quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Antes das eleições, hostilidades na Faixa de Gaza recomeçam

Funeral de Ahmed Jabari. AL-JAZEERA.

Nesta quarta-feira (14) a força aérea israelense empreendeu diversos ataques à Faixa de Gaza. Os alvos eram misseis de longo alcance do Hamas e o braço militar da organização, Ahmed Jabari. Em termos militares a operação foi bem-sucedida, haja vista que Jabari e os misseis foram abatidos, mas infelizmente vidas civis palestinas também foram ceifadas.

A nova missão do IDF prosseguiu na quinta-feira (15) e deixou um saldo de 22 mortos (sendo 19 palestinos). O próprio exército israelense confirmou que realizou 340 ataques contra alvos na Faixa de Gaza desde o início da operação Pilar de Defesa. Também nesta quinta veio a primeira resposta do Hamas: dois mísseis foram lançados em Tel-Aviv por volta das 7 horas, menos de uma hora depois de alguns terem atingido a cidade de Rishon Letzion.

No total 305 foguetes atingiram Israel e 130 foram interceptados pelo sistema de defesa. As três mortes do lado israelense aconteceram quando um foguete chegou à localidade de Kiryat Malachi. Relata-se que um bebê de 8 meses também ficou ferido. No lado palestino pelo menos duas crianças morreram só nesta quinta.

A operação Pilar de Defesa começou depois que mísseis palestinos foram disparados em direção ao sul de Israel. As hostilidades em si tiveram início quando um jipe com militares do IDF foi atacado no fim da passada semana. Aí é que as informações se desencontram porque o Times of Israel diz que o veículo estava no seu lado da fronteira, enquanto um colunista do YNet News relata o contrário. Ambos são jornais conservadores.

De qualquer forma, em resposta Israel disparou tiros de aviso (como fez com a Síria nas Colinas de Golã há poucos dias) e foi aí que o Hamas atacou de novo. Se a pressão sobre Netanyahu já era grande, ficou ainda maior.

Pronunciamento de Benjamin Netanyahu.
Perguntado sobre qual a diferença entre os mísseis que o Hamas tem hoje na Faixa de Gaza e os de meses atrás, o analista Thrall Nathan respondeu: "Desta vez não há centenas de milhares de israelenses em abrigos e seus filhos estão indo para a escola. Basicamente, todo o espectro político de Israel estava dizendo que isso era inaceitável e que algo precisava ser feito".

Faz todo o sentido. O país não poderia ficar acuado e sofrendo ataques terroristas. Ademais, é muito provável que o ministro da defesa, Ehud Barak, seja um dos grandes mentores da operação. Ele é conhecido por não ser muito favorável a um acordo de paz "qualquer" com os palestinos e não parece de seu feitio deixar barato este tipo de afronta.

Pelo menos por enquanto Benjamin Netanyahu e seu partido, o Likud, saíram fortalecidos para as eleições parlamentares de janeiro. Como já foi mencionado, a população pedia uma dura resposta e os setores políticos também, tanto que até mesmo membros da (cada vez mais enfraquecida) oposição se mostraram de acordo com a atitude do primeiro-ministro. Para ele isso é bom. Ainda mais agora que Ehud Olmert pode voltar ao cenário político do país.

O ex-premiê Olmert foi absolvido de acusações de corrupção recentemente e é a principal aposta centrista da oposição, capitaneada pelo Kadima de Shaul Mofaz, para vencer Netanyahu. Vale lembrar que, em 2008-2009, Olmert comandou a missão Lead Cost (que foi um pouco mais agressiva).

Em declaração oficial na quarta-feira, Benjamin Netanyahu disse o seguinte: "o Hamas escolheu aumentar seus ataques nos últimos dias. Nós não vamos aceitar ameaças de foguetes contra nossos cidadãos.

"Danificamos seriamente a capacidade do Hamas de lançar mísseis de longo alcance para o centro de Israel. Eles atacam nossos cidadãos de propósito, enquanto se escondem atrás de civis. Nós fazemos de tudo para não prejudicar estes civis".

