemplifiquei a situação da política egípcia nos últimos anos. Política esta que derrubou o ditador Hosni Mubarak visando ao menos tentar instaurar um regime democrático no país.

Vale relembrar algumas das palavras do professor Kissinger: "quando o governo é a principal, por vezes a única, expressão de identidade nacional, a oposição passa a ser considerada como traição. O profundo abismo social ou religioso de muitas das nações novas transforma o controle da autoridade política numa questão de vida e morte. Sempre que a obrigação política acompanha as linhas tribais, raciais ou religiosas, o autodomínio entra em colapso. Os conflitos internos assumem o caráter de guerra civil. A autoridade tradicional nas condições existentes vem a ser pessoal ou feudal".

Serão demasiadamente úteis para esta postagem pois, a partir delas, reflexionarei a atual situação política dos países que passaram pela Primavera Árabe (com foco no Egito outra vez) e os grupos que tiveram significativa ascensão. Ademais, o quadro econômico também será levado em questão, devido ao fato de estas nações precisarem passar por regimes de austeridade para uma possível recuperação.

A lógica ascensão da Irmandade Muçulmana

Com a queda dos regimes anteriores já era esperado que grupos islâmicos ganhassem força e tomassem o poder. A verdade é que eles nunca perderam força efetivamente, tanto que foram "cirurgicamente" marginalizados pelos governos. No Egito, Hosni Mubarak contrariou Anwar Al-Sadat e voltou a considerar a Irmandade Muçulmana criminosa. Esta medida nos dá uma boa noção da influência que as organizações religiosas conservadores têm nestes países.

Mas por que justamente a Irmandade Muçulmana ganhou tanta força? Bom, para respondermos a esta pergunta precisamos voltar ao ano de 1928 quando, no Egito,  o professor e imã Hassan Al-Banna decidiu criar uma organização pacífica e política cujos preceitos eram baseados no Alcorão e na Sunnah. Esta organização era Al-Ikhwan Al-Muslimun, a Irmandade Muçulmana. Durante anos Ikhwan prestou assistência aos pobres, ensinou analfabetos e ajudou a população, conquistando grande simpatia.

Com o passar do tempo sua influência foi se estendendo por outros países islâmicos e a política da não-violência passou a agradar. Inclusive, quando o grupo terrorista Hamas foi fundado, em 1987, um de seus idealizadores, o Sheik Ahmed Yassin, foi expulso da Irmandade haja vista que o grupo desde o início queria pegar em armas contra o estado de Israel.

Este aparente pacifismo é ótimo, mas não tira o caráter conservador da Irmandade. Para eles, o islã e a política caminham juntos. E a sharía deve estar presente em qualquer governo. Entenderam? Desde os seus primordes Ikhwan é um movimento político, por isso ascendeu tão rapidamente logo que os governos autoritários caíram. Sua grande organização lhes permitiu que oferecessem uma alternativa à carente população. E, além disso, não havia mais partidos que pudessem concorrer de igual para igual com os islamistas. Em outras palavras, a repressão conseguiu deter os secularistas mas não os conservadores religiosos.

Voltando ao Egito, a Irmandade está no poder mas a crise continua

Logo que Hosni Mubarak caiu e eleições presidenciais puderam ser realizadas no Egito, a Irmandade Muçulmana, através do Partido da Liberdade e Justiça, chegou à presidência com Mohamed Morsi. O engenheiro de formação que estudou nos EUA queria mostrar que se distanciaria um pouco do conservadorismo de seu partido e seria mais centralizador. No entanto, essa imagem que ele estava tentando passar durou pouco. Digamos que até seu decreto faraônico (comentei sobre ele aqui e aqui).

Com medo de uma nova ditadura, desta vez islâmica, a população foi às ruas protestar novamente. O problema é que não havia uma oposição forte para defrontar o presidente. Recordem-se que no trecho acima falei a respeito da desorganização dos secularistas. Pois é, isso de certa forma facilitou as coisas para a Irmandade que não tinha um rival político a altura. Os opositores mais significativos eram considerados felool (termo pejorativo utilizado para se referir aos remanescentes da era Mubarak) e marginalizados pela Irmandade, exatamente da mesma forma que descreveu o professor Kissinger no trecho inicialmente mencionado.

Para se ter uma ideia, a oposição só conseguiu certa organização poucos dias antes  do primeiro turno do plebiscito que visaria aprovar ou não a nova Constituição. A "unificação" se deu com a criação da Frente de Salvação Nacional, que tentou englobar -sob a liderança de Ahmed Shafiq e Mohamed El-Baradei- todos aqueles que eram contra as decisões do presidente Mohamed Morsi e da Irmandade Muçulmana. Basicamente, a primeira reação da Irmandade foi classificar a todos como felool, não importando a qual vertente política pertenciam.

A tendência é que a Constituição baseada na sharia seja mesmo aprovada no Egito. Alguns veem isso como o primeiro passo para a democracia, mas é difícil acreditar que seja mesmo. Se qualquer artigo está submetido à lei islâmica, ele pode ser deturpado de forma conservadora. Quem mais sofre com isso? Principalmente os cristãos coptas (que formam 10% da população) e as mulheres.

No âmbito econômico, os dados também não são muito bons. A crise de 2011 para cá se intensificou muito e o turismo, uma das principais fontes de renda egípcia, foi significativamente prejudicado. O presidente Morsi já recebeu ajuda dos Estados Unidos mas precisa de mais. Recentemente negociou um empréstimo com o FMI. No entanto, o dinheiro só será liberado quando o país atingir certa estabilidade, isto é, quando sua Constituição for aprovada. A aprovação, em si, será o menor dos problemas para a Irmandade. O difícil mesmo será enfrentar a ira da oposição depois.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os rumos da revolução (Parte I)

Mohamed Bouazizi, o estopim da Primavera Árabe.

Em seu livro "Política Externa Americana", publicado em 1969, o professor Henry Kissinger -assessor do presidente Richard Nixon para assuntos de segurança- assim descreveu a instabilidade política nas novas nações:

"Quase todas as nações novas sofrem de um mal-estar revolucionário: as revoluções vencem através da incidência de todos os rancores. A eliminação das estrutura existentes, porém, promove a dificuldade de estabelecer acordos políticos. Uma revolução vitoriosa deixa como legado um profundo desajuste. Nos países novos, contra todas as previsões revolucionárias, a tarefa construtiva surge menos fascinante e mais complexa do que a luta pela liberdade; a exaltação da busca pela independência não pode ser perpetuada. Mais cedo ou mais tarde, objetivos positivos devem substituir os rancores do antigo poder colonial como força motriz. Na ausência de forças sociais autônomas, este papel unificador deve ser interpretado pelo Estado.

A aceitação do papel por parte do Estado não produz estabilidade. Quando a coerência social é superficial, a luta pelo controle da autoridade é relativamente mais dura e amarga. Quando o governo é a principal, por vezes a única, expressão de identidade nacional, a oposição passa a ser considerada como traição. O profundo abismo social ou religioso de muitas das nações novas transforma o controle da autoridade política numa questão de vida e morte. Sempre que a obrigação política acompanha as linhas tribais, raciais ou religiosas, o autodomínio entra em colapso. Os conflitos internos assumem o caráter de guerra civil. A autoridade tradicional nas condições existentes vem a ser pessoal ou feudal. O problema está em torná-la 'legítima' -desenvolvendo uma noção de deveres políticos que dependam mais de normas legais do que de um poder coercitivo ou de lealdade pessoal.

Este processo durou séculos na Europa. Deve ser atingido em décadas pelas novas nações onde as condições prévias de sucesso são menos favoráveis do que em períodos equivalentes no continente europeu. Estas nações estão sujeitas a pressões externas; há uma compensação nas aventuras externas que é a de atrair a coesão doméstica. A falta de estruturas internas provoca as já tão marcantes instabilidades internacionais". 

O respeitabilíssimo professor Kissinger, neste contexto, referia-se principalmente aos processos de independência de países do Oriente Médio, da África Subsaariana e do Magreb Islâmico. Estas novas nações ainda passariam por um longo período de estabilização nos âmbitos social, político e econômico. Na verdade, ainda estão passando, haja vista que, após atingirem a independência, muitos destes países se submeteram a violentas e repressivas ditaduras. Alguns saíram do domínio colonial direto para ditaduras, outros ainda enfrentaram autocracias corruptas que os levaram a ditaduras.

Para entendermos o por que da Primavera Árabe, é necessário que tenhamos em mente os acontecimentos históricos que culminaram nas revoltas contra os Estados. Todas as nações revoltosas protagonistas são exemplos clássicos da situação descrita no parágrafo anterior. Assim sendo, nos vale tomar e dissecar o contexto egípcio.

De Muhammad Ali a Hosni Mubarak

Basicamente o Egito foi dominado desde 1805 até o início da década de 1950 pela dinastia Muhammad Ali. Esta iniciou-se com Muhammad Ali Pasha, comandante albanês do Império Otomano que seria encarregado de forçar a retirada das tropas francesas da região. Após fazê-lo, decidiu ficar a formar para si um protetorado que, com o tempo, tornou-se mais próspero economicamente que o próprio Império Otomano, abrangendo também o Sudão. Em meados de 1880 deu-se o domínio britânico, mas a dinastia Muhammad Ali seguiu no poder, sem qualquer oposição ao subjugo da Grã-Bretanha.

A situação só mudou de verdade na Revolução de 1952, quando uma comissão militar forçou o rei Farouk I a abdicar em favor de seu filho, o jovem Ahmed-Fuad, denominado Fuad II que então tinha menos de 1 ano de idade. Esta estratégia dos militares serviu para apaziguar os temerosos britânicos e dar-lhes tempo para que pudessem se estabelecer no governo. Em 1953 o moderado general Mohamed Naguib, um dos idealizadores da revolução, foi empossado presidente, primeiro-ministro e líder do Conselho do Comando Revolucionário (CCR, que era o SCAF da época). Sua ideia era liderar um governo de transição que pudesse abrir caminho para uma presidência civil.

No entanto, outro militar forte e idealizador da revolução, o coronel Gamal Abdel Nasser, não estava contente com a perspectiva de que comunistas e conservadores religiosos - Irmandade Muçulmana- chegassem ao poder. A partir daí começou uma disputa entre Nasser e Naguib, sendo vencida pelo primeiro que instaurou uma ditadura nacionalista no país. Apesar do acordo de armas com a Checoslováquia e do financiamento soviético, Nasser nunca se declarou  pró-URSS. Seu lobby estava entre os não-alinhados e seu "carro-chefe" era o pan-arabismo. Dentro do Egito, ele perseguiu seus opositores (até mandou matar os que tentaram assassiná-lo pouco antes de ele assumir o poder) e deixou a democracia apenas para alguns discursos. Na prática, nada.

Nasser morreu em 1970 vítima de um infarto e deixou o poder nas mãos de seu vice-presidente e grande amigo, Anwar Al-Sadat. Muitos viam Sadat como um político fraco e manipulável, mas ele mostrou o contrário. Utilizou-se de inúmeras estratégias que o mantiveram no poder e procurou um distanciamento das políticas ditatoriais de seu antecessor: incentivou os movimentos islamistas tirando a Irmandade Muçulmana da clandestinidade; promoveu uma aproximação com o Ocidente; e, no âmbito econômico, instaurou a Infitah, que foi a abertura do Egito para investimentos externos e privados.

O que não agradou muito os islamistas e demais países árabes foi o processo de paz com Israel. Após a Guerra do Yom Kippur, em conjunto com Hafez Al-Assad (pai de Bashar Al-Assad), Sadat viu a necessidade de entrar em um acordo com os israelenses e começou a colocar a ideia em prática já no ano de 1974. Em 1979 foi assinado o "Tratado de paz egípcio-israelense" (após os acordos de Camp David), o que rendeu a Sadat e ao então premiê israelense, Menachem Begin, o prêmio Nobel da paz.

O preço que Sadat precisou pagar para promover um pouco de estabilidade na região foi alto. Em 1981, durante uma parada em carro aberto no Cairo, ele foi assassinado. O comandante do grupo executor, Khalid Islambouli, foi condenado a morte um ano depois. Para muitos, Hosni Mubarak teve participação ativa no golpe, não só por ter saído ileso como também pelas inúmeras "coincidências" que se deram no momento: a inatividade dos seguranças presidenciais e caças passando sobre o presidente no exato instante que os tiros foram disparados.

A sucessão de Sadat se deu da mesma forma que a de Nasser. Quem assumiu o poder foi o vice, ou seja, Hosni Mubarak. A história deste já conhecemos muito bem: governou o país de 1981 até 2011 promovendo uma ditadura muito semelhante a de Nasser, mas com uma política externa bastante limitada e fechada. Cuidou ao menos de manter de pé os acordos de paz feitos por seu antecessor com Israel. No âmbito interno procurou marginalizar outra vez a Irmandade Muçulmana e isolar as diferentes classes políticas do país, alegando "proteção".

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Após decreto faraônico, Morsillini lança o projeto de Constituição

Morsillini tendo atitudes de seu antecessor.

Como mencionei no primeiro podcast do Internationale Actuelle, o presidente egípcio Mohamed Morsi ficou com muita moral após mediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Estes "bons ventos" o fizeram anunciar, logo depois, um decreto faraônico onde concentrava todos os poderes em suas mãos até que uma nova constituição fosse elaborada no país. Ademais, nenhuma de suas decisões precisaria passar por qualquer revisão judicial.

Mas com que intuito fez isso? Alguns colocam tal atitude como puro despotismo por parte dele e outros como jogada de poder da Irmandade Muçulmana. O mais provável é que ambos estejam corretos. No entanto, vamos analisar a ordem dos fatos: assim que Morsi foi eleito (realmente poucos dias depois) o Parlamento foi dissolvido pelo SCAF (Conselho Supremo das Forças Armadas) em virtude do descontentamento da população. Vale mencionar que o Partido da Liberdade e Justiça ( Irmandade Muçulmana ou Ikhwan), detinha a maioria dos assentos.

Vendo o poder do SCAF, Morsi resolveu tomar uma atitude e afastou a maioria dos generais de seu entorno. Este era apenas o primeiro passo para que ele e seu partido tomassem definitivamente o poder. Aos poucos os membros da Irmandade foram introduzidos nos principais ministérios, deixando os papeis coadjuvantes para cristãos (coptas), liberais e mulheres. Até aqui nenhuma surpresa.

O problema é que nas últimas semanas houve uma série de absolvições de ex-membros do governo Hosni Mubarak. Isso jogou a população contra o Conselho dos Magistrados e deu espaço para a Irmandade agir. Aproveitando-se do momento o presidente lançou o decreto visando proteger sua  nova Assembleia Constituinte- que também corria o risco de ser dissolvida pelo Supremo Tribunal Constituinte- e garantir que suas decisões não sofreriam quaisquer interferências de pessoas ligadas ao antigo regime.

Justificativa inteligente mas não correta. O professor Nathan Brown explica por que: "todos os membros da corte eram de fato nomeados pelo presidente. Mas a maioria foi indicada pelos próprios juízes e sua nomeação resultou em mera formalidade cumprida por Hosni Mubarak.

"O ex-chefe de justiça, Farouk Sultan, era de fato um 'fantoche' de Mubarak, mas ele teve apenas um voto e se aposentou no verão. Em seguida foi substituído por um presidente escolhido por juízes do tribunal".

Em suma, o tribunal, diferentemente de outros setores dos três poderes do atual Egito, não é composto por muçulmanos. Tal situação poderia se converter em uma pedra no sapato do presidente, haja vista que a dissolução da Assembleia Constituinte já era tratada como iminente. Recordam-se que no início mencionei uma possível jogada política de Ikhwan? Pois então, para Eric Trager, especialista na Irmandade Muçulmana o partido não tem nada de democrático e as esperanças externas alimentadas após a eleição de Morsi foram extremamente ingênuas.

"O partido não tem nada de democrático", afirmou Trager, "o próprio processo pelo qual o jovem se torna um irmão muçulmano é feito para 'descartar' os mais moderados. Os que prosseguem passam pela lavagem cerebral que consiste em memorizar trechos do Alcorão e textos de Hassan Al-Banna, fundador da entidade".

Tiger também recorda que a Irmandade não tolera pluralismos. Para aclarar esta afirmação ele menciona que, após a queda de Mubarak, os membros que não apoiaram a criação de um único partido foram expulsos. Inclusive Abouel Fotouh, que era o candidato favorito da entidade para a presidência, foi banido por discordar de algumas posições.

No projeto de Constituição que precisará passar ainda por um referendo popular, vemos com muita clareza as influências de Ikhwan. O segundo artigo diz o seguinte: "O Islã é a religião do Estado e seu idioma oficial é o árabe. Princípios da Sharía islâmica são a principal fonte da legislação". Saber que a Sharía inspira a Constituição egípcia não é a melhor das perspectivas.

Logicamente a vertente mais radical da lei islâmica não será aplicada no Egito como em outros países, mas o simples fato de a Sharía ser mencionada é mau sinal. Tentando amenizar a situação há outros artigos pregando a igualdade  absoluta entre homens e mulheres. Além disso, a liberdade religiosa é garantida. Vamos ver se isso funciona na prática. Os cristãos coptas já cansaram de ser perseguidos e acusados -em certa ocasião pela própria Irmandade Muçulmana- de inimigos do Islã.

Outro artigo que chamou a atenção foi o 31. Nele está escrito: "Insultar ou injuriar qualquer ser humano deve ser proibido". Analisando superficialmente parece normal. Mas a verdade é que este artigo pode ser utilizado para "neutralizar" aquele que garante liberdade de imprensa. Explico: se algum jornalista por acaso criticar o presidente, pode ser acusado de "insulto" (não importando as palavras que use), já que no artigo não há a especificação de como deve ser este "insulto".

É importante também mencionar o artigo 64. Por intermédio dele o governo garante sustentar as famílias daqueles que morreram na revolução que derrubou o ex-ditador Hosni Mubarak. Uma obrigação que, felizmente, foi colocada no papel.

Só saberemos de fato se esta será a nova Constituição do Egito após o referendo popular. Até lá veremos como o presidente-faraó Mohamed Morsi se comporta. Ademais, a coisa não deve ser tão fácil quanto parece. A oposição não vai deixar barato tanto acúmulo de poder nas mãos da Irmandade Muçulmana.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Indiferença para Israel, maior moral para o Hamas e enfraquecimento do Fatah

Médicos palestinos comemoram o cessar-fogo.

Nesta quarta-feira (21) finalmente foi acordado um cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas. O acordo foi mediado pelo Egito e pelos Estados Unidos (Hillary Clinton viajou para o Oriente Médio nesta semana). O saldo foi de 167 mortos no total (sendo 162 palestinos), mesmice para o poder de dissuasão israelense e um fortalecimento do Hamas.

Assim como a operação Chumbo Fundido, comandada por Ehud Olmert, Pilar de Defesa não tinha como objetivo destruir o Hamas e ocupar a Faixa de Gaza, mas sim aumentar seu poder de dissuasão na região e reduzir consideravelmente, pelo menos por enquanto, o poder de fogo do grupo terrorista. Analisando os números, isso deu certo: foram mais de 1.500 ataques aéreos (sendo 19 em centros de comando superiores), 30 membros importantes dos grupos terroristas (considerando Hamas e Jihad Islâmica) mortos e centenas de lançadores de foguetes subterrâneos destruídos. Além disso, o sistema de defesa Iron Dome se mostrou extremamente eficaz, realizando 421 interceptações, o que corresponde a 84% do total de mísseis que penetraram Israel.

Mas se os números dizem uma coisa, por que algo tão distinto ocorre na prática? Como já foi mencionado aqui no IA, o Hamas ganhou um pouco mais de apoio após a Primavera Árabe e, querendo ou não, se fortaleceu consideravelmente nos últimos anos. O primeiro indício desta evolução foi justamente o alvo inicial da operação Pilar de Defesa, Ahmed Jabari. Ele não era um líder político, mas sim militar. Isso significa que Israel tinha plena consciência do perigo oferecido pelo grupo terrorista a seu território.

Ademais, muitos analistas acharam um tanto exagerada a importância que o governo de Jerusalém deu ao Hamas logo no início do conflito, falando diretamente ao grupo após ataques perpetrados por facções que podem ser consideradas como suas subordinadas dentro de Gaza. Mas a verdade é que Netanyahu foi correto em todas as suas atitudes, sobretudo esta, haja vista que a esfera de influências do Hamas realmente é bem maior do que a de quatro anos atrás.

Quando os boatos de cessar-fogo tiveram início, poucos poderiam imaginar que Israel aceitaria negociar com terroristas. Mas ao fim de tudo exigências foram atendidas. Destaque para a abertura das fronteiras para a circulação de bens e pessoas. Recordam-se que no último post comentei sobre uma possível abertura do terminal de Rafah? Pois então, o "palpite" de Ehud Yaari realmente estava certo e o Egito fez esta concessão aos palestinos. Ainda não se sabe até que ponto chegará esta abertura, mas já é um grande feito.

Quem não concordou muito com o cessar-fogo e suas condições foi a população israelense (além da oposição de Netanyahu, lógico). Segundo o Times of Israel 70% dos israelenses foram contra o acordo e apenas 24% se mostraram favoráveis. Ainda assim nada que, pelo menos por ora, abale as aspirações de reeleição do atual governo.

Ainda há opiniões um tanto controversas acerca do quão prejudicial foi o conflito para Israel. A unanimidade só gira em torno do significativo enfraquecimento da Autoridade Palestina frente ao Hamas. Para os palestinos, a forma como o Hamas resistiu (se é que o fato de se esconder covardemente atrás de civis pode se chamar resistência), foi quase heroica. A facção da bandeira verde ganhou total apoio da Cisjordânia, que se mostrou demasiadamente cansada com as promessas de Mahmoud Abbas e, principalmente, com a ocupação transfronteiriça ilegal de Israel. Ramallah ficou quase deserta nos últimos dias.

É importante que uma coisa fique bem clara: uma "derrota" do Fatah também pode ser prejudicial a Israel porque, a priori, o grupo é mais moderado e tem defendido um acordo de paz respeitando a fronteira de 1967. Como bem disse Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, Israel deveria buscar na AP um aliado para intensificar o projeto de paz e colocá-lo, por fim, em prática.

Haass, que foi enviado pelos EUA para o processo de paz na Irlanda do Norte, disse que Israel deveria buscar no Fatah "a sua Irlanda do Norte". E tal observação é muito precisa. O problema é que agora, decadente como está, a AP não mais parece uma solução tão viável -e confiável- para o povo palestino. Devemos ter medo se o Hamas passar efetivamente a ser considerado esta "solução".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Egito é a maior esperança de um cessar-fogo

Reunião dos ministros israelenses. Times of Israel

Atualização do conflito

Estamos caminhando para o sétimo dia da operação israelense Pilar de Defesa na Faixa de Gaza e, segundo Al Jazeera, o número de mortos chega a 110 (o de feridos gira em torno de 450). Apesar de a imprensa árabe ter vinculado, até agora não há sinais claros de que um cessar-fogo seja iminente. No domingo negociadores israelenses e palestinos se reuniram no Cairo mas não chegaram a um acordo.

Desde o último post, a situação segue a mesma: Israel ataca pontos estratégicos do Hamas e a organização terrorista responde com foguetes de curto (Qassam) e longo (Farj5) alcance. O IDF informou que mais de 1.500 alvos foram atingidos. Nesta segunda (19) o grupo Jihad Islâmica confirmou a morte do líder das brigadas Al-Quds, seu braço armado, Ramez Harb.

Segundo o próprio IDF nos últimos cinco dias um total de 877 foguetes foram lançados contra Israel, dos quais o sistema anti-mísseis Iron Dome conseguiu abater 307. A verdade que o Iron Dome está salvando Israel. Vale lembrar que o sistema é um tanto quanto moderno e começou a ser instalado efetivamente só no ano passsado.

Infelizmente o número de civis mortos -principalmente crianças- segue chamando muito a atenção de todo o mundo. Al-Jazeera informou que no domingo uma família inteira foi morta. O que mais assusta é que, ainda assim, a população de Gaza segue apoiando o Hamas. Os terroristas, como bem disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, estão usando os civis como escudo para disparar contra outros civis. Mas cada foguete lançado contra Israel é, na verdade, um motivo de comemoração.

Também neste fim de semana o correspondente da Al-Jazeera em Gaza, Nadim Baba, publicou uma foto de um local, cheio de casas, de onde um foguete acabara de ser disparado. Há relatos também de que alguns dos mísseis lançados pelo Hamas caíram em Gaza, ferindo pessoas.

Khaled Mashaal (E), líder do Hamas, e Morsi (D).
As dificuldades no cessar-fogo

Com a ascensão de regimes islâmicos na Primavera Árabe, o Hamas está aproveitando para ver até onde consegue ir sendo protegido de outras nações islâmicas (está, inclusive, testando o Egito) e financiado por mais terroristas (Irã e Hezbollah).

O cessar-fogo foi impossível até agora, apesar dos inúmeros diálogos, devido às reivindicações de ambos os lados: o Hamas quer (1) todos os postos de fonteira em Gaza abertos 24 horas por dia, (2) um fim dos ataques israelenses e (3) manter seu armamento; Israel, por outro lado, quer (1) todos os grupos terroristas desarmados, (2) parada imediata no lançamento de foguetes e (3) um cessar-fogo de longo prazo garantido.

Morsi está deixando seu amor pelo Hamas de lado para servir como mediador

Como bem disse David Kirkpatrick, no passado o presidente egípcio Mohamed Morsi, então líder da Irmandade Muçulmana, defendeu avidamente a causa palestina, condenou Israel e se mostrou um grande apoiador do Hamas. Hoje, na qualidade de chefe de Estado, ele precisa cumprir o seu papel e deixar as crenças de lado (ou o próprio país, que tem negócios com Israel, vai sofrer ainda mais os efeitos da crise econômica interna).

Ao que parece ele está fazendo isso. O simples fato de se referir a Israel pelo nome e não como "o intruso sionista" ou, como prefere Ahmadinejad, "o câncer", já é alguma coisa. Tudo indica que ele está fazendo o possível para que o cessar-fogo aconteça (ao contrário de outros chefes de Estado, como Recep Tayyp Erdogan, que chamou os israelenses de terroristas).

Em seu mais recente artigo no Foreign Affairs, Ehud Yaari sugere uma boa alternativa para o fim do conflito (ou pelo menos um cessar-fogo): a abertura do terminal de Rafah, que fica na fronteira do Egito com Gaza. Reparem que uma das reivindicações do Hamas é a total abertura da fronteira, para facilitar não só o trânsito de pessoas, mas também de mercadorias.

Para Yaari, "isto poderia significar que Gaza iria receber seu combustível e outros produtos do Egito, enquanto Israel continuaria fornecendo eletricidade. Portos egípcios poderiam começar a lidar com o fluxo de mercadorias dentro e fora de Gaza, e Israel seria eliminado gradualmente das atividades comerciais que passam pelos seis terminais operantes em Gaza".

Veem? Esta, sem dúvida, é a melhor alternativa para pôr fim a este combate antes que ele se intensifique ainda mais. Tal medida seria boa para ambos, haja vista que o Egito posaria de herói para os palestinos e Israel poderia transferir um "problema" para Morsi (cá entre nós, o Hamas não é um problema para o Egito).


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Entre a Sharia e uma ditadura camuflada

Participação nas urnas foi 46,4% menor do que o esperado.

Na semana passada foram realizadas eleições no Egito a fim de escolher, democraticamente, o primeiro presidente desde a era Hosni Mubarak. Dentre os 13 candidatos haviam populistas, nasseristas, salafistas, moderados, "duas caras" e, pasmem, até mesmo ex-membros do governo Mubarak. Pois bem, já foram divulgados os resultados do primeiro turno e o doutor Mohamed Morsi (24,3%) irá concorrer com Ahmed Shafiq (23,3%) no segundo turno.

Este resultado assustou toda a comunidade internacional e até mesmo os revoltosos da praça Tahrir. Para quem não sabe, Mohamed Morsi é o candidato do radical partido da Irmandade Muçulmana, que foi praticamente execrado do país por Mubarak e agora voltou com tudo. Conseguiu, inclusive, maioria absoluta no Parlamento. Do outro lado está um forte militar (sim, mais um!). Shafiq foi o último primeiro-ministro de Mubarak e sabe-se lá como conseguiu se candidatar às eleições presidenciais, já que os parlamentares inclusive vetaram a sua candidatura.

Do ponto de vista externo as duas opções parecem um tanto absurdas. E realmente são. Mas devemos pensar um pouco na grande maioria do povo egípcio. Maioria esta que viu o caos se instalar no país após a queda do antigo ditador. A verdade é que os egípcios não estavam preparados para esta transição democrática e a grave crise econômica (e mesmo social) que se instaurou na nação fez a população ficar literalmente acuada, sem saber o que fazer.

Durante o governo de Mubarak realmente não havia oposição, já que ele -no melhor estilo Bashar Al Assad- coibia toda e qualquer revolta. Logo após sua queda declarações de etnias que mal se conheciam, ainda que habitassem o mesmo país, correram o mundo. Era como se Mubarak inventasse ameaças entre os grupos e colocasse o exército nas ruas para manter a ordem. Ele mentiu e exagerou, mas deu certo. Por favor, não estou aqui para defender esta bizarra ditadura. Longe disso, estou apenas reproduzindo muitos depoimentos de egípcios que li em vários jornais.

Com as eleições parlamentares pudemos ter consciência da força da Irmandade Muçulmana dentro do Egito, visto que o partido islamista ocupou a grande maioria das cadeiras do Parlamento. O problema é que, poucos meses após sua eleição, eles já desagradaram até mesmo parte de seu eleitorado, respaldando atitudes violentas dos exército contra manifestantes. Ademais, a ideia da Sharia (lei islâmica) assusta não só os 10% de cristãos coptas como também os setores mais liberais da sociedade.

Tendo em vista esta "ameaça radical" qual foi o primeiro reflexo do povo? Não votar em Mohamed Morsi. Mas por que a escolha de Shafiq? O que explica a opção feita pelo ex-primeiro-ministro de Mubarak é o tema estabilidade. O fato é que muita gente aderiu à revolução sem saber direito o que ela significava, por isso se assustou com a situação caótica que se instaurou mesmo com os militares no poder. "Ele vai colocar o exército nas ruas e restaurar a ordem", dizia um eleitor sobre Shafiq.

Logicamente os revoltosos da praça Tahrir não deixaram isso barato e já foram às ruas protestar contra os resultados das eleições. Muitos ameaçaram até mesmo absterem-se no segundo turno e contestaram a veracidade dos resultados. Hamdin Sabbahi, candidato nasserista e terceiro mais votado (20%), tentou recorrer à justiça eleitoral egípcia, mas não teve jeito.

Agora é esperar o que parte do povo vai decidir nos dias 16 e 17 junho para sabermos quem presidirá o Egito. Se for o doutor Morsi, a Irmandade Muçulmana terá total controle do país. Se for Shafiq, ele precisará ser um pouco mais comedido justamente por causa das pressões externas e do Parlamento, mas ele tem o apoio do exército. Em suma, a complexa situação na política egípcia está longe de se estabilizar.