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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mohamed Morsi não é mais o presidente do Egito

Comemoração na Praça Tahrir.

Nesta quarta-feita (3) Mohamed Morsi foi oficialmente deposto. Os intensos protestos organizados pelos opositores resultaram em uma intervenção militar que tirou o (ex?) membro da Irmandade Muçulmana da chefia do poder executivo.

No passado dia 30 de junho Mohamed Morsi completou seu primeiro ano na presidência. Para que esta data realmente fosse marcante seus adversários organizaram intensos protestos que tinham apenas um fim: derrubar o presidente. Liderados pelo grupo Tamarod (rebelião), eles se mobilizaram no país todo e prometeram não descansar até que Morsi abandonasse o cargo.

A Irmandade Muçulmana, por sua vez, fez com que seus militantes se preparassem para defender a legitimidade do presidente. Desde sexta-feira eles acamparam em frente ao palácio presidencial esperando pelos opositores.

O exército disse que só iria interferir caso a situação se tornasse ainda mais caótica. E foi exatamente o que aconteceu. Na segunda-feira (1), através de um comunicado oficial, deram 48 horas para o presidente Mohamed Morsi apresentar uma resposta satisfatória ao povo. O engenheiro disse que seu poder estava em consonância com as forças armadas e que não toleraria qualquer golpe. Esta foi claramente uma resposta aos militares, e não aos manifestantes.

Nas ruas, pouco a pouco, os confrontos entre os pró e os anti-Morsi iam se intensificando. A sede da Irmandade Muçulmana em Alexandria foi atacada após um dos membros atirar contra os manifestantes. O Egito esteve (e para falar a verdade ainda está) à beira de uma guerra civil. Os relatos de violência (incluindo  46 agressões sexuais) e os 16 mortos deixam isso muito claro.

Mas como as coisas chegaram a este extremo?

Para entender as circunstâncias que levaram à queda de Morsi, devemos fazer uma retrospectiva até o cenário político egípcio logo que o ditador Hosni Mubarak foi deposto. Na época os militares também tiveram um papel vital, se encarregando das eleições parlamentares e da organização das presidenciais.

Como expliquei em minha análise da Primavera Árabe realizada no ano passado, a ascensão da Irmandade Muçulmana (da qual falei aqui e aqui) era mais do que lógica. Afinal de contas, não havia qualquer outro grupo organizado. No entanto, o fato de Ahmed Shafiq, ex-ministro das relações exteriores de Mubarak, ter ficado na segunda colocação revelou o receio que parte dos seculares sentiam da Irmandade e seu candidato.

A maioria dos observadores externos não sabia o que pensar da entidade. Para eles o fato de Morsi ter se afastado dela oficialmente (o que não corresponde à realidade) e algumas divergências iniciais com personalidades políticas muçulmanas mostravam que ele seria um presidente "moderado". A grande ajuda do governo Obama desde o início do mandato também moldou o pensamento das demais nações ocidentais.

Mediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas só abrilhantou a imagem de Morsi. Mas a "lua-de-mel" com o Ocidente durou pouco. A coisa começou a mudar de figura quando ele anunciou um decreto faraônico no qual submetia todas as decisões a seu poder sem revisão judicial até que uma nova Constituição fosse elaborada. Apesar do autoritarismo, não houve pressão externa e os protestos dentro do país foram facilmente controlados.

O autoritarismo da Irmandade e a desorganização da oposição

Passados alguns meses desde que assumiu o poder já era evidente o caráter autoritário de dr. Morsi e a influência da Irmandade no governo. Ainda que não tenha conseguido afastar a "ameaça" dos militares (Abdul Fattah Al-Sissi se tornou ministro da defesa) ele fez o que pôde (o general Hussein Tantawi foi aposentado compulsoriamente). Ademais, a disputa com o judiciário remanescente de Mubarak (por isso chamado de felul) era cada vez maior.

O único problema que Morsi não conseguia enfrentar era o da economia. Nem a ajuda do governo americano foi suficiente. O empréstimo do FMI não foi liberado porque as negociações emperraram. Enquanto isso o povo perecia e saía às ruas protestando contra o governo.

Não vendo outra saída possível, aqueles se intitulavam opositores formaram uma coalizão -- a Frente de Salvação Nacional -- capitaneada por Mohamed El-Baradei. A única coisa que os unia era a vontade de derrubar Morsi. Resultado: não houve qualquer discurso que pudesse ao menos propor uma alternativa para a população. Nada de propostas, apenas "Fora Morsi".

A gota d'água e a intervenção militar

Enquanto a oposição se concentrava em bater em Morsi e na Irmandade, a qualidade de vida dos egípcios ficava cada vez mais precária (o valor da libra caiu 25% em relação ao dólar desde o fim do governo Mubarak). Isso durou até o momento em que o povo resolveu dar um basta.

Durante todo o mês de junho os protestos se tornaram mais contundentes. A aliança de Morsi com o Al-Gama'a Al-Islamiya, um grupo assumidamente terrorista, só piorou as coisas. Na passada quarta-feira o presidente foi ridicularizado em público por seu discurso lamentável. O grupo Tamarod disse que juntou 22 milhões (!) de assinaturas pedindo sua saída. Os comícios organizados pela Irmandade foram insignificantes. 

Quando a situação política beirava o colapso os militares interviram. Após uma reunião com representantes da FSN, da Igreja Copta e muçulmanos, Abdul Fattah Al-Sissi, por volta de 21h00 horário local, anunciou as modificações e o plano político futuro para o Egito: (1) suspensão da Constituição; (2) eleições antecipadas serão realizadas; (3) a chefia do executivo ficará a cargo do presidente da Suprema Corte Constitucional (Adly Mansur); (4) será formado um governo de coalizão nacional; e (5) haverá uma comissão para analisar emendas à Constituição.

Em apoio à atitude dos militares e em tom conciliador falaram Mohamed El-Baradei, o papa copa Tawadros II e o grande imã de Al-Azhar, Sheikh Ahmed El-Tayyeb. Contudo, o que ainda preocupa é uma possível (e até provável) reação da Irmandade Muçulmana. O primeiro comunicado do grupo, que inclusive teve apoio do partido salafista Watan, dizia que este "golpe" não seria tolerado. E nem é preciso dizer que a Irmandade é uma organização extremamente forte e influente.

Concluindo: acho sim que a população tem motivos para comemorar (sobretudo os coptas) e vejo com bons olhos a intervenção militar. Só acho que este foi apenas o primeiro passo para os egípcios. Agora eles precisarão estar preparados pela resposta da Irmandade (seus partidários já cantaram "reação, reação, reação" depois do anúncio de El-Sissi) e para resistirem a este quadro econômico que ainda é demasiadamente complicado.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Qusayr caiu e levou consigo a moral dos rebeldes

Após 17 longos dias de batalha  Qusayr sucumbiu às forças de Bashar Al-Assad e do Hezbollah na quarta-feira (5), naquela que foi uma das derrotas mais duras para os insurgentes sírios. A cidade, que estava há cerca de um ano nas mãos dos rebeldes, servia como rota de abastecimento para suas tropas com suprimentos vindos do Líbano.

Qusayr localiza-se ao norte da fronteira com o Líbano e está próxima ao Vale do Bekaa. Era uma das poucas cidades do centro-sul da Síria que ainda estava sob o jugo dos rebeldes. Assim sendo, a mobilidade de tropas vindas do norte não foi uma surpresa. Para Assad o comando da cidade seria vital por três grandes motivos: (a) cortar a principal rota de abastecimento rebelde provinda do Líbano; (b) "limpar" o corredor que liga Damasco a Tartus e Latakia, cidades do noroeste sírio que são redutos da seita alauíta do presidente e que albergam grande parte de seus apoiadores (vale lembrar também que em Tartus está uma instalação estratégica naval russa); e (c) propiciar uma válvula de escape para que suas tropas tenham acesso também a Homs e de lá para outras áreas ao norte.

Reparem no corredor formado à esquerda.

A vital contribuição do Hezbollah

No mês passado o líder do grupo terrorista libanês Hezbollah, Sheikh Sayyed Hassan Nasrallah, gravou uma mensagem na qual deixava extremamente claro que apoiaria seu parceiro Bashar Al-Assad até as últimas consequências prometendo o envio de "dezenas de milhares de combatentes". Sua justificativa foi que o fluxo de estrangeiros nas fileiras rebeldes aumentou muito nos últimos tempos. E quanto a isso ele tem razão. O Syrian Human Rights Watch estima que 2.219 estrangeiros foram mortos lutando em nome dos rebeldes.

No entanto, o envio de militantes à Síria serviu também como uma espécie de laboratório para os terroristas xiitas. De 2006 para cá suas técnicas de treinamento foram modificas enfocando sobretudo táticas de guerrilha. Isso porque, segundo a própria liderança do grupo, tais artimanhas poderiam ser eventualmente utilizadas contra o "agente sionista".

A estratégia de guerrilha difere um pouco do antigo modus operandi do Hezbollah: nos anos de 1990 a luta ocorreu (contra israelenses) principalmente em territórios rurais, onde os milicianos precisaram aprender a se camuflar em um ambiente difícil de floresta densa; em 2006 os confrontos passaram a acontecer dentro de vilas e cidades, o que propiciou um aperfeiçoamento nas táticas de guerrilha (táticas estas que foram aprimoradas no Irã).

Qusayr era acessível para o Hezbollah.

Inicialmente, segundo Nasrallah, a constante movimentação de milicianos do grupo terrorista na região era apenas para "proteger civis libaneses". Mas logo que se viu que o objetivo era bem maior do que esse. No exato momento em que o exército de Assad começou a perder terreno em Homs, tropas mobilizadas em Hermel e no Vale do Bekaa foram prontamente acionadas para o apoio. O mesmo ocorreu em Qusayr.

No entanto, nesta última pudemos ter uma real dimensão do envolvimento dos terroristas xiitas e do quanto suas táticas recém-aprimoradas podem oferecer grande perigo a Israel futuramente. Citando um miliciano de nome Hajj Abbas, o jornal Daily Star forneceu mais detalhes sobre a batalha. O principal deles foi a efetividade do Hezbollah no confronto: o grupo terrorista utilizou cerca de 1.200 combatentes de suas forças de elite e comandou os ataques do solo, enquanto o exército de Assad ofereceu apoio aéreo. Engenheiros também foram mobilizados para, nas palavras do terrorista ao Daily Star, livrá-los de "maiores dores de cabeça" que poderiam ser acarretadas pelas armadilhas dos rebeldes.

A queda de Qusayr era uma questão de tempo.

Os rebeldes que lá estavam receberam reforços das brigadas Farouq, Al-Haqq, Mughaweer, Wadi, dos batalhões Quassion  e Ayman. Sobre o Jabaht Al-Nusra, poucos foram os que apareceram. Aproveitando a "fama" do grupo a mídia quis exagerar um pouco. De qualquer forma nem todo este deslocamento bastou para  que a cidade fosse mantida sob o jugo rebelde. A resistência foi brava, sem dúvidas, e eu diria até milagrosa. Mas contra milicianos bem preparados e que ainda contavam com grande auxílio do exército regular, seria impossível permanecer no comando de Qusayr.

Resultados políticos da batalha de Qusayr

Se a fragmentação do suposto Exército Sírio Livre (FSA na sua sigla em inglês) já era um motivo para a divisão política*, agora tudo ficará ainda mais complicado. Ainda que tenha perdido muitas cidades ao norte, a vitória sobre Qusayr foi uma das mais significativas até agora nesta guerra civil para Bashar Al-Assad.

Estamos no aguardo de uma nova reunião que resultará nas discussões de sempre sobre a saída imediata ou permanência de Assad, sua participação em um novo governo, etc. Enquanto isso, é bom lembrar que "oficialmente" o número de mortos já ultrapassa os 80 mil (para o SHRW estamos na casa dos 94 mil). E impasses nas negociações só irão gerar mais e mais mortos.

Outra consequência imediata da vitória de Assad com o apoio do Hezbollah é uma tendência ao aumento no número de combatentes estrangeiros pelo FSA (muitos deles jihadistas). É importante lembrar que o clérigo sunita do Qatar e pró-Irmandade Muçulmana, Sheikh Youssef Qaradawi, convocou todos os sunitas a lutarem contra Assad e contra o "Partido do Satã" (é assim que ele chama o Hezbollah, cujo nome significa "Partido de Allah").

*Com o passar do tempo e o aumento nas dificuldades para os rebeldes, a oposição fica cada vez mais dividada também no campo ideológico. Até o momento aqueles que, para os insurgentes, estão apresentando resultados são os extremistas islâmicos. Prova disso é o Jabaht Al-Nusra. Ademais, a Irmande Muçulmana também cresce exponencialmente dentro da oposição. Logo que Ghassan Hitto foi eleito PM interino da Coalizão Nacional Síria, o clérigo Moaz Al-Khatib (figura muito respeitada no Ocidente) renunciou.

sábado, 27 de abril de 2013

Se não é a Irmandade, quem então persegue os coptas?

No passado dia 14 fiz uma análise sobre as raízes do sectarismo no Egito que veio a ser publicada também na "Coluna do leitor" no portal da Reaçonaria. Gostaria, inclusive, de agradecer aos que me deram espaço para publicar o texto. Hoje me deparei com o tweet de Alice Salles dizendo que havia um post em resposta ao meu.

O texto em questão é do jornalista José Antônio Lima, que trabalha na revista CartaCapital e cobriu parte dos protestos que culminaram na queda de Hosni Mubarak. A crítica de Lima foi  postada em seu blog "Oriente Médio em Foco".

Nos parágrafos iniciais Lima comenta o caso de Al-Khasous que usei para introduzir a questão da perseguição aos coptas e a fala de Dom Rafael. No entanto, ele dá a entender que generalizo a questão atribuindo a violência contra os cristãos a todos os muçulmanos. Se passei esta impressão, me retrato agora: não disse que todos os muçulmanos egípcios perseguem os coptas, mas afirmo que é uma quantia bastante considerável. Nunca é demais ressaltar que os cristãos atualmente são os que mais sofrem perseguição por causa de sua fé. Neste link segue uma lista de atentados contra os mais diversos grupos cristãos desde 2001.

Já que se faz necessário, vou citar apenas um absurdo caso e seus motivos ainda mais assustadores. Em 2011 os responsáveis pelo poder local de Edfu aprovaram a reforma da Igreja de São George, construída há quase um século durante a "Idade de Ouro Cristã". A Igreja apresentava, inclusive, riscos aos fiéis tendo em vista o estado da edificação. Foi só o projeto ser aprovado que começaram os protestos por parte dos muçulmanos. Dentre suas primeiras reivindicações estava a abolição de cruzes e sinos, porque elas "irritavam os muçulmanos e seus filhos". Em seguida foram mais além, dizendo que a cúpula da Igreja deveria ser demolida. Com a recusa do bispo, houve intensos protestos dos muçulmanos, que ameaçaram demolir a Igreja e construir uma mesquita em seu lugar. Como se não bastasse isso, os coptas foram proibidos de sair de suas casas até que a cúpula fosse removida.

O ápice do embate se deu em dezembro do mesmo ano quando 3 mil muçulmanos, após as orações de sexta na Igreja, incendiaram e demoliram a cúpula. Focos do incêndio se espalharam por casas próximas e ainda houve saques. Até mesmo o governador da vizinha Aswan concedeu uma entrevista a TV negando qualquer incêndio e dizendo "que os coptas cometeram um erro e foram punidos". Que erro seria esse? Provavelmente não ser muçulmano.

Para que tudo fique ainda mais claro, grandes intérpretes da Sharia -os ulemás- que servem de referência aos islamistas proferiram seus pareceres com respeito aos cristãos. Um deles foi Ibn Taymiyya, confirmando que "os ulemás das quatro escolas de Direito -Hanafi, Shafi'i, Maliki e Hanbali- concordaram que se o iman destrói todas as igrejas em terras tomadas pela força, como Egito, Sudão, Iraque, Síria...isso não seria injusto". Taymmiya acrescenta ainda que, se os cristãos resistirem, eles "perderão sua aliança, sua vida e seus bens". 

Mais casos podem ser encontrados no estudo "Death to Churches Under Islam: A Study of the Coptic Church", que conta as origens do sectarismo contra os coptas e cita inúmeras informações do famoso historiador muçulmano Taqi Al-Din Al-Maqrizi.

Ascensão da Irmandade e sua rede de contatos

Lima diz que atribuo apenas à Irmandade Muçulmana "um problema que é do Egito". Isso não é verdade, tanto que também citei as políticas de Gamal Abdel Nasser e Anwar Al-Sadat que foram, para dizer o mínimo, contraditórias. O que não se pode negar de forma alguma é a natureza fundamentalista da Irmandade que se engendrou, desde 1928 (ano de sua fundação como mencionei também em meu texto anterior) no seio da sociedade egípcia. Sempre é válido lembrar que foi Hassan Al-Banna quem disse: "o voto para as mulheres é a rebelião contra o Islã e a humanidade".

Dizer que o governo se mostra, "por enquanto, incompetente" para lidar com o problema dos coptas é um eufemismo. Há casos evidentes de incitação à violência contra os coptas por parte de membros da Irmandade Muçulmana. Atualizações a respeito podem ser conferidas no twitter do ativista político copta Dioscorus Boles. Vale a pena ler também a entrevista do Papa copta Tawadros II concedida a Reuters nesta semana.

Em se tratando das relações dos muçulmanos com a Alemanha Nazista, Lima me contraria dizendo que "meia palavra não basta". Pois bem. Passo a discorrer sobre o tema. Como já salientei, a Irmandade Muçulmana foi financiada com recursos vindos diretamente do regime Nazista. Mas por que este interesse nos fundamentalistas islâmicos? Usar a definição de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo" vem a ser ainda mais simplista ao abordar este tema.

Não nego que certos princípios em comum nortearam as relações de afinidades entre nazistas e muçulmanos. Mas não foi apenas isso. Em seu livro "A Mosque in Munich", o jornalista Ian Johnson traz mais detalhes sobre a ascensão da Irmandade, os quais comentarei aqui. Vamos por partes. Johnson começa dizendo que a aliança muçulmano-Nazista teve seu início com a repressão dos primeiros por parte do regime soviético. De olho no petróleo do Cáucaso e no apoio da oprimida comunidade muçulmana, Hitler viu uma oportunidade de ser o "salvador" e ofereceu seu apoio. Os laços se intensificaram ainda mais graças ao anti-semitismo enraizado nas duas partes.

Algo que Lima faz com muita precisão em seu texto é citar Hajj Amin Al-Husseini, o grande mufti de Jerusalém. Ele foi conhecido por ser uma figura proeminente do movimento islamista radical, dando impulso a inúmeras revoltas e mantendo estreitos laços com nomes de alto prestígio junto a Adolf Hitler (relata-se Adolf Eichman e Heinrich Himmler). Husseini foi ainda o responsável pela criação da divisão Handzar dentro da SS, composta por muçulmanos da Iugoslávia.

Como bem lembrado por Lima, "muitos palestinos serviram no exército britânico e centenas de milhares de árabes do Império Francês lutaram pela libertação da França". Quanto aos palestinos, ainda consegui números: foram cerca de 6 mil os que lutaram pelo exército britânico. Ademais, cerca de 26 mil voluntários muçulmanos e judeus serviram lado a lado pelos aliados. Tais informações jamais podem ser dispensadas.

Mas, concomitantemente a isso, Husseini via crescer cada vez mais seu poder em todo o Oriente Médio. Só na Palestina ele exterminou 11 clãs que faziam oposição a suas políticas e não viam com maus olhos a chegada de judeus. Ademais, o grande mufti teve vasta influência sobre a Irmandade Muçulmana ainda em seus primeiros estágios.

É normal que, em meio a isso, se faça uma pergunta: se a Irmandade foi próxima do regime Nazista, porque nenhum governo ocidental tentou coibi-la ou incentivar outros movimentos? Este questionamento, inclusive, foi um dos primeiros a brotar em minha mente tão logo iniciei os estudos a respeito do tema. Para respondê-lo, volto a citar o livro de Johnson. 

Segundo o autor, o governo americano viu nos movimentos políticos islamistas uma oportunidade para conter o avanço do comunismo (que seria o passo prévio a derrubada). Em primeiro lugar os EUA trabalharam com imigrantes muçulmanos ex-nazistas não-russos com sede na Alemanha. Posteriormente, vendo o sucesso de tal empreendimento, os muçulmanos também estiveram presentes no segundo passo de combate ao comunismo, envolvendo operações secretas, guerra econômica, sabotagem e propaganda.

Johnson escreve que o ano de 1953 foi fundamental para a Irmandade Muçulmana, quando, antes de uma conferência em Princeton, os líderes do movimento pediram uma audiência com ninguém menos do que o presidente Eisenhower. Para que isso pudesse ocorrer, logicamente, os dois lados "apagaram" quaisquer envolvimentos do então líder da Irmandade, Tariq Ramadan, com Husseini e Al-Banna. A reunião entre ambos era mesmo urgente e, principalmente, inevitável, tendo em vista que, neste período, a União Soviética estava revendo suas políticas com relação os muçulmanos, financiados algun imãs a seu favor. 

Ramadan foi, neste contexto, a voz que os EUA precisavam para combater o avanço do comunismo no Oriente Médio. Se esta política deu certo para os americanos não podemos afirmar, mas para a Irmandade sim. Com o dinheiro angariado através de seu proselitismo, Ramadan conseguiu financiar a construção de mesquitas e criou uma extensa rede de controle para a Irmandade, incluindo uma revista com função de propaganda, uma organização estudantil e a Liga Muçulmana Mundial. Em outras palavras, a militância muçulmana tomou grande corpo também no Ocidente.

Mas então quer dizer que a Irmandade não mudou?

Sim. Mas foi uma mudança "para inglês (ou americano não é mesmo, senhor Obama?) ver". E deu certo. Tanto que os Estados Unidos continuam financiando a organização mesmo com seu caráter sectário. Lima adverte que há divergentes facções dentro da Irmandade e chama atenção ainda para o fato de que a facção dita "mais conservadora" assumiu o controle do grupo, "afastando os mais moderados das decisões".

Concordo que há divergências dentro da Irmandade, mas acredito também que as convergências sejam bem maiores. Explico: antes de começarem a discutir entre si é necessário tomar e estabelecer o poder, juntamente com a Sharia. Só no final das contas, quando o objetivo maior for alcançado é que eles deverão parar para colocar suas divergências sobre uma balança.

Nunca podemos esquecer que Mohamed Morsi, presidente do Egito e membro da Irmandade, foi quem disse que "judeus são descendentes de porcos e macacos". Esta é a tolerância da entidade? É assim que um governo democrático lida com as diferenças?

Para finalizar meu longo texto, reitero que Lima utilizou a palavra "moderados" para se referir a membros da Irmandade que, segundo ele, foram afastados das decisões. Acho importante dizer que, em se tratando de Irmandade Muçulmana, não consigo imaginar alguma membro que seja realmente "moderado". Ora, o Dr Wagdi Ghoneim, personagem de grande influência no Conselho de Relações Islâmico-Americanas, já chegou a dizer que, caso houvesse oposição por parte dos coptas, eles "seriam varridos da face da terra".

domingo, 14 de abril de 2013

Raízes do sectarismo no Egito

Precisa de legenda?

Existe uma palavra no idioma russo chamada Pogrom. Ela se traduz, em linhas gerais, a algo como "destruir inteiramente". O vocábulo ganhou destaque internacional quando, entre 1881 e 1884, no sul da Rússia, os ataques contra a população judia se intensificaram (segundo consta foram até incentivados pela Okhrana). Um Pogrom é um ataque maciço e violento contra determinados grupos -geralmente religiosos- visando as pessoas e seus ambientes. Ataques como este vêm acontecendo no Egito há muito contra os cristãos coptas -que compõem 10% da população- mas não ganham grande destaque na mídia.

A mais recente escalada de violência se deu no início deste mês, quando quatro cristãos e um muçulmano morreram após confrontos na cidade de Al-Khasous. Os enfrentamentos ficaram mais intensos justamente no velório dos coptas, quando a Catedral de São Marcos foi atacada por vários manifestantes. Segundo fiéis cristãos, a polícia, ao invés de tentar apaziguar a situação, atirava gás lacrimogênio contra a Catedral. "A polícia está atirando gás em nós, eles estão tomando parte daqueles que nos atacam", relatou um jovem citado pelo Ahram (1).

Uma reunião foi realizada às pressas em Al-Khasous visando uma reconciliação entre muçulmanos e coptas. Estes últimos, representados pelo Conselho Consultivo da Organização Copta, fizeram fortes reivindicações e acusaram expressamente a polícia de tomar parte nos ataques. "O plano de luta sectária foi coroado pelas agressões por parte das forças de segurança na Catedral de São Marcos", rezava um trecho do comunicado. Ademais, exigiu-se uma retratação da posição tomada pelo Ministério do Interior dias antes, que condenava expressamente os cristãos pelo tumulto em Al-Khasous. Até o momento nada foi decidido (2).

Comprovando que ocorre justamente o contrário do proclamado pelo Ministério do Interior, o bispo Dom Rafael orientou seus fiéis a se manterem firmes: "Vocês só podem honrar os mártires ficando calmos e orando por eles" e ainda acrescentou que "esta ferida profunda me deixa com três mensagens. Uma para o céu...nós acreditamos na justiça divina...Cristo nos ensinou que ele vinga o sangue dos mártires e que eles não são esquecidos por Deus.

"Minha segunda mensagem é dirigida ao Egito: nós não vamos sair. Os governos não podem exercer seu poder através do derramamento de sangue. Minha última mensagem é dirigida aos coptas do Egito: nós não devemos abandonar nossa fé. O derramamento de sangue só nos deve fazer abraçá-la ainda mais!"

A segunda mensagem, que começa com "nós não vamos sair", sugere  o intuito dos ataques muçulmanos: a expulsão da população copta. Mas por que? Quando esta violência sectária começou? Quando muçulmanos e coptas chegaram ao Egito? Algum dos grupos têm mais direitos que o outro? Estas perguntas serão respondidas no próximo tópico.

O início das hostilidades

Em meu ensaio, cujo mote era a Primavera Árabe, intitulado "Os rumos da revolução" comentei sobre a partir de quando o Egito passou a ser dominado efetivamente por muçulmanos:

"Basicamente o Egito foi dominado desde 1805 até o início da década de 1950 pela dinastia Muhammad Ali. Esta iniciou-se com Muhammad Ali Pasha, comandante albanês do Império Otomano que seria encarregado de forçar a retirada das tropas francesas da região. Após fazê-lo, decidiu ficar a formar para si um protetorado que, com o tempo, tornou-se mais próspero economicamente que o próprio Império Otomano, abrangendo também o Sudão. Em meados de 1880 deu-se o domínio britânico, mas a dinastia Muhammad Ali seguiu no poder, sem qualquer oposição ao subjugo da Grã-Bretanha".

O excelente Egypt Independent (3) trouxe uma cronologia completa da violência sectária contra cristãos, enfatizando que ela se intensificou após o golpe militar que, em 1952, destituiu a monarquia. Antes disso, o episódio que ganhou maior destaque foi o assassinato do primeiro-ministro copta Boutros Ghali Pasha*, acusado de favorecer o imperialismo britânico. Ademais, ele -pese o fato de ser copta- foi nomeado chefe de uma comissão seletiva de juízes para o tribunal da Sharía. Nem é preciso dizer o quão desgostosos ficaram os muçulmanos.

Passada a monarquia e o golpe militar, o general Mohamed Naguib assumiu o poder (1952). Promovendo ampla abertura tanto política quanto econômica ele não agradou e foi substituído por Gamal Abdel Nasser. Sobre Nasser também escrevi algumas palavras anteriormente:
"(...) outro militar forte e idealizador da revolução, o coronel Gamal Abdel Nasser, não estava contente com a perspectiva de que conservadores religiosos - Irmandade Muçulmana- chegassem ao poder. A partir daí começou uma disputa entre Nasser e Naguib, sendo vencida pelo primeiro que instaurou uma ditadura nacionalista no país. Apesar do acordo de armas com a Checoslováquia e do financiamento soviético, Nasser nunca se declarou  pró-URSS. Seu lobby estava entre os não-alinhados e seu "carro-chefe" era o pan-arabismo. Dentro do Egito, ele perseguiu seus opositores (até mandou matar os que tentaram assassiná-lo pouco antes de ele assumir o poder) e deixou a democracia apenas para alguns discursos. Na prática, nada".
Sobre o governo Nasser, Tarek Osman, do Ahram, ponderou aspectos interessantes. Segundo o colunista, o general inicialmente teve o apoio dos coptas, que compunham boa parte da elite econômica desde a monarquia. No entanto, suas medidas populistas representadas pelo supracitado Pan-Arabismo e grande simpatia pela URSS afastaram os coptas mais ricos para os Estados Unidos e Europa. E isso fatalmente refletiu na derrocada da proteção dos cristãos, cujos principais defensores já não mais se encontravam no país (4).

O general Nasser morreu em 1970, vítima de um infarto. Anwar Al-Sadat, vice-presidente, assumiu o governo:
"Muitos viam Sadat como um político fraco e manipulável, mas ele mostrou o contrário. Utilizou-se de inúmeras estratégias que o mantiveram no poder e procurou um distanciamento das políticas ditatoriais de seu antecessor: incentivou os movimentos islamistas tirando a Irmandade Muçulmana da clandestinidade; promoveu uma aproximação com o Ocidente; e, no âmbito econômico, instaurou a Infitah, que foi a abertura do Egito para investimentos externos e privados".
 Sadat, após a surra que seus aliados estavam tomando de Israel, decidiu pôr fim aos conflitos e, em 1979, assinou o "Tratado de paz egípcio-israelense". Apesar da popularidade externa nos anos finais de seu mandato, Sadat estava sendo pressionado internamente. A Irmandade Muçulmana ganhou cada vez mais força até que o presidente a reconheceu legalmente (coisa que Nasser nunca fez). A entidade foi fundada em 1928 por Hassan Al-Banna e sempre contou com um forte diálogo anti-semita e fascista. Durante a Segunda Guerra Mundial foi financiada pela Alemanha Nazista.

Como o respeitado historiados norueguês Brynjar Lia contou em seu relatório sobre a Irmandade Muçulmana, "documentos apreendidos no apartamento de Wilhelm Stellbogen, diretor da agência de notícias alemã no Cairo, mostram que antes de 1939, a Irmandade Muçulmana recebeu subsídios financeiros da delegação alemã no Cairo. Stellbogen foi fundamental na transferência desses fundos" (5).

Para bom entendedor meia palavra basta. Quando Sadat chegou ao governo a força política da Irmandade já era imensa e não poderia mais ser desprezada. Qualquer garoto do colegial sabe que um movimento político precisa, antes de ter condições de exercer qualquer influência, passar por um período de maturação. Assim foi com a Irmandade Muçulmana. Aos desavisados que suspeitam uma fuga do assunto por parte do escritor, fica um aviso: aumento do poderio da Irmandade significa maior supressão dos cristãos coptas. Ao passo que a entidade muçulmana se fortalecia, ocupava os espaços antes dominados pelos cristãos. Esta tática os lembra alguma coisa?

Governo Mubarak

Anwar Al-Sadat foi assassinado em 1981:
"Em 1981, durante uma parada em carro aberto no Cairo, ele foi assassinado. O comandante do grupo executor, Khalid Islambouli, foi condenado a morte um ano depois. Para muitos, Hosni Mubarak teve participação ativa no golpe, não só por ter saído ileso como também pelas inúmeras "coincidências" que se deram no momento: a inatividade dos seguranças presidenciais e caças passando sobre o presidente no exato instante que os tiros foram disparados".
Com Hosni Mubarak no poder houve uma falsa sensação de segurança entre muçulmanos e cristãos. O ditador, mesmo sabendo a força da Irmandade Muçulmana, voltou a torná-la ilegal e organizou uma censura para seus meios de comunicação. Quem estava de fora pensou que a militância fora desbaratada. Contudo, o oposto acontecia e seu crescimento gradativo não foi interrompido. O que Mubarak fez foi evitar, por meio da força, que distintos grupos tivessem contato dentro do Egito. Liberais, coptas e muçulmanos viveram separados até o levante que derrubou o ditador.

Primavera Árabe

É unanimidade entre os especialistas que a revolta egípcia foi de cunho espontâneo. Apesar do exemplo da Tunísia, Mubarak acreditava que poderia coibir os manifestantes. Foi assim durante muitos meses. Fazendo uma reflexão mais profunda, nem mesmo a Irmandade acreditava na queda do ditador. Elucido meu argumento com a frase que tanto vinculou nos meios de comunicação egípcios: "a Irmandade foi a última a entrar na Praça Tahrir e a primeira a sair".

Os membros da Fraternidade só entraram de vez na revolução quando tiveram absoluta certeza da derrota de Mubarak. Ao cabo de tudo, para os que acreditavam que ela havia sido suficientemente reprimida no governo Mubarak, Mohamed Morsi, um proeminente membro, foi eleito presidente na primeira eleição democrática da história do Egito.

Os motivos para a eleição de Morsi foram mencionados em todos os parágrafos acima. Se faz mister destacar agora a situação dos coptas, que é claramente insustentável. Com um presidente da Irmandade Muçulmana, entidade de cunho fascista que persegue desde seu início cristãos e judeus, o que pode ser feito? Sua esperanças estariam depositadas na oposição, caso nesta não imperasse o caos. A suposta "organização" Frente da Salvação Nacional apenas engloba todos aqueles que se dizem contra o governo, mesmo sem ter uma agenda fixa e planos para fazer frente ao trabalho da Irmandade.

O grupo militante muçulmano esperou 84 anos para assumir o poder e dificilmente sairá de lá. Enquanto isso, a perseguição aos coptas não irá cessar até que tais "forças" de oposição tenham em mente que este é um dos objetivos criminosos da Irmandade e que precisa claramente ser coibido antes que mais pessoas inocentes morram unicamente por expressarem a sua fé.



(1). Politically charged Coptic funeral ends in violence, one Death. Al-Ahram
(2). Seventh death in Al-Khousous. Daily News Egypt.
(3). Roots of religious violence lie booth state and society. Egypt Independent.
(4). Understending sectarianism in Egypt. Al-Ahram.
(5). Fascismo islâmico: a conexão Nazista. Gary Aminoff.
FOTO: The Jewish Press.

*Alguns devem estar se perguntando sobre a palavra "Pasha" (pronuncia-se "paxá" em português) acrescentada após os nomes de Muhammad Ali e Boutros Ghali. Ela não designa um sobrenome, mas sim uma alta honraria. Era muito comum tanto no Império Otomano quanto na monarquia egípcia. Alguns autores colocam como a equivalência muçulmana ao título de cavaleiro na Grã-Bretanha. Boutros Ghali foi o primeiro copta a receber tal honra no Egito

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Após decreto faraônico, Morsillini lança o projeto de Constituição

Morsillini tendo atitudes de seu antecessor.

Como mencionei no primeiro podcast do Internationale Actuelle, o presidente egípcio Mohamed Morsi ficou com muita moral após mediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Estes "bons ventos" o fizeram anunciar, logo depois, um decreto faraônico onde concentrava todos os poderes em suas mãos até que uma nova constituição fosse elaborada no país. Ademais, nenhuma de suas decisões precisaria passar por qualquer revisão judicial.

Mas com que intuito fez isso? Alguns colocam tal atitude como puro despotismo por parte dele e outros como jogada de poder da Irmandade Muçulmana. O mais provável é que ambos estejam corretos. No entanto, vamos analisar a ordem dos fatos: assim que Morsi foi eleito (realmente poucos dias depois) o Parlamento foi dissolvido pelo SCAF (Conselho Supremo das Forças Armadas) em virtude do descontentamento da população. Vale mencionar que o Partido da Liberdade e Justiça ( Irmandade Muçulmana ou Ikhwan), detinha a maioria dos assentos.

Vendo o poder do SCAF, Morsi resolveu tomar uma atitude e afastou a maioria dos generais de seu entorno. Este era apenas o primeiro passo para que ele e seu partido tomassem definitivamente o poder. Aos poucos os membros da Irmandade foram introduzidos nos principais ministérios, deixando os papeis coadjuvantes para cristãos (coptas), liberais e mulheres. Até aqui nenhuma surpresa.

O problema é que nas últimas semanas houve uma série de absolvições de ex-membros do governo Hosni Mubarak. Isso jogou a população contra o Conselho dos Magistrados e deu espaço para a Irmandade agir. Aproveitando-se do momento o presidente lançou o decreto visando proteger sua  nova Assembleia Constituinte- que também corria o risco de ser dissolvida pelo Supremo Tribunal Constituinte- e garantir que suas decisões não sofreriam quaisquer interferências de pessoas ligadas ao antigo regime.

Justificativa inteligente mas não correta. O professor Nathan Brown explica por que: "todos os membros da corte eram de fato nomeados pelo presidente. Mas a maioria foi indicada pelos próprios juízes e sua nomeação resultou em mera formalidade cumprida por Hosni Mubarak.

"O ex-chefe de justiça, Farouk Sultan, era de fato um 'fantoche' de Mubarak, mas ele teve apenas um voto e se aposentou no verão. Em seguida foi substituído por um presidente escolhido por juízes do tribunal".

Em suma, o tribunal, diferentemente de outros setores dos três poderes do atual Egito, não é composto por muçulmanos. Tal situação poderia se converter em uma pedra no sapato do presidente, haja vista que a dissolução da Assembleia Constituinte já era tratada como iminente. Recordam-se que no início mencionei uma possível jogada política de Ikhwan? Pois então, para Eric Trager, especialista na Irmandade Muçulmana o partido não tem nada de democrático e as esperanças externas alimentadas após a eleição de Morsi foram extremamente ingênuas.

"O partido não tem nada de democrático", afirmou Trager, "o próprio processo pelo qual o jovem se torna um irmão muçulmano é feito para 'descartar' os mais moderados. Os que prosseguem passam pela lavagem cerebral que consiste em memorizar trechos do Alcorão e textos de Hassan Al-Banna, fundador da entidade".

Tiger também recorda que a Irmandade não tolera pluralismos. Para aclarar esta afirmação ele menciona que, após a queda de Mubarak, os membros que não apoiaram a criação de um único partido foram expulsos. Inclusive Abouel Fotouh, que era o candidato favorito da entidade para a presidência, foi banido por discordar de algumas posições.

No projeto de Constituição que precisará passar ainda por um referendo popular, vemos com muita clareza as influências de Ikhwan. O segundo artigo diz o seguinte: "O Islã é a religião do Estado e seu idioma oficial é o árabe. Princípios da Sharía islâmica são a principal fonte da legislação". Saber que a Sharía inspira a Constituição egípcia não é a melhor das perspectivas.

Logicamente a vertente mais radical da lei islâmica não será aplicada no Egito como em outros países, mas o simples fato de a Sharía ser mencionada é mau sinal. Tentando amenizar a situação há outros artigos pregando a igualdade  absoluta entre homens e mulheres. Além disso, a liberdade religiosa é garantida. Vamos ver se isso funciona na prática. Os cristãos coptas já cansaram de ser perseguidos e acusados -em certa ocasião pela própria Irmandade Muçulmana- de inimigos do Islã.

Outro artigo que chamou a atenção foi o 31. Nele está escrito: "Insultar ou injuriar qualquer ser humano deve ser proibido". Analisando superficialmente parece normal. Mas a verdade é que este artigo pode ser utilizado para "neutralizar" aquele que garante liberdade de imprensa. Explico: se algum jornalista por acaso criticar o presidente, pode ser acusado de "insulto" (não importando as palavras que use), já que no artigo não há a especificação de como deve ser este "insulto".

É importante também mencionar o artigo 64. Por intermédio dele o governo garante sustentar as famílias daqueles que morreram na revolução que derrubou o ex-ditador Hosni Mubarak. Uma obrigação que, felizmente, foi colocada no papel.

Só saberemos de fato se esta será a nova Constituição do Egito após o referendo popular. Até lá veremos como o presidente-faraó Mohamed Morsi se comporta. Ademais, a coisa não deve ser tão fácil quanto parece. A oposição não vai deixar barato tanto acúmulo de poder nas mãos da Irmandade Muçulmana.