Segundo Al-Jazeera, uma criança palestina de 2 anos morreu.
No entanto, Netanyahu também está ciente dos riscos que corre com esta operação. Analisando friamente, hoje a eleição está ganha, mas se a resposta do Hamas for mais dura do que o esperado, fatalmente obrigará o IDF  a fazer uma incursão terrestre mais prolongada, o que poderia provocar um maior número de baixas. 

Outro que tem papel-chave no conflito é o Egito. Segundo Caio Blinder, "uma opção para Mohamed Morsi é fazer vista grossa se militantes do Hamas lançarem ataques contra Israel a partir da península do Sinai. Mas se as coisas degringolarem, numa opção extrema, Morsi poderá até questionar o tratado de paz do Egito com Israel (aqui os militares terão voz). E este tratado é essencial para Israel".

Em suma, Israel precisava mesmo se defender e o fez. Atacou cirurgicamente as opções que o Hamas tinha de ameaçar o país e o deixou sem um de seus cérebros militares. De momento, é difícil acreditar que a organização terrorista tenha capacidade para, militarmente, responder a altura. Mas ainda é muito cedo para prever o desenrolar do conflito.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

GOP já fala em reforma

The Elephant.

Há três dias Barack Obama foi reeleito presidente dos Estados Unidos e, por incrível que pareça, o assunto que está em voga é o Partido Republicano. A derrota de Romney foi um verdadeiro balde de águia fria nos planos do GOP, servindo para que muitos dirigentes acordassem e finalmente começassem a exigir reformas.

Apesar da pequena diferença (pouco mais de 2,5 milhões), ficou claro que Obama teve o voto popular e Romney não fugiu de sua tradicional base de apoio. Aliás, até perdeu parte dela em virtude de suas mudanças de postura e do próprio Partido Republicano. A perda mais sentida foi a do eleitorado latino, que apoiou em peso o candidato Democrata.

A rigor, Romney conquistou apenas 29% dos votos latinos. E para isso há inúmeras explicações. Uma delas é sobre a rigorosa opinião a respeito da deportação imediata de imigrantes ilegais que ele mencionou nas primárias. Estes eleitores podiam até estar irritados com as deportações de Obama (lembrando a lei do Arizona), mas neste caso acharam "menos pior" apoiarem o Democrata outra vez.

Para muitos especialistas conservadores a escolha de Paul Ryan não foi um total equívoco, mas havia nomes melhores. Dentre estes "nomes melhores" os mais fortes era Susana Martínez, governadora do New Mexico; e Marco Rubio, senador da Florida. Dizem por lá que a imprensa -principalmente William Kristol- influenciou na escolha de Ryan.

Mas não foram apenas os latinos que não se empolgaram com Romney. As mulheres, os asiáticos, os afro-americanos e os jovens também estiveram do lado de Obama. Seguramente muitos estarão pensando que isso é algo obvio. E realmente é. Os Democratas sempre contaram com os votos das minoras. O anormal é que, nas duas últimas eleições, o apoio republicano entre eles tem sido muito menor. Nas palavras de Caio Blinder, "numa aritmética grosseira, para vencer, os Democratas precisam de 80% do voto das minorias e 40% dos brancos". Um número assustador.

E isso nos leva a questão de por que o GOP tem perdido tantos eleitores nos últimos anos, inclusive em bastiões fieis, como o Colorado onde Obama já ganhou duas vezes. O que vejo com bastante clareza a este respeito é a forte influência do Tea Party, movimento radical que ganhou força logo após a vitória de Obama sobre John McCain.

Os ultraconservadores, basicamente, tentaram resgatar alguns valores, criticar os excessivos gastos do governo e até mesmo apelar para um certo populismo. Mas o grande problema é o radicalismo de sua metodologia. Como mencionado no artigo anterior, a pressão exercida pelo Tea Party foi fundamental para que Romney pendesse para a direita e até mesmo pela força de Ricky Santorum.

Em um impactante artigo na FOX, intitulado "O que Reagan faria após a vitória de Obama?", o colunista Martin Sieff criticou com extremo rigor a campanha eleitoral republicana e até mesmo o Tea Party, chamando de hipócritas aqueles que com as palavras idolatraram Ronald Reagan mas com as ações fizeram o oposto.

Para Sieff, "Ronald Reagan era um conservador social e um dos maiores porta-vozes dos autênticos valores morais da história da política americana. Mas ele nunca foi fanático ou tolo. Ele nunca se indignou com mulheres ou qualquer outro grupo, expressando ridículos, ofensivos ou simples sentimentos absurdos. Uma tolerância má julgada por estes palhaços custaram nada menos do que as eleições para o Partido Republicano".

O consolo é que este insucesso está fazendo o movimento conservador pensar um pouco mais e a tendência é que o Tea Party por fim perca força. Ainda neste artigo Sieff mencionou que Reagan sempre se mostrou próximo dos jovens concedendo, inclusive, oportunidades a muitos deles em seu governo, estando sempre aberto a sugestões. O mesmo aconteceu com George W. Bush, mas não com McCain e Mitt Romney.

O que nos faz pensar que as coisas mudarão para as próximas eleições -não apenas presidenciais- é a quantidade de bons -e sobretudo jovens- valores no Partido Republicano. Mais até do que no Democrata. Além do já citado Marco Rubio, Jeb Bush, Ted Cruz (esse sim do Tea Party), Rand Paul e o candidato a vice Paul Ryan se mostram como nomes potentes e inovadores. No Partido Democrata, ao menos para as eleições presidenciais, o nome de Hillary Clinton é o mais cotado.


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quem na verdade é Mitt Romney?

Certas imagens nem precisam de legenda...

Após a derrota para o presidente Barack Obama o candidato republicano Mitt Romney se dirigiu a seus eleitores agradecendo pelo apoio e pedindo confiança no comandante-em-chefe para que ele possa fazer um bom trabalho. Mas nem sempre esta serena imagem de Romney foi transmitida aos eleitores durante a campanha.

A controvérsia do ex-governador de Massachusetts começou nas primárias quando, ao contrário do esperado, ele se mostrou um tanto radical em seus pontos de vista. As principais colocações um tanto quanto estranhas dele se concentraram na política externa (principalmente com as gafes) e na imigração. Quanto ao aborto e o casamento homossexual houve realmente uma mudança de opinião. Mas isso aconteceu há muito tempo e não deve ser levado em consideração no que diz respeito à atual campanha.

Mesmo se aproximando da ala mais conservadora do Partido Republicano - Tea Party- Romney não agradou muito e sofreu demais nas primárias. Por vezes esteve atrás do católico ultraconservador Ricky Santorum (que prometia declarar guerra ao Irã assim que eleito). Por sorte, ao menos a frieza do empresário  permaneceu e, aos poucos, ele foi conseguindo contornar a situação.

No entanto, as primárias lhe deram dois maus resultados: grandes gastos (muito além do esperado) e uma imagem distorcida que foi construída (deturpada?) por ele mesmo. Para muitas pessoas é difícil de entender por que ele fez isso. Realmente não foi a melhor atitude a ser tomada mas, naquele momento, se converteu na salvação de Romney. Todos devem ter em mente que, caso ele se mostrasse o moderado que é (e sempre foi, até as primárias), a vitória de Santorum seria evidente e nem mesmo uma parcela do eleitorado americano votaria nele. Resultado: Obama ganharia de lavada. Aliás, o presidente concorreria sozinho à reeleição.

Notem que até o momento o movimento Tea Party foi mencionado apenas uma vez. Não é mero acaso. Foi de propósito mesmo. O que acontece é que não quero entrar em detalhes sobre esta ala ultraconservadora do Partido Republicano porque pretendo falar dela em outro post, onde o foco será o partido. Por enquanto saibam de uma coisa: o Tea Party foi decisivo para esta guinada para a direita de Mitt Romney.

O empresário estava entre a cruz e a espada. Se ele mantivesse sua postura moderada ia lutar contra a ira do Tea Party. Graças a esta ameaça, preferiu encarnar um político que não é e perdeu a confiança de muitos republicanos, mas principalmente de indecisos que não estavam tão contentes assim com Obama e que seguramente votariam em Romney caso ele se mostrasse uma boa alternativa.

A escolha do vice foi mais uma forma de se aproximar dos mais conservadores e oferecer uma verdadeira reforma econômica aos EUA. O jovem congressista Paul Ryan, de Wisconsin, é conhecido por ousar em suas ideias econômicas e ficou à frente do senador hispano Marco Rubio (ainda que a primeira opção de Romney para vice seria o governador de New Jersey, Chris Christie).

Após passar pelo primeiro obstáculo, o das primárias, Romney logo teve a árdua tarefa de deixar para trás o segundo: a imagem de empresário antipático que não tem a mínima noção das necessidades do povo. Tudo seria mais fácil (menos difícil?) se ele tivesse uma vida privada mais exposta como a de tantos outros candidatos. O problema é que todos -inclusive a imprensa- só conheciam o Romney profissional ou, quando muito, o Romney mórmon. Pouco sabiam do avô, do pai ou do marido. Ademais, carisma como o de Obama é algo que ele não tem.

O cenário só piorou quando um modesto jornal de esquerda divulgou um vídeo onde o ex-governador falava com benfeitores de sua campanha em Boca Ratón, na Florida. Neste fatídico vídeo Romney fez a famosa declaração dos 47% e deixou os democratas nas nuvens. Para muitos as eleições acabaram no dia em que este vídeo foi ao ar. Mas, para surpresa geral, vieram os debates e Romney mostrou aquela que é a sua verdadeira face.

No primeiro dos três ele ganhou "de lavada" de um apático e estranho presidente Obama (que deve ter sido afetado pela "síndrome do primeiro debate) e subiu rapidamente nas pesquisas. A força em suas palavras, a vontade, as alternativas econômicas e as críticas ao governo o fizeram, pela primeira vez, passar confiança ao povo americano.

No segundo debate a política interna ainda foi o foco principal e Romney também foi bem. Ele enfrentou um Obama já "acordado" e disposto a mostrar que estava no páreo para vencer, mas nem por isso se intimidou. Aliás, o que aconteceu foi que os dois intimidaram os pobres eleitores indecisos. Em dado momento parecia que iam perder o controle. De uma forma ou de outra, deu empate.

A terceira e última altercação (que por sinal foi muito chata) teve como tema política externa. Na ocasião notamos maior cautela de Romney, que se limitou a concordar com Obama em muitas questões e, sempre que pôde, deu um jeito de trazer o diálogo para a sua área, a economia. Mais um empate (este, por sinal, um 0x0 bem monótono).

No final das contas Obama voltou a subir nas pesquisas e os dois candidatos ficaram oscilando entre empates e pequenas vantagens para um e para outro. As campanhas nos estados indecisos se intensificaram. Mas aí veio Sandy. A tragédia que vitimou 87 pessoas serviu para dar uma pausa na corrida eleitoral. Seria desumano continuar e Obama precisava tomar à frente da situação.

Querendo ou não, a imagem humanitária do comandante-em-chefe o ajudou demais na campanha. Ele arregaçou as mangas e foi trabalhar como realmente deveria, mas o que tocou o coração dos americanos foi ver suas expressões de choque e visível abalo com a tragédia. Talvez Romney jamais conseguiria se mostrar assim. Não por insensibilidade, mas por personalidade. Outro ponto para o carisma de Obama.

Quando o grande dia chegou ainda havia esperanças entre os republicanos, mas elas foram extirpadas quando Obama venceu na Florida. Principalmente porque, segundo as pesquisas, o estado estava mais para Romney e ainda assim o caminho até a Casa Branca seria um tanto complicado. Dignamente Mitt Romney aceitou a derrota e cumprimentou o adversário.

Mas o mais revoltante foi ver a reação de parte da imprensa conservadora e de gente do Partido Republicano. O Tea Party criticou-o por ser muito moderado (!) e a ala mais liberal republicana o taxou de incompetente. E pensar que ao menos parte desta situação seria diferente se ele, como outros Republicanos, tivesse bajulado Rupert Murdoch. Não o fez e precisou caminhar com as próprias pernas até o fim para ser considerado o grande culpado pela derrota.




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Four more years

Obama ligou pessoalmente para eleitores.

Nesta terça-feira (6) aconteceram as eleições presidenciais nos Estados Unidos e, por uma vantagem de 97 delegados, o presidente democrata Barack Obama foi reeleito para mais quatro anos de mandato. Nos estados indecisos, apesar da massiva campanha de Romney, o comandante-em-chefe levou a melhor.

Como esperado, a diferença entre Obama e Mitt Romney foi muito menor do que a do democrata sobre John McCain em 2008 (10 milhões na ocasião e pouco mais de 2,5 agora), mas ainda assim foi uma vitória contundente. O estado da Florida foi o primeiro termômetro para os resultados, haja vista que a apuração lá começou primeiro. Houve inúmeras reviravoltas mas, por uma diferença de 1 pp, deu Obama. A partir daí a coisa já ficou complicada para Romney. A maioria das pesquisas colocaram-no como favorito no estado e esta poderia ser sua grande arrancada. Em resumo, se ele vencesse na Florida nada o impediria de conquistar outros estados indecisos.

Mas aí vieram Virginia e Colorado. Outra vez o presidente levou vantagem. No primeiro Romney até começou bem, mas logo que aconteceu a apuração na região metropolitana de Washington DC, bastião democrata, a cor azul predominou. Obama bateu McCain no Colorado em 2008 e fez o mesmo com Romney em 2012. A diferença foi de 4% (51 a 47) em um estado que já foi "território" dos republicanos por muito tempo.

Em Ohio Romney apelou para seu eleitorado: homens brancos mais velhos, evangélicos e muitos jovens. Os primeiros e os últimos até acudiram às urnas, mas o número de evangélicos não foi dos melhores. O candidato republicano queria ao menos "resgatar" aqueles que votaram em Bush. Não deu certo e Obama venceu por 50% a 48%.

Não restam dúvidas de que a economia foi o "carro chefe" da corrida presidencial americana (como diziam os republicanos, "economia, estúpido!") e justamente ela culminou na reeleição de Obama. Inicialmente parece contraditório, não? Mas acalmem-se. A verdade é que 60% do eleitorado colocou a economia como "motivo número 1" nestas eleições e grande parcela deles culpou George W. Bush pelas dificuldades que Obama encontrou em 2008. Resumindo, o democrata trabalhou como pôde quando pegou a "batata-quente" nas mãos. Ademais, o eleitorado não considera o déficit como principal problema do governo Obama, portanto, ele se deu bem (a responsabilidade pelo déficit americano deve-se em grande parte às políticas do comandante-em-chefe).

Ainda dentro do fator economia, um dos grandes contribuintes para a reeleição de Obama foi Romney. Seu histórico como grande empresário o deixou com uma imagem ruim frente à população ao invés de revelá-lo um administrador capacitado para liderar o país. A imagem de milionário alheio aos verdadeiros problemas do país afastaram-no até mesmo da classe média, sobretudo nas primárias republicanas. Ele conseguiu se recuperar ao longo da campanha, mas não o suficiente para mostrar que poderia equilibrar o orçamento dos EUA melhor do que Obama. Aliás, os cortes de gastos prometidos para o Medicare e o Obamacare só afugentaram eleitores.

No quesito demografia nem Obama esperava tamanho apoio. Tudo indicava, em 2012, uma participação maior do eleitorado republicano. Inclusivea cúpula do partido estava contando com isso. Porém, o contrário aconteceu. Além de perder o eleitorado feminino que em determinada ocasião esteve a seu favor, os jovens, negros, latinos e asiáticos tiveram participação recorde e votaram em favor de Obama. 

Em números, as mulheres compõem 54% do eleitorado americano e deram a vitória ao presidente por uma diferença de 12 pontos (entre os homens Romney ganhou por 7). Se em 2008 os negros, latinos e asiáticos representaram 24% dos eleitores, em 2012 esse número cresceu para 26%, índice que claramente favoreceu Barack Obama.

Resumindo esta primeira reflexão sobre as eleições nos Estados Unidos, a população claramente percebeu que o país não anda bem das pernas, mas faltou carisma e firmeza a Mitt Romney para convencer a todos de que a culpa maior era de Obama e que ele (Romney) poderia resolver o problema.

domingo, 21 de outubro de 2012

Atentado terrorista acaba com a paz que reinava em Beirute


Últimas homenagens a Hassan.
Na última sexa-feira (19) a cosmopolita Beirute, capital do Líbano, foi palco de algo que não se via desde 2008: um ataque terrorista. No distrito de Ashrafiyeh (bairro cristão) um carro-bomba explodiu, matou oito pessoas e deixou mais de 100 feridas. Dentre os mortos estava o chefe da inteligência libanesa, Wissam Al-Hassan, homem que tinha muitos inimigos poderosos.

Hassan era um sunita influente dentro do cenário libanês. Muito conhecido por investigar casos um tanto polêmicos. O primeiro deles talvez tenha sido um dos mais emblemáticos da história libanesa, o assassinato do premiê Rafik Hariri no ano de 2005. Há poucos anos o senhor Hassan, que investigou o caso desde o início, descobriu que agentes sírios e membros do grupo terrorista Hezbollah estavam envolvidos. Mas, misteriosamente, os indícios perderam força.

Ele também foi responsável por descobrir espiões israelenses em solo libanês juntamente com o ministro pró-sírio Michel Samaha. O curioso é que este mesmo Samaha também foi alvo de investigações de Hassan. O chefe da inteligência descobriu que o senhor Samaha planejou junto a Bashar Al-Assad, ditador sírio, uma série de atentados no Líbano. Um motivo para assassiná-lo, não acham?

Os suspeitos: Hezbollah e Síria

Ainda que sejam citados separadamente como suspeitos, o grupo terrorista caminha junto com o regime sírio*. Ambos, após o incidente, declararam que não tinham qualquer relação com ele e que repudiaram o andamento dos fatos apesar das evidentes rixas com Hassan.

A Síria teria todos os motivos para perpetrar tal ataque. Alguns analistas, inclusive, o compararam em magnitude ao que vitimou a cúpula do presidente sírio há poucos meses atrás. Além disso, seria mais uma estratégia de Assad para desviar o foco da matança que acontece em seu país (a oposição já contabiliza cerca de 35 mil mortos), como fez -e está fazendo- na vizinha Jordânia.

Para o jornalista Rami Khouri, "quem fez este ataque queria entregar uma mensagem de que eles podem alcançar qualquer pessoa, que podem atingir o mais alto nível da inteligência".

Ele concluiu dizendo que o atentado em Beirute é uma consequência lógica do que vem acontecendo na Síria nos últimos 19 meses: "tem havido um aumento constante da violência e agora vamos para a próxima etapa de atentados, assassinatos e talvez até confrontos".

As disputas pelo poder no Líbano

Logo após o atentado parte da população foi às ruas protestar contra o Hezbollah (que já mandou militantes defenderem os bairros xiitas) e pedir a saída do primeiro-ministro sunita Najib Mikati -muitos acreditam que ele está disposto a enfrentar o grupo terrorista xiita- que chegou a pedir demissão, mas foi impedido pelo presidente Michel Suleiman.

Ele também atendeu a um apelo externo, visto que muitos chefes de estado -inclusive o presidente francês François Hollande- pediram que ficasse para manter a estabilidade no governo libanês. Para se ter uma ideia, a situação do governo no país é a seguinte: o presidente Suleiman é cristão (maronita), o premiê é sunita e a maioria no Parlamento é xiita -representada pelo Hezbollah, que para quem não sabe é um partido político.

*em setembro o portal Al-Arabiya teve acesso a documentos secretos do governo sírio nos quais constavam provas de que militantes do Hezbollah foram enviados para a Síria logo no início do levante popular.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Um anjo no meio do inferno

#MalalaYousafzai

Assim pode ser descrita a menina paquistanesa Malala Yousafzai que foi vítima de um atentado perpetrado por terroristas do Talibã. Motivo? A garota de 14 anos defendia mais educação para as meninas e criticava o fundamentalismo do grupo terrorista.

O admirável ativismo de Malala já lhe rendeu prêmios no Paquistão e até mesmo reconhecimento internacional. Ela, que também fala inglês, teve um blog no site da BBC de 2007 a 2009. "Eu queria gritar e dizer ao mundo o que estávamos passando. Mas não foi possível. Os talibãs teriam matado meu pai, minha família inteira. Então eu escolhi escrever através de um pseudônimo e funcionou", disse Malala.

A jovem mora no Vale do Swat, região paquistanesa onde o Talibã ainda tem forte influência e, nos últimos anos, sentiu a necessidade de protestar por seu direito e pelo das outras meninas. Com o passar do tempo as normas em sua escola -onde inclusive seu pai é diretor- foram enrijecendo até o momento em que ele precisava cobrir até seu rosto, coisa que antes não era necessário.

Mais do que assustada Malala estava indignada com tudo o que se passava a seu redor e não tinha medo de se expressar. Aliás, seu único medo era por sua família. Agora pensem, uma menina de 14 anos com toda esta coragem e este senso de justiça é algo mais que admirável. Ela tinha tudo para se deixar levar pelas ameaças talibãs, mas preferiu enfrentar os terroristas cara à cara em um país onde as mulheres vergonhosamente desconhecem seus direitos básicos.

E justamente o fato de elas não terem a mínima consciência do que podem ou não fazer é bom para o Talibã. Existe uma frase que diz, "o controle do opressor está na mente do oprimido". Sendo assim, quanto mais ignorantes forem as pessoas, mais fácil é manipulá-las. Ou vocês acham que os militantes que atacaram Malala são inteligentes a ponto de ler e interpretar o Alcorão ou qualquer outro livro?

O ataque aconteceu quando ela e seus amigos voltavam da escola. Segundo depoimento de um amigo de Malala, "eles (talibãs) pararam nossa van escolar. Estavam de bicicleta. O homem mascarado manteve a arma apontada para nós enquanto o outro gritava por Malala". Viram só a que ponto chega a covardia destes animais? Eles atacaram crianças indefesas e, como se não bastasse isso, quando souberam que Malala estava viva prometeram novos ataques.

Na semana em que o Prêmio Nobel da Paz foi concedido à União Europeia, a garota Malala estava morrendo no Oriente Médio por lutar praticamente sozinha contra um grupo terrorista visando apenas direito à educação para meninas.

A história em si já é chocante e deixa qualquer um indignado. Mas é impossível conter as lágrimas ao ler o depoimento do jornalista paquistanês Owais Tohid, que por muitas vezes entrevistou Malala: "Na terça-feira quando minha filha me chamou, Malala estava sendo levada às pressas para o hospital. Quando falei com seu pai, ele disse que estava de pé a seu lado, segurando sua mão. 'Não se preocupe, papai. Ficarei bem e a vitória será nossa', disse ela antes de perder a consciência.

"Cheguei em casa com o coração apertado e com raiva. Minha filha tinha dormido sobre um livro intitulado 'Mulan', um conto popular que lemos juntos sobre uma heroica menina chinesa que lutou contra os mongóis e salvou sua aldeia. Eu a segurei com força, tentando não acordá-la, porque no dia seguinte ela tinha escola -o que era o sonho de Malala".

Repito, nem mesmo um coração de pedra consegue se segurar depois destas palavras e conhecendo a história de Malala. Isso só deixa ainda mais evidente que qualquer diálogo com terroristas é impossível. A única linguagem que eles entendem é a do stick. Portanto, repudio quaisquer críticas à política de drones adotada por Barack Obama.

Enquanto governos forem complacentes com este tipo de terroristas, mais meninas como Malala sofrerão até o fim de suas vidas sendo forçadas a se calarem. Já basta!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Biden tropeçou nas próprias pernas, mas tudo ficou na mesma

Esta ainda foi uma risada mais contida. POLITICO.

Depois da grande vitória de Mitt Romney no primeiro debate presidencial, a importância da altercação entre Joe Biden e Paul Ryan foi ainda maior. A missão de Biden era acalmar as coisas, visto que o presidente Barack Obama foi assustadoramente apático frente ao candidato republicano e pela primeira vez se colocou atrás nas pesquisas (em praticamente todas).

Política externa, economia e segurança estiveram em voga, mas o que chamou de verdade a atenção no debate foram as reações de Biden. O vice-presidente democrata -que é 27 anos mais velho que Ryan- sorriu ironicamente o tempo todo e fez sinal de negação com a cabeça. Isso quando não interrompeu Ryan durante suas perguntas (segundo a FOX foram 82 interrupções).

Sua postura extremamente ofensiva já era esperada e uma retórica mais afiada que a de Ryan também não seria surpresa. O problema é que suas reações o prejudicaram muito. Alguns jornalistas conservadores o compararam a Al Gore, que em 2000 -no debate contra George W. Bush-, suspirou com raiva e mostrou uma expressão facial um tanto agressiva. Dadas as devidas comparações, ambas atitudes foram extremamente desrespeitosas.

Para Charles Krauthammer, "o debate aconteceu em vários níveis. Se você apenas ler, achará que deu empate. Se ouvir, Biden ganhou. E se ver pela tv, ele perdeu. O vice-presidente adotou uma postura agressiva e forte, mas seu comportamento na tv foi problemático".

Nada descreve melhor o debate de quinta-feira (11) como esta declaração de Krauthammer. A agressividade de Biden cumpriu seu objetivo: aliviar as coisas até o próximo debate presidencial. Obama ainda era o centro das atenções e sua queda nas pesquisas precisava parar. Aí é que entra Joe Biden. Para sua sorte, as gafes que ele geralmente comete não acontecem nos debates.

Ao contrário de Obama, ele fez questão de enfatizar a declaração de Romney sobre os "47%" que vazou para a imprensa há alguns meses, mesmo que a fraca moderadora Martha Raddatz não tenha perguntado sobre o assunto. Ryan se limitou a responder que Romney está preocupado com todos os americanos e que "às vezes podemos nos expressar mal em certas declarações".

O vice de Mitt Romney sabia exatamente o que estava por vir e não ousou responder na mesma moeda. Ele permaneceu bastante calmo durante os ataques, suportou  as interrupções de Biden e apenas deu respostas moderadas. Em questões onde podia se complicar, como aborto e política externa, sua moderação o salvou.

No início ele até criticou o governo Obama pelo atentado que vitimou o diplomata Chris Stevens em Bengazhi dizendo que este era apenas um dos muitos reflexos da fraca política externa do atual presidente. Mas, devido a sua pouca experiência no assunto (menor ainda que a de Romney), ele não "abriu ainda mais o leque" e deixou Biden rir à vontade.

No final das contas, o debate terminou empatado. Mas isso não quer dizer muita coisa, já que Joe Biden fez muito bem o seu papel e as pesquisas devem se manter estáticas até terça-feira. Nas palavras de William Kristol: "O debate vice-presidencial foi ocasionalmente divertido para os partidários de ambos os lados. Mas em última análise, eu suspeito, ele não irá provar nada. É difícil acreditar que ele irá mudar os votos ou dar algum impulso".