sábado, 6 de outubro de 2012

Será mesmo que o "Sonho Georgiano" foi realizado?

Reparem no que está escrito atrás. ECONOMIST.

Na semana passada tivemos eleições parlamentares na Geórgia e, para grande surpresa do Mundo Ocidental, os opositores do partido Sonho Georgiano venceram o Movimento Nacional Unido do presidente Mikheil Saakashvili e terão 82 deputados no Parlamento.

Estas eleições demonstraram que o povo georgiano queria mudança mas não sabia muito bem como fazê-la. A verdade é que o Sonho Georgiano é uma coalizão de pequenos partidos que se uniram por dois motivos: o ódio por Saakashvili e o dinheiro do bilionário Bidzina Ivanishvili. Agora nada mais os segura juntos. Diferentemente do grego Syriza, que uniu esquerda radical e moderada, o Sonho Georgiano conseguiu juntar até mesmo liberais (Alasania), nacionalistas (Frente Nacional), democratas livres e centro-esquerdistas. Bagunça total.

O responsável por tudo isso foi o senhor Bidzina Ivanishvili. Mas ele tem mesmo tanto dinheiro a ponto de unir partidos tão distintos? Sim! Sua fortuna é avaliada em 6,4 bilhões de dólares, pouco menos da metade do PIB georgiano (14, 37 bilhões de dólares). Como se não bastasse isso, ele é um grande aliado de Vladimir Putin, haja vista que construiu sua fortuna na Rússia e tem o passaporte do país. Inclusive um tribunal local revogou sua cidadania georgiana já que ele também possui passaporte francês. Depois do incidente o futuro premiê disse que abdicará de ambos passaportes.

O MNU, por outro lado, foi o grande derrotado. Fazendo um breve retrospecto, o partido e seu líder -o presidente Mikheil Saakashvili- chegaram ao poder efetivamente em 2004, após o sucesso da Revolução Rosa um ano antes. Para quem não sabe, este movimento pacífico derrubou o presidente-quase-ditador Eduard Shevarnadze graças a um massivo protesto de pessoas que se dirigiram ao Parlamento com rosas nas mãos pedindo a saída do mandatário.

De lá para cá o senhor Saakashvili, que é (bastante) pró-ocidental, promoveu um grande desenvolvimento no país, sobretudo no que tange educação e segurança. A abertura a investimentos externos contribuiu demais para estes novos projetos. As forças policiais, que eram tão corruptas quanto Shevarnadze, foram aos poucos substituídas e reformuladas. O progresso havia chegado.

Conhecem aquele clichê que diz "o poder subiu à cabeça?" Pois então, foi exatamente esta a acusação feita contra Saakashvili que motivou a derrota de seu partidos nas eleições parlamentares. Apesar de sua imagem externa ter ficado pouco desgastada após o conflito contra a Rússia por causa da Ossétia do Sul em 2008, a população local ficou muito descontente.

Ademais, ao longo do tempo ele promoveu reformas limitando os poderes do presidente e ampliando os do Parlamento e do primeiro-ministro. Segundo alguns analistas esta foi uma jogada estratégica para que ele pudesse abandonar o cargo de presidente e assumir o de premiê. Basicamente como Dmitry Medvedev e Vladimir Putin fizeram na Rússia. Neste caso seu Medvedev seria o ministro do interior Vano Merabishvili.

Pelo visto a jogada não deu certo. Agora a Geórgia irá experimentar -ao menos por um ano- o que é ter um premiê e um presidente divergentes. Ainda que seus atuais poderes o permitissem escolher o novo chanceler, Saakashvili foi inteligente e deixou tudo nas mãos do Parlamento, que colocará Ivanishvili no poder.

No ano que vem serão realizadas eleições presidenciais e Saakashvili não poderá concorrer para um terceiro mandato consecutivo. Isso gera uma dúvida enorme acerca da situação política do país porque poucos nomes no MUN despontaram até o momento. Além disso, o Sonho Georgiano é fragmentado demais para escolher um candidato.

sábado, 22 de setembro de 2012

Como estragar uma campanha presidencial

Pelo visto não é só carisma que falta a ele.

Como já foi dito aqui, a campanha de Mitt Romney não era das melhores desde seu início. Esperava-se uma mudança com o anúncio de Pul Ryan como vice, mas nada aconteceu. Depois foi a vez da convenção republicana ser o centro das atenções, mas nada mudou. A única coisa que chamou a atenção nesta convenção foi Clint Eastwood falando com a cadeira. À parte disso, seguiram as gafes do candidato republicano.

Não é segredo para ninguém que Romney nunca pertenceu à ala mais conservadora do Partido Republicano. Ele sempre foi moderado. Prova disso é que Paul Ryan é do Tea Party. O problema é que, para conseguir votos, Romney tem mudado constantemente de postura e tal defeito fica cada vez mais evidente na sua campanha.

Como se não bastasse tudo isso, o ex-governador de Massachusets não consegue passar muito tempo sem cometer uma grande gafe. Primeiro foi a crítica a Londres, depois ao povo palestino e, nas últimas semanas, vieram as piores. Logo após o atentado que vitimou o embaixador americano na Líbia, Chris Stevens, o candidato republicano fez fortes críticas à política externa do governo Obama.

Ele não poderia ter escolhido momento mais delicado e impróprio para fazê-lo. Além de serem críticas infundamentadas, pouquíssimas pessoas do Partido Republicano ficaram a seu lado. Esta atitude pareceu mais a de um candidato desesperado querendo votos. Ele quis se aproveitar da situação para fragilizar ainda mais Obama, mas o tiro saiu pela culatra.

Contudo, a pior das gafes veio alguns dias depois quando um modesto jornal de esquerda divulgou um vídeo em que Romney falava com milionários que iriam financiar a sua campanha. O vídeo foi gravado no mês de maio em Boca Raton, na Flórida. A declaração que gerou tanta polêmica foi a seguinte:

"Há 47% de pessoas que votarão em Obama, não importa o que aconteça. Há 47% que estão com ele, que são dependentes do governo, que acreditam ser as vítimas, que acreditam que o governo tem a responsabilidade de cuidar deles, que acreditam que eles têm direito a cuidados de saúde, à alimentação, à moradia e que isso é um direito que o governo deveria fornecer a eles. Eles vão votar no presidente de qualquer jeito...estas são as pessoas que não pagam imposto de renda...meu trabalho não é me preocupar com elas. Nunca vou convencê-las de que devem assumir a responsabilidade pessoal e cuidar de suas vidas".

Se isso parece um absurdo só pela primeira leitura, ficarão ainda mais abismados se pararem para pensar em duas coisas. A primeira é que, como disse David Brooks, Romney parece não conhecer o país onde ele vive. O candidato deveria saber que tais benefícios sociais ganharam muita força durante os governos republicanos. O grande (!) Ronald Reagan é um bom exemplo disso.

A segunda coisa é a seguinte: Romney se referiu de forma amplamente equivocada sobre os impostos. Realmente as pessoas mencionadas por ele não pagam imposto de renda, mas isso acontece porque eles não têm renda suficiente para arcar com tal despesa. Além do mais, o senhor Romney desprezou completamente o fato de estas pessoas pagarem impostos sobre seus salários.

Para finalizar, faz-se necessário citar novamente David Brooks: "O comentário de Romney é uma fantasia de country club. É o que os milionários dizem uns aos outros. Isso reforça cada vez mais a visão negativa que as pessoas têm sobre ele".

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Entrevista de Putin: Síria e a Primavera Árabe

Vladimir Putin.

Nesta quinta-feira (06) o RT divulgou a tão aguardada entrevista com o presidente russo Vladimir Putin. Pese o fato de isso ter acontecido justamente depois dos investimentos massivos do mandatário no canal, o jornalista Kevin Owen tentou tocar em algumas feridas. Neste primeiro post falarei sobre as declarações de Putin com respeito ao conflito na Síria e a Primavera Árabe.

Rússia e China usaram, desde o princípio dos conflitos, seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU para evitar qualquer intervenção direta na Síria. Para o governo russo os cidadãos do país é que devem decidir qual seu futuro pelas vias diplomáticas. Quando questionado sobre o assunto e também sobre o altíssimo número de mortos, o presidente disse o seguinte:

"E por que só a Rússia precisa reconsiderar sua posição? Nossos sócios no processo de negociação não poderiam reconsiderar seu posicionamento?" Putin segue firme contra qualquer intervenção militar estrangeira e tomou como exemplo os casos de Afeganistão e Iraque, que até o presente momento seguem em uma situação bastante caótica: "nos preocupa, seguramente, a violência na Síria, mas também nos preocupa o que poderá acontecer depois das decisões correspondentes", completou o presidente.

Logicamente não é uma opinião absurda, mas o que impressiona é a frialdade de Putin quando o entrevistador falou a respeito das mortes. Sabemos que será quase impossível que o problema seja resolvido por vias diplomáticas, já que ambas as partes não têm condições de voltar atrás.

O comandante-em-chefe também falou sobre a Primavera Árabe para tentar explicar o que pode acontecer com a Síria: "Ainda é difícil dizer se são para o bem (as revoltas) ou podem trazer grandes problemas. Em todo caso, como se passaram de uma forma pouco civilizada, com tamanho nível de violência e, ao menos por enquanto, não culminaram na criação de estruturas políticas estáveis que possam resolver os problemas econômicos e sociais dos respectivos países.

"Porque, por fim, apesar de tudo os povos de tais nações, cansados dos regimes passados, esperam dos novos governos decisões eficazes sobretudo no que tange a problemas sociais e econômicos. Mas se não há estabilidade política estes problemas não poderão ser resolvidos".

Sua declaração não poderia ser mais contraditória. Primeiramente ele criticou os regimes ditatoriais anteriores às revoltas mas logo depois se mostrou preocupado com a forma que tomaram os acontecimentos e a estabilidade dos países. Mas como é possível derrubar ditadores que estão há muitos anos no poder e criar uma "atmosfera habitável" em menos de dois anos?

Ele criticou Tunísia, Egito e Líbia. Os três já passaram por eleições e estão tentando entrar nos eixos. Francamente, isso está acontecendo de maneira veloz. Na Tunísia, o único "desconforto" surgido pós-revolução foram os protestos dos salafistas, que estão se intensificando este ano.

No Egito, a Irmande Muçulmana assumiu o poder, conseguiu afastar a cúpula do exército que estava em torno do governo desde o regime de Hosni Mubarak e estão governando de uma forma inesperada: brandamente. Nada de sharía, preconceito contra coptas ou mesmo apoio ao Irã. Inclusive na reunião dos países não-alinhados (NAM), o presidente Mohamed Morsi criticou a postura iraniana de apoio à Síria.

Na Líbia as coisas realmente foram mais complicadas. Mas também é preciso ressaltar que, ao contrário daquilo que ocorreu nos dos países anteriormente mencionados, Muamar Kadafi tinha o apoio de parte da população e contava com um exército ainda mais forte (semelhante à situação de Al-Assad na Síria). Ademais, houve conflitos tribais após a sua queda como mencionou Putin. Ainda assim eleições legislativas foram realizadas e uma coalizão pró-ocidental, isto é, não fundamentalista, foi instaurada.

Podem conferir a entrevista na íntegra através deste link

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Grexit foi momentaneamente adiada mas ainda pode ocorrer

Antonis Samaras e Angela Merkel.

Depois que novas eleições legislativas foram realizadas na Grécia e o partido de centro-direita Nova Democracia conseguiu o maior número de assentos, seu líder, Antonis Samaras, sofreu para formar um governo de coalizão mas por fim conseguiu. Só lhe restava então enfrentar a crise de peito aberto e esforçar-se ao máximo para manter a Grécia na União Europeia.

No começo foi bastante difícil porque Fotis Kouvelis e Evangelos Venizelos, líderes do Dimar e do PASOK, respectivamente, não estavam de acordo com certas medidas de austeridade. Entretanto, Samaras pôs-se à frente de tudo e, contando com um ministro de finanças que ajudou a colocar a Grécia na UE há alguns anos (Yannis Stournaras), convenceu-os de que seria o melhor para o país.

Há poucos meses o primeiro ministro viajou para Bruxelas mas nada de importante aconteceu. O que marcou de verdade a Grécia desde o início do governo Samaras foi a chegada da troika -comissão formada por FMI, BCE e Comissão Europeia- cuja principal função é fiscalizar as possibilidades que a Grécia tem de cumprir ou não o acordo presente no memorando para que a segunda parcela do empréstimo de 130 bilhões de euros seja liberada.

Os primeiros dias foram de muito alarde na imprensa internacional com reflexo na bolsa de valores. A verdade é que muitos temiam uma pronta avaliação negativa dos chamados "homens de negro da troika". Mas foi aí que a figura de um Samaras com pulso firme começou a aparecer. Ele disse que a nação helênica faria o possível para cumprir o que foi acordado. Nas palavras do jornalista Alexis Papachelas, "Samaras não quer ver a Grécia regressar ao dracma, porque ele sabe que o custo, a pobreza e o desespero que se sentiria fariam a situação atual se tornar um 'passeio no parque'. Ele também se preocupa com o ônus de ser o governante no período de abandono da UE".

Seu plano de austeridade corresponde à uma economia de 11,5 bilhões de euros em um prazo de 2 anos. O país conseguiria isso através de cortes em aposentadorias (por enquanto apenas as pessoas que recebem menos de 700 euros mensais não sofreriam deduções), reduções de salários e privatizações. Entretanto, a outra parte da coalizão -Dimar e PASOK- não estão de pleno acordo com tais medidas (principalmente a primeira).

Prova disso foi que Fotis Kouvelis declarou que queria uma reunião com Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, que viajou à Grécia. Ademais, segundo a edição em inglês do jornal Kathimerini, Evangelos Venizelos pretende "renovar" a política grega de centro-esquerda e para isso contará com a ajuda do Partido Verde da Grécia e também do Dimar. O encontro entre as cúpulas está previsto para o início de setembro, justamente quando o PASOK faz aniversário e a troika divulgará seu relatório. Momento crucial.

Em uma reunião com a chanceler alemã, Angela Merkel, Samaras pediu mais tempo para que a Grécia possa cumprir o acordo: "não estamos pedindo mais dinheiro, queremos apenas um pouco de tempo para respirar. O premiê também fez questão de ressaltar que o país já está trabalhando duro para acatar o memorando.

Merkel decidiu não se pronunciar a respeito do pedido. Suas declarações se limitaram a defender -modestamente- a permanência da Grécia na UE e enfatizar que é preciso esperar o parecer da troika antes de dar qualquer passo. Wolfgang Schäuble (seu ministro de finanças), em contrapartida, se opôs a ideia de Samaras dizendo que "tempo é dinheiro".

Para um país que estava à beira do caos político e econômico há pouco menos de dois meses atrás já podemos dizer que a Grécia respira (com a ajuda de aparelhos, mas respira). Contudo, é importante se ter em mente que este é apenas um obstáculo pelo qual o país que está no seu quinto ano de recessão (e deve atingir exorbitantes 7% em 2012) deve passar até poder finalmente ter um alento.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Paul Ryan será o companheiro de Mitt Romney na chapa republicana

Ryan e Romney.

No fim da última semana o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, finalmente anunciou o nome de seu vice. O escolhido foi o congressista Paul Ryan, de 42 anos, de Wisconsin. Esta escolha deixou ainda mais evidente a abordagem predominantemente econômica na campanha de Romney.

Mas antes de falar sobre o quesito economia, passemos a uma análise de Ryan. Por que Romney o escolheu? Basicamente nos últimos anos com suas propostas de reformulação fiscal -incluindo a interessante ideia de privatizar a previdência social- ele se mostrou como parte da nova geração do Partido Republicano. Geração esta que pretende mudar a cara do partido e literalmente "sair do muro". Outro que também faz parte desta geração é Marco Rubio, senador pela Flórida, que estava entre as opções de Romney.

Para mim a escolha de Rubio seria quase que unicamente uma aposta no voto dos hispanos. Pese o fato de pertencer à ala mais conservadora do partido, seu impacto nacional seria bem menor que o de Ryan. E, de uma forma ou de outra, Romney sabe que apenas um milagre lhe fará obter mais votos que Barack Obama na Flórida (seja de hispanos ou não).

Na tentativa de contrariar o já mencionado aqui pragmatismo em sua campanha, Romney escolheu um vice de retórica bastante afiada e, principalmente, alguém que é muito bem visto pelo Tea Party. Ao longo dos anos Ryan veio "enchendo os olhos" dos conservadores americanos e abrindo as mentes dos mais liberais. E isso não é muito comum.

Agora ele ficou mundialmente conhecido como o homem que quer derrubar o Medicare de Obama (mesmo tendo apoiado o projeto há alguns anos atrás) -o programa de saúde para quem tem mais de 65 anos. Na verdade, ele quer substituí-lo por um programa de pagamentos diretos aos idosos, que poderiam então comprar um seguro privado. Mas por que isso? Basicamente para cortar alguns dos (muitos) gastos estatais. O problema é que tal medida desagrada mesmo aos conservadores, como lembrou Caio Blinder: "A história mostra que a base republicana despreza gastos governamentais e o déficit fiscal em termos abstratos, mas a conversa muda quando programas específicos ameaçam os beneficiados. É fácil se insurgir com a percepção que o governo é muito camarada com gente pobre, mas é outra coisa ser convocado para oferecer sua dose pessoal de sacrifício".

Ainda que a reforma do Medicare esteja um pouco distante, o simples fato de Ryan defender um projeto desta magnitude já revela muito sobre ele. A campanha de Romney saiu do campo da crítica única e exclusivamente econômica para o campo das possíveis soluções, o que é uma grande coisa.

O fato de ele ser próximo do Tea Party não prejudica em nada o ex-governador de Massachusetts. Aliás, muito pelo contrário, isso só une ainda mais os republicanos. O American Conservative, inclusive relembrou os vice-presidentes republicanos que ao longo da história se mostraram mais conservadores que os próprios presidentes. Dentre eles estão Richard Nixon ( vice de Dwight Eisenhower), Spiro Agnew (vice do próprio Nixon e sim, ele era mais conservador que o Nixon!) e Dan Quayle (vice de George HW Bush).

O jornal ainda relembra a simpática (?) Sarah Palin, que esteve na chapa de John McCain em 2008. Entretanto, nenhum destes vices tinha uma abordagem tão efusiva quanto a de Ryan. Será que era esta a injeção de ânimo que faltava à campanha de Mitt Romney? Para William Kristol, editor da Weekly Standard, sim. Tanto que há poucas semanas (antes do anúncio oficial) ele escreveu um artigo intitulado "Vá para o ouro, Mitt" onde falava sobre Ryan e Rubio mas defendia claramente a escolha do primeiro.

Apesar da boa escolha, ainda há um problema com o qual nem Romney nem Ryan parecem saber lidar: política externa. Durante anos no congresso Ryan raramente se mencionou sobre o assunto, evitando até mesmo o posicionamento sobre as guerras. Romney, por outro lado, cometeu algumas gafes recentemente e parece que seguirá cometendo.

Portanto, agora é esperar e ver como se desenrola esta campanha até as eleições presidenciais. A certeza que temos é que os debates serão cada vez mais quentes e o comandante-em-chefe Obama vai precisar mostrar toda a sua experiência política para se reeleger. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O grupamento armado sírio mais organizado está nas mãos de um líbio

Mahdi Al-Harati. Facebook.

Não, o título não está errado. Realmente é um líbio quem comanda o grupo denominado Liwa Al-Ummah (A Bandeira da Nação). Depois de enfatizar tanto a desorganização do Exército Sírio Livre e até mesmo as influências da organização terrorista Al-Qaeda, é muito importante mencionar que existe este bastião revolucionário organizado e sem quaisquer aspirações fanáticas (Sharía).

Quem nos trouxe esta história à tona foi a maravilhosa jornalista Mary Fitzgerald, em artigo publicado no Foreign Policy, onde inclusive entrevistou Mahdi Al-Harati, líbio com passaporte irlandês, que está à frente do grupo. Tal relato serve para desmistificar ao menos um pouco a oposição síria (principalmente por parte dos meios de comunicação orientais, que não fazem uma boa propaganda).

Mas o que teria motivado Al-Harati a lutar na Síria? Antes de responder a este questionamento falaremos sobre a questão de sua terra-natal, a Líbia. Não restam dúvidas de que o autoritarismo do coronel Muamar Kadafi culminou na sua decisão de pegar em armas. Mesmo antes de a revolução "estourar" ele já estava na Líbia. Antes disso vivia com sua esposa na Irlanda e lecionava árabe.

Ao verem seu sucesso e, sobretudo, a sua visão política libertadora não-baseada no fundamentalismo islâmico, influentes opositores sírios ofereceram condições para que ele pudesse formar um grupo armado. Em nenhum momento ele é considerado um mercenário, haja vista que o financiamento vai todo para o Liwa Al-Ummah. Os combatentes possuem não só armas, como também uniformes e inclusive um registro com foto e documentação que é feito por parentes do xeque Al-Harati na Irlanda.

O próprio chefe do grupo diz que há líbios -de sua confiança- no grupo, mas faz questão de relatar que 90% dos já 6 mil combatentes são sírios cansados da ditadura de Assad e também do caos da oposição.

"Havia uma sensação de crescente frustração entre a Síria e os thuwar (revolucionários) sobre sua falta de coordenação. Eles me perguntaram se eu poderia ajudá-los a treinar e se organizar, e eu concordei", afirmou Harati.

Ele também se refere a importância do treinamento para seus soldados, muitos dos quais nunca pegaram em armas: "Estamos aqui para treinar e ajudar os rebeldes da Síria -muitos são médicos, engenheiros e professores- usando a nossa experiência da revolução na Líbia".

A organização é tamanha que, segundo Mary Fitzgerald, aos combatentes também são passadas táticas de guerra. Cá entre nós, isso dificilmente acontece no ESL, até porque quase não há treinamento para eles. Muitos simplesmente passam para o lado dos rebeldes, precisam comprar uma Kalashnikov e atirar. E isso contra um exército preparado é quase uma sentença de morte.

O Liwa Al-Ummah tem até uma página no facebook, onde divulga seus ideais e até mesmo fotos dos combatentes. Há poucos dias, eles exibiram um vídeo no qual muitos rebeldes aderiam ao movimento. Parece que esta atitude tem crescido nos últimos meses. Para um grupo que foi criado neste ano, os números são muitos positivos.

Para aqueles que temem um radicalismo após a iminente queda de Bashar Al-Assad, Harati se posicionou a favor de uma democracia para todas as etnias presentes no país, incluindo os alauítas. O xeque também quer fazer parte do conselho de transição que deverá se formar como ocorreu na Líbia.

Outro objetivo do Liwa Al-Ummah é constituir, futuramente, um partido político na Síria. Todas estas ideias e ações soam como um alívio, já que o desespero nas declarações de pessoas que viram na Al-Qaeda sua única forma de lutar era cada vez mais comum. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O regime de Assad está morrendo aos poucos

ESL em Aleppo. Foto de Ricardo Garcia Vilanova.

Não restam dúvidas de que mais dia menos dia o presidente sírio Bashar Al-Assad irá cair. Mas isso não acontecerá sem que ele lute até as últimas consequências. O que está acontecendo gradativamente, para seu desespero, é o número de baixas de militantes que estavam a seu lado. Segundo o El País, foram 40 deserções de pessoas que formavam o alto escalão do governo.

A mais recente delas foi nesta segunda-feira (06), quando o premiê Riad Farib Hijab anunciou que estava deixando o regime que chamou de "terrorista e assassino". Para piorar a situação, ele mostrou seu total apoio ao Exército Sírio Livre e disse que, em junho, quando foi nomeado primeiro ministro, aceitou o cargo unicamente porque Bashar Al-Assad o ameaçou de morte.

No entanto, este ainda não foi o golpe mais duro que a cúpula de Assad sofreu. Seguramente o atentado terrorista que matou, entre outros, o seu cunhado Bushra Asef Shawkat (um de seus homens de confiança e outro sanguinário) foi muito pior. Como mencionado aqui no Internationale Actuelle, tal atentado mostrou a fragilidade na segurança do presidente. Depois disso muitos chegaram a cogitar sua fuga para Latakia -local de origem dos alauítas- mas a agência estatal Sana desmentiu a informação.

Além disso, outro nome muito próximo de Assad que abandonou o regime foi o general  sunita Manaf Tlass. Ele era filho de Mustapha Tlass, que foi ministro da defesa e amigo de Hafez Al-Assad (pai de Bashar). Manaf era um general extremamente influente e sua saída foi um golpe para o presidente alauíta.

Reparem que até o momento os militares de baixas patentes nem sequer foram listados. Não há um número exato de deserções, mas centenas delas já aconteceram nestes 17 meses de intensos protestos e conflitos no país. O próprio Hijab levantou uma questão interessante: muitos -sejam políticos ou militares-  não se juntam aos opositores por medo. Mesmo o influente Tlass teve certo trabalho até conseguir se exilar e, antes disso, estava em prisão domiciliar.

Todos estes fatos indicam que pouco a pouco toda a cúpula que estava em volta do presidente está caindo. Ele está ficando cada vez mais acuado -tendo apenas o apoio efetivo do Hezbollah e do Irã- e ninguém sabe o que pode fazer em tais condições.

Por outro lado, podemos fazer uma leitura da oposição também: sua desorganização os impede de tomar o poder e instaurar uma democracia (se este for realmente seu desejo). Basicamente o ESL está muito fragmentado e mesmo que agora tenha armas (fornecidas por regimes como os da Arábia Saudita, Qatar e provavelmente Turquia) não tem condições de se firmar.

As duras batalhas que ocorrem simultaneamente em Aleppo (principal cidade econômica da Síria) e na capital Damasco deixa claro o caráter imprevisível do conflito. Há poucos dias os rebeldes foram expulsos de Damasco mas já voltaram a atacar a cidade inesperadamente. Em Aleppo não se sabe quem está vencendo. O único rumor mais forte é o de que o exército de Assad está preparando uma ofensiva para contra-atacar.

A pergunta que fica é a seguinte: quanto tempo mais Bashar Al-Assad vai resistir? Isso é impossível dizer. Inúmeras reviravoltas já aconteceram nesta Guerra Civil e provavelmente ainda acontecerão. Todo este despreparo rebelde pode indicar uma triste prorrogação no conflito